Alvaro Costa e Silva, JB Online
RIO - Quando trabalha, Mario Prata sempre procura uma maneira de se divertir. Para, depois, divertir o leitor. Foi assim que ele leu 207 romances de mistério (só de Georges Simenon, criador do comissário Maigret, foram 38) para melhor se municiar na hora de montar o quebra-cabeça de Sete de paus (Planeta, 264 páginas, R$ 39,90). A primeira incursão do autor no gênero que mais vende no mundo desvela a existência da venerável grã-ordem de São Fuldêncio, “irresponsável por vários assassinatos no Brasil e no exterior”, os quais são investigados pelo agente federal Ugo Fioravanti (e pelo assistente Darwin Matarazzo). Mas é sobretudo uma homenagem ao romance policial, como Prata explica na entrevista a seguir.
A capa do livro traz uma nota de pé de página. O recurso segue até o fim da narrativa, num total de 114 notas. Muitos leitores se queixam de que elas atrapalham a leitura...
Nota de rodapé é um saco! Principalmente aquelas de teses. No caso de meu livro, assim que o leitor se acostuma, vai percebendo que é quase um outro livro. São as histórias de todos os personagens secundários e secundaríssimos que vão aparecendo na narrativa. No fim, explico o destino de cada um. A idéia não é nova. Já foi usada no filme O fabuloso destino de Amélie Poulain. Mas vi o filme depois, quando alguém, que estava lendo o livro durante o processo de trabalho, me deu a dica.
Outra característica são as muitas epígrafes e o recurso das citações de autores e personagens do universo do romance policial ao longo da trama. Foi um prazer fazer a pesquisa?
Um prazer enorme que não acabou até hoje. Quando resolvi escrever um policial, fui dar uma relida nos Doyle, Chandler, Hammett e Simenon, os básicos. Ia copiando frases dos detetives e colocando descaradamente na boca do meu investigador, o Fioravanti. Claro que, no fim, dou todos os créditos. Lendo tanto policiais, acho que o meu livro virou uma homenagem a todos os autores e personagens.
Depois de ter lido tanto, dê uma sugestão para o leitor que queira se iniciar no gênero.
Desde que resolvi escrever o Sete de paus, li 207. Só do Simenon foram 38. Comecei pelos clássicos e já citados Agatha, Doyle e Simenon e os americanos Chandler e Hammet. Mas, pouco a pouco, fui descobrindo novos e ótimos. Na Inglaterra, descobri a Ruth Rendell que, quando escreve com o inspetor Wexford, é maravilhosa. Mas tem um livro dela – talvez o melhor – em que o inspetor não protagoniza. Para se ter uma idéia de como ela domina a linguagem, a primeira frase do livro Um assassino entre nós é: “Eunice Parchman matou a família Coverdale porque não sabia ler nem escrever”. Ponto, parágrafo. Ou seja, diz quem matou e quem são os mortos. E o leitor não consegue parar de ler até a última linha. Do italiano Andréa Camilleri, sugiro para começar A ópera maldita, e depois uns dez do inspetor Montalbano. Os americanos aparecem na minha lista encabeçados pelo Lawrence Block. Cito dois: Cidade pequena e Um ladrão no armário.
E depois prosseguir com quem?
O barcelonês recentemente falecido Manuel Vasquez Montalban. Henning Mankell, sueco e seu inspetor Kurt Vallander. Jonh Dunning, americano. Dele, sugiro Impressões e provas. Dona Leon, americana mas que vive em Veneza desde 1981. Dois franceses: Jean Pierre-Gattégno e Fred Vargas (apesar do nome, é mulher). Michael Connelly também é bom.
Na quarta capa, está escrito que é a estréia de Mario Prata no policial. Mas antes você já havia flertado com o gênero.
Sim, andei rondando o gênero, criando personagens marginais em James Lins, Os anjos de Badaró e Purgatório. Mas não eram policiais ainda. Eram quase. Em Sete de paus tem álibi (adoro a palavra), investigador, mortes, suspeitos, fugas etc. O gênero policial é outra coisa. Dá um trabalho danado. Uma frase mal escrita pode entregar o fim do livro, o assassino. Os personagens têm de ser coerentes. Não foi fácil, não.
Policial é subgênero?
Há muito deixou de ser subgênero. Aliás, Jorge Luiz Borges era tarado pelo gênero. Existia, sim, preconceito.
Cabe humor?
Agatha Christie e Conan Doyle gostavam de uma certa ironia. Principalmente quando estavam em ação Poirot ou miss Marple. Mas os grandes autores americanos dos anos 20 a 50 deixaram o humor de lado. Foi a fase auge dos detetives durões e machões. Mesmo o inspetor Maigret tinha um humor um pouco para dentro. Dos novos autores – novos nem tanto pela idade, mas por estarem vivos – quem usa e abusa do humor é o Andréa Camilleri.
O romance policial brasileiro leva jeito?
Nosso grande nome é o Rubem Fonseca, quando leva a sério o gênero. É craque. O Veríssimo, quando quer, também brilha. Dos mais recentes, o campeão é o Marçal Aquino.
Ugo Fioravanti Neto é de Floripa. Por quê?
Por que deveria ser do Rio ou São Paulo? Estou morando em Floripa há sete anos. Talvez seja uma homenagem para esta cidade maravilhosa. Mas a história roda o Brasil todo, Portugal e Cabo Verde. E mais: se fizerem um filme, o cenário de Floripa é perfeito. Temos 42 praias para sete crimes.
Em suas andanças, Fioravanti vai dar no Cabo Verde. É verdade que lá as bundas são as mais perfeitas do mundo?
Gosto muito de Cabo Verde onde, realmente, existem as mais belas bundas do planeta. A origem da bunda brasileira é lá e não em Portugal, é claro. É um país lindo, com um povo maravilhoso, que adora os brasileiros.
Não está na hora de o Brasil conhecer o escritor caboverdiano Germano Almeida?
É mesmo um grande escritor. Ele já tem um livro editado aqui, O testamento do senhor Napumoceno, que adaptei para o cinema numa produção da França com Portugal. Gostei de usar o Germano como personagem. Ele costuma fazer isso comigo nos livros dele. Acho que deveriam publicar mais o Germano Almeida por aqui. Ele é muito melhor que o Mia Couto, por exemplo, para ficar entre os africanos.
[18:48] - 21/11/2008 -
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