Jornal do Brasil
Monique Cardoso, RIO - O que se pode dizer de um grupo musical em que os integrantes – são sete – raramente sobem ao palco durante as apresentações para defender suas músicas? Estranho? Inusitado? Nem tanto.
Há 10 anos sobrevive – e bem – no cenário da música de concerto carioca o Prelúdio 21, conjunto cujos instrumentos musicais são apenas lápis e papel.
Formado exclusivamente por compositores, o conjunto engrossa a produção contemporânea brasileira, tendo como principal característica a apresentação de peças de todos eles a cada concerto.
Neste domingo, o repertório inédito dos artistas pode ser conhecido a partir das 17h, na Sala Cecília Meireles, com interpretação do tradicional grupo vocal Calíope.
– Um grupo de compositores é, na essência, um grupo de produtores – define um dos integrantes, Caio Senna, porta-voz informal do grupo.
– Trabalhamos juntos em prol da nossa música. Apesar de termos estilos e personalidades diferentes, sempre há elementos que unem nossos trabalhos, como a temática dos concertos, as formações musicais.
Criado em 1998 nos corredores da Faculdade de Música da Uni-Rio, o Prelúdio 21 vem se tornando cada vez mais conhecido do público.
Este ano conquistou uma série no Centro Cultural da Justiça Federal, que ocupará toda a temporada do ano que vem, de abril a novembro.
Além de Caio Senna, o grupo é formado por Alexandre Schubert, Heber Schünemann, J. Orlando Alves, Marcos Lucas, Neder Nassaro e Sergio Roberto de Oliveira. Apesar de todos trabalharem com criação, Senna garante que não há espaço para vaidade:
– Trabalhamos com todo tipo de estética. O que nos sustenta é o respeito pela música do outro.
Os autores costumam se reunir periodicamente para discutir a proposta de cada concerto. O objetivo é garantir variedade para as apresentações, mas também direcionar o trabalho de composição de cada um. Embora haja uma aura em torno da tal inspiração que move os compositores, o trabalho do grupo é bem objetivo. No ano que vem, os sete pretendem gravar um CD para registrar a produção.
– Primeiro decidimos qual será a formação musical que vamos usar em cada concerto. Só depois trabalhamos nas obras – conta.
O método, diz Caio Senna, às vezes é um tanto angustiante. E exige criatividade.
– Não crio nada ao meu bel prazer. Tudo que faço é encomenda para o Prelúdio – revela ele, que está trabalhando em peças para para clarineta, trompa e piano, piano e percussão e quarteto vocal.
Todos têm formação de instrumentista, mas a subida ao palco é eventual. Caio Senna é pianista e compositor há 30 anos. Às vezes sobe ao palco, mas só para apresentar as próprias músicas.
Alexandre Schubert é outro que também faz raras participações com seu violino. Os compositores admitem que não vivem exclusivamente da criação musical. Boa parte deles dá aulas. E todos emprestam o talento à música popular, fazendo arranjos, gravações.
– É delicado. A gente quer ser tocado, quer sobreviver da composição. É meio narcísica essa coisa de querer ser ouvido, mas também é muito uma necessidade de querer se expressar. Trabalhar como compositor não é uma fantasia. Eu me sinto adequado fazendo isso que faço.
O ritmo de produção e a convivência intelectual fazem com que um influencie o trabalho do outro, embora não seja comum discutirem as partituras em grupo.
– Sempre procuramos saber o que o outro está lendo, ouvindo. A inspiração é mútua, a ponto de a gente perceber que a música do outro é melhor do que a nossa própria música.
[20:53] - 05/12/2008 -
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