Alvaro Costa e Silva, JB Online
RIO - Nesta entrevista, Eric Nepomuceno – que acaba de reunir 41 de seus contos (dois deles inéditos) em uma Antologia pessoal (Record.352 páginas. R$ 49) – debruça-se sobre o gênero ao qual se dedica desde 1973 com elaboração de formiguinha e sensibilidade de borboleta. O escritor e tradutor elabora uma definição de conto – “giro ao redor de um só eixo” – elege seus relatos prediletos – “O perseguidor”, de Julio Cortazar, e “A força humana”, de Rubem Fonseca, entre outros – comenta as relações entre jornalismo e literatura e explica por que até hoje não escreveu um romance. Mais por exigência da técnica que por mania, Eric escreve à noite, sempre à mão, usando tinta preta e tendo ao lado um copo de vinho tinto.
O escritor argentino Mempo Giardinelli publicou Assim se escreve um conto, no qual reuniu entrevistas com escritores que comentavam suas experiências com o gênero. No questionário, duas perguntas eram obrigatórias: 1) O que significa o gênero conto para você? 2) Quais os melhores contos que leu em sua vida? Pode responder a ambas?
Bem, o conto, para mim, é uma história contida, contada – perdão pelo trocadilho involuntário... – num espaço menor. Uma história que se limita em si, que gira ao redor de um só eixo. Não é apenas uma questão de extensão: é preciso criar uma atmosfera, uma tensão, um ritmo, uma respiração, tudo contido num espaço breve. Não lembro quem disse que o romance está para o cinema assim como o conto está para a fotografia. Mas concordo plenamente. Quanto aos melhores contos que já li, divido a resposta em duas. Primeiro, contos específicos: “O perseguidor”, de Julio Cortázar; “A força humana”, de Rubem Fonseca; “Esses Lopes”, de Guimarães Rosa; “Diga que não me matem”, de Juan Rulfo; “O rastro do seu sangue na neve”, de Gabriel García Márquez; “Montanhas como elefantes brancos”, de Ernest Hemingway; “Tão triste como ela”, de Juan Carlos Onetti. E, segundo, autores que admiro profundamente, e que prefiro citar sem mencionar contos específicos: Jorge Luis Borges, Tchecov e, mais próximos, Lygia Fagundes Telles, Luis Vilela, Sérgio Sant'Anna e Raymond Carver. Claro que há outros, claro que há os clássicos.
Escrever um bom conto é mais difícil que escrever um bom romance? Você já tentou escrever um romance?
Dizem que Faulkner disse: “Romancista é o escritor que não conseguiu ser contista, e contista é o escritor que não conseguiu ser poeta”. Concordo com um aspecto dessa frase: a poesia é uma forma superior de expressão humana. Eu gostaria de ter escrito qualquer coisa de Juan Gelman, por exemplo, e do Ferreira Gullar. Tirando isso, a única coisa que posso assegurar é que escrever contos é muito, mas muito difícil mesmo. Não sei se mais difícil que romance, mas concordo plenamente com o que disseram Cortázar e García Márquez. O primeiro disse, entre outros muitos acertos sobre o gênero, que um romance é uma luta que você pode ganhar por pontos. O conto, não: você só vence se for por nocaute. O segundo disse que escrever romance é como erguer uma parede de tijolos, peça a peça, pouco a pouco. E que o conto é uma parede de concreto armado. Quanto à segunda pergunta: há 42 anos vivo do que escrevo. Nunca tive outro ofício na vida. Portanto, claro que se eu me sentar e decidir escrever 300 páginas, em vez das três ou cinco de um conto, saberei fazer. Mas o resultado seria falso. A história vem com a sua forma. Nunca me preocupei com isso. Os editores se preocupam: conto vende menos que romance... Minha única preocupação é contar a história que me veio, e contar da melhor maneira possível.
“Dizer o essencial”, característica que o crítico Alfredo Bosi aponta na sua prosa, poder ser o fruto da contaminação ou influência do jornalismo na sua ficção? Ser jornalista ajuda ou atrapalha o escritor?
