Juliana Krapp, JB Online
RIO - Às vésperas de completar 61 anos, Raimundo Carrero quer ser santo. Não o do tipo católico, entronizável. Pelo contrário: santo de pleno domínio das safadezas e engenhos mundanos; santo “para compreender as almas, amá-las”, diz ele.
– Todo criador pretende a santidade. Deve ter um tanto de místico. Descer aos infernos para, na subida, chegar aos sonhos que, no nosso caso, são a salvação – explica ao Idéias&Livros o escritor, pernambucano de Salgueiro, sertão cravado, mas em outro cenário do estado, a praia, na 4ª Festa Literária Internacional de Porto de Galinhas (Fliporto), semana passada.
Para ele, santificação é estética:
– Refiro-me ao ideal de santidade que leva ao ideal de beleza. É preciso enfrentar o mau e o bem, o belo e o feio, o horror e o sublime, para conhecer a plenitude. Dostoiévski sabia disso. Henry Miller sabia. Jack Kerouac também. A expressão beat, aliás, significa beatitude. Quero estar no grotesco para atingir o maravilhoso. Todo escritor precisa de um Dante que o leve à Beatriz.
A caminho da santidade, Carrero já está em estágio avançado: em pleno estado de graça. É o que apontam as homenagens recentes. Na Fliporto, o autor recebeu os louvores dos alunos de sua tradicional oficina literária – uma das precursoras no país. E em comemoração aos seus 60 anos – embora ele já faça 61 em 20 de dezembro – as Edições Bagaço preparam, para início de dezembro, o lançamento de uma caixa com os seus títulos A história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, Senhor dos sonhos, Sinfonia para vagabundos e Os extremos do arco-íris.
Com 15 livros publicados, Carrero é, hoje, um dos grandes prosadores brasileiros vivos, embora muitas vezes obscurecido pelo rótulo de “nordestino”. Vejamos as láureas oficiais: seu romance mais recente, O amor não tem bons sentimentos, foi um dos finalistas do Prêmio Portugal Telecom deste ano; em 2000, ganhou um Jabuti pelo livro de contos As sombrias ruínas da alma; e, com o título Somos pedras que se consomem, de 1995, já havia conquistado os prêmios Machado de Assis e APCA.
Sem inspiração
Dono de prosa tão vigorosa quanto lírica (Ariano Suassuna chega a dizer, na contracapa de O amor..., que toda a sua obra lhe parece uma confrontação com o mal), Carrero não é homem de meias-palavras – também ele, na mesma medida, lírico e vigoroso:
– Eu sempre fui um escritor muito exigente e, ao mesmo tempo, muito malandro: gosto de viver.
Um poço de delicadeza, mesmo que esteja, no papel de narrador, com as mãos enterradas nas imundices. Mas não é assim que define o seu estilo – até porque, garante, não tem nenhum:
– Quem tem estilo não é o escritor, é o personagem. Para escrever bem, é preciso ser amigo dele, e até colocá-lo no colo.
Carrero rejeita, também, idéias como inspiração e o talento:
– Inspiração não existe. Um escritor é um homem que trabalha todos os dias. Não dá para ficar esperando que as coisas aconteçam.
Em suas oficinas – que ministra desde a década de 1980 – essa é a idéia central. Suas aulas são, hoje, concorridas no Brasil todo, e já revelaram nomes como Marcelino Freire.
E renderam, também, um livro, Os segredos da ficção –A arte de escrever. Em breve, Carrero lança outro do gênero: As estratégias do narrador sai em abril, pela Iluminuras, sua atual editora.
– As oficinas ocupam a solidão dos escritores. Como não temos mais os grêmios estudantis ou os diretórios universitários do passado, as pessoas não têm onde conversar e discutir literatura – justifica.
O contato cotidiano com a geração de diletantes contemporâneos lhe dá autoridade para apontar o que seria uma grande tendência – e um grande problema – dessa nova geração: uma espécie de jornalismo literário, subterfúgio para os conflitos que, segundo ele, os jovens autores evitam mais e mais:
– Muitos escritores, sobretudo os mais jovens, querem fazer jornalismo porque não acreditam na criação tradicional. Há um esgotamento geral. As pessoas querem resolver os conflitos literários imediatamente – reclama. – É impressionante como as gerações mais novas, inteiramente liberadas, socialmente, são profundamente conservadoras e correm de todos os temas graves, evitam os conflitos, desconhecem os problemas atuais, mesmo na literatura.
Paixão pelas mulheres
Filho de um dono de loja de tecidos, Carrero perdeu a mãe muito cedo: foi criado pelas cinco irmãs. É aí que enxerga as raízes de seu lirismo:
– Minha paixão pelas mulheres é quase uma catarse – garante.
Além de escritor, Carrero é também jornalista e músico. Saxofonista, estreou no grupo Os Cometas, uma “banda de rock do sertão”, que foi logo substituída pel'Os Tártaros – esta última, famosa na região inteira, chegou a abrir shows de Roberto Carlos.
– Desde cedo eu queria ser criador. Então fui para a música – conta.
O que é curioso porque, aos 8, 10 anos de idade, Carrero já devorava a biblioteca familiar. Lia, precocemente, Henrik Ibsen, George Bernard Shaw, Graciliano Ramos. Lia porque ficