Vasconcelo Quadros, Jornal do Brasil
BARRO ALTO, GOIÂNIA - Legítimo peão de trecho, desses que têm a carteira de trabalho crivada de registros pelo país inteiro, o pedreiro Edson Ferreira dos Santos, 43 anos, trocou o sonho de mudar com a família da Bahia para o interior de Goiás por um pesadelo. No dia 2 de novembro, com a cabeça cheia de bebida, saudade da mulher e dos cinco filhos e descontente com o trabalho, entrou em atrito com a polícia e se transformou no estopim de uma das mais graves revoltas de trabalhadores num um canteiro de obras.
– Fui agredido e os companheiros se revoltaram – diz Edson, recolhido há 21 dias no xadrez da delegacia de Barro Alto, cidade do interior goiano, a 170 quilômetros de Brasília, a Noroeste do Distrito Federal.
O conflito estourou no final da tarde, instantes depois dos cerca de 2.500 trabalhadores temporários da Construtora Camargo Corrêa, confinados num alojamento de uma das gigantes do setor mineral, a multinacional Sul-Africana Anglo American, entre os municípios de Barro Alto e Goianésia, assistirem a inesquecível corrida em que Felipe Massa perdeu o campeonato por uma curva. Já embriagado, o pedreiro tentou entrar sem camisa no restaurante, queria mais cerveja e foi barrado.
Teve início então o desentendimento com os seguranças da Guardiã, a empresa de vigilância que presta serviços à Camargo Corrêa e à Anglo. Acionada, a PM mandou uma viatura com dois policiais. Edson foi jogado no chão e, para algemá-lo, os policiais partiram para a violência, espancando e pisoteando o pedreiro. Foi como tentar apagar incêndio com gasolina: uma massa furiosa e descontrolada avançou sobre os policiais. Um deles disparou três tiros para o alto. Em vez de recuar, os peões foram fechando o cerco e, aos gritos de “solta, solta” e pedradas – uma delas acabou acertando a cabeça de Edson e outra um policial – retiraram as algemas e resgataram o pedreiro, enquanto os policiais e seguranças fugiam. O que aconteceu em seguida só se vê em filme de ação: um grupo estimado entre em cerca de 300 homens, alguns deles encapuzados, passou a atear fogo nos alojamentos. Foi um salve-se quem puder.
O madeirite, a tinta a óleo altamente inflamável e o gesso usados no revestimento da obra de alvenaria colaboraram para que em pouco tempo uma língua de fogo se destacasse na paisagem de cerrado em volta do acampamento encravado no pé da serra, onde a Anglo constrói uma usina de transformação para explorar uma poderosa mina de níquel. Dos 64 blocos que formavam o alojamento, só 20 ficaram de pé. O resto virou uma montanha de tijolos, ferro e zinco retorcidos. Tudo o que havia dentro, incluindo móveis, eletrodomésticos, roupas e documentos dos trabalhadores, foi destruído.
O episódio só não se transformou numa tragédia com muitas mortes porque funcionários da construtora e da mineradora abriam uma rota de fuga no cercado de tela. Muitos deles, na ânsia de retirar os pertences, acabaram se intoxicando de fumaça. Feridos mesmo, apenas o pedreiro e o sargento Reginaldo Silva.
[22:26] - 22/11/2008 -
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