Antes de mais nada, gostaria de dizer que o texto de Alfredo Bosi, que apresenta minha antologia pessoal, é – além de especialmente honroso para mim, como seria para qualquer autor de qualquer geração – absolutamente comovedor, pela generosidade de suas palavras. Não creio que ser jornalista atrapalhe o escritor, a menos que o escritor se deixe sufocar pelo afã opressor do ofício de jornalista. Volto a Hemingway, para lembrar que ele disse que o jornalismo pode ajudar muito um autor, desde que o autor saiba saltar fora a tempo. No meu caso, aprendi muito com o jornalismo e com os jornalistas com os quais convivi, numa sorte tal que foram os mais brilhantes de suas gerações. De muitíssimas gerações, aliás. A concisão, por exemplo, é uma exigência do jornalismo, mas também deve ser da literatura de ficção. Mesmo autores de prosa copiosa, como García Márquez, têm – no caso dele isso é muito evidente – uma preocupação enorme com a concisão. Lembro de um de meus mestres maiores, Murilo Felisberto, me dizendo que não há um só assunto que não caiba, em sua essência, em vinte linhas. Isso, no jornalismo. Lembro outro de um de meus mestres maiores, se não o maior, Juan Rulfo, me dizendo que escrever é cortar e cortar e cortar. Isso, na literatura de ficção. Um jamais conheceu o outro. Os dois estavam carregados de razão.
Sua atividade de tradutor ajudou o contista? Você vê semelhanças entre os escritores que traduziu (Onetti, García Márquez, Rulfo) e sua produção?
Ao contrário: o contista ajuda o tradutor. O contista é essencial para o tradutor. Traduzo por razões afetivas. Mas às vezes também traduzo porque determinado livro ou autor me inquietam de forma especial. Seja como for, aplico, na hora de traduzir, os mesmos mecanismos, as mesmas ferramentas, o mesmo ritual que utilizo na hora de escrever as minhas coisas. Não vejo semelhanças entre os autores que traduzo e minha própria escrita. Vejo, isso sim, uma enorme semelhança, uma identidade clara, em coisas essenciais: a maneira de ver o mundo e a vida, as crenças e esperanças compartilhadas. Uma afinidade, enfim, que independe da escrita: é, sobretudo, de vida e de mundo.
De todas as definições sobre o ofício de escrever que você recolheu no texto “O exercício da solidão”, qual lhe agrada mais? E qual sua mania de escritor?
Há definições angustiadas, como a do mestre guatemalteco Augusto Monterroso, que me comovem. Aquilo de dizer que era bela a canção que ele ouvia, mas pífia a que ele cantava. Isso acontece com quase todos os escritores que conheço: você tem uma grande história, e na hora de passar para o papel ela deixa de ser tão grandiosa. Talvez a definição que mais me agrada seja exatamente a que fecha o texto: escrever se justifica desde que o texto tenha alma e substância. Desde que consiga comover um leitor – nem que seja um só. A palavra tem de justificar a violação do silêncio. Senão, o silêncio seria melhor. E que nesse ofício, não fazemos outra coisa além de lançar no oceano garrafas azuis contendo palavras – e passamos o resto de nossas vidas na esperança infinita de que essas palavras tenham chegado a alguém. Quanto às manias, são poucas. Começo escrevendo à mão, com tinta preta. Mais do que mania, é técnica. Aprendi com Onetti: escrevemos à mão mais devagar do que datilografamos ou digitamos. Portanto, sentimos melhor o peso de cada palavra. Só vou ao computador quando o texto ganha vôo próprio. E com Rulfo, aprendi que é essencial esperar que o texto ganhe seu próprio vôo, para então começar a escrever. E depois vem o principal: cortar, cortar, cortar. O texto é um animal vivo. É preciso encontrar sua respiração, sua consistência, sua pele, sua temperatura. O texto deve ser como uma música, com ritmo, harmonia, contraponto, melodia... Mas, para chegar a tudo isso, é preciso começar. E começar à mão. Manias? Escrever à noite. Tenho comigo sempre um bom vinho tinto. Só escrevo ouvindo música. Pode ser canção popular, pode ser sonata. No que escrevo há muito mais influência de música que de literatura. Sei reconhecer, nos contos, o que há de Edu Lobo, Silvio Rodriguez, Tom Jobim, Chico Buarque, Renato Teixeira, de tantos compositores das mais variadas tendências. Eles, sem saber, são meus parceiros de escrita. E também Mozart, Beethoven, Chopin, Schubert, Debussy, Villa-Lobos, Piazzolla. Em meus contos, todos eles estão presentes. Mas só eu sei quais, e quando, e quanto.
[18:33] - 05/12/2008 -
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