Marsílea Gombata, Jornal do Brasil
CARACAS - Repressão e mais repressão. É desta forma que a oposição venezuelana se vê sob a liderança de Hugo Chávez. A poucos dias das eleições regionais, denúncias contra o governo têm sido mais freqüentes e colocam em xeque a segurança pós-eleitoral no país.
O chefe de campanha do candidato Henrique Capriles Radonski, Oscar López Colina, denunciou que integrantes da Guarda Nacional detiveram pessoas que montavam bandeiras e banners do candidato a governador de Miranda.
Os guardas nacionais, segundo Colina, teriam recebido ordens do ministro do Interior e Justiça, Tarek El Aissami. Os integrantes também teriam ameaçado levar à promotoria-geral partidários do candidato opositor ao governador Diosdado Cabello – corregilionário de Chávez no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) e candidato à reeleição.
– Assistiremos à construção de um novo mapa político regional do país – prevê o cientista político Luis Lander. – A mudança mais significativa dessas eleições está na volta da oposição que havia perdido a confiança de muitos eleitores, que simplesmente deixavam de votar. A ausência de oposição era o grande trunfo de Chávez, mas acabou.
Em meio a ameaças e duras acusações, as eleições a governador e prefeito no país vêm sendo transformadas em uma batalha pela vitória da revolução bolivariana e as reformas que Chávez pretende com ela. O que até então eram disputas regionais têm se tornado um novo confronto entre chavistas e anti-chavistas.
Na reta final, o presidente venezuelano está mais presente na disputa e tem elevado o tom contra os candidatos da oposição. Nesta última semana, tem aparecido três vezes por dia na televisão estatal. Os atos protocolares também se multiplicaram: Chávez lançou a pedra fundamental de uma estrada e de um aeroporto, inaugurou projetos energéticos, fábricas e hospitais, além de ter celebrado os êxitos de suas missões sociais.
E o tom de ameaça persiste.
– Se permitirem que a oligarquia regresse ao governo, vou ter de pegar os tanques para defender o governo revolucionário e o povo – vem repetindo, acusando a oposição de querer vencer para “derrubá-lo” e desestabilizar seu governo.
Para o jornalista político Cesar Cañas, o discurso do presidente deve ser encarado como parte de uma estratégia:
– A sua linguagem está muito além do que pode se esperar de um presidente – reconhece Cañas. – Mas como já o conhecemos, não é difícil compreender que o maior intuito é polarizar a sociedade e tirar dividendos dessa disputa.
Sempre que Chávez lança mão dessa artimanha, ressalta o especialista, os resultados o favorecem. No referendo sobre a reforma constitucional de dezembro passado, lembra, o presidente saiu derrotado porque competia consigo mesmo.
Enquanto pesquisas indicam a oposição favorita em estados-chave, como Zulia, Sucre, Nueva Esparta e Carabobo, a TV estatal transmite grampos de conversas dos adversários do presidente.
Um dos principais alvos da estratégia é constranger o opositor Manuel Rosales, líder na disputa pela prefeitura de Maracaibo, capital de Zulia. Uma vinheta mostra o candidato discutindo a compra de jóias caras, enquanto em outra Rosales aparece negociando a compra de gado, tendo ao fundo imagens de moedas exibidas no vídeo.
O governador de Sucre, Ramón Martínez, também tem sido alvo do presidente. Na semana passada, as Forças Armadas ocuparam um aeroporto no nordeste do país, que segundo ele, teria sido negado à petrolífera estatal PDVSA por Martínez, a quem ameaçou de prisão.
Os dissidentes do PSUV, classificados por Chávez como “traidores” e “apátridas”, são mais um obstáculo à Chávez nestas eleições e à revolução bolivariana. Eles podem vencer em regiões importantes, como Barinas, terra natal do presidente, onde o maior rival do irmão mais velho de Chávez, Adán, que é candidato a governador, é um dissidente do partido.
Conseqüência
Caso a esperada vitória da oposição se confirme em cidades e estados importantes do país, Lander prevê aumento de integrantes do Exército nas ruas e mais violência entre partidários e opositores de Chávez. Mas atenta:
– A chegada da oposição no poder, sem dúvida, deve ser compreendida como a expressão mais real e forte que o país poderia ter no sentido da necessidade de renovação.
No domingo, 17 milhões de venezuelanos são esperados nas urnas para eleger 22 governadores, 328 prefeitos e 233 responsáveis pelos conselhos regionais. Para este dia foi estabelecida proibição do porte de armas de fogo, já valendo a partir de sexta-feira. A medida não estará valendo para funcionários da Força Armada Bolivariana.
[00:07] - 19/11/2008 -
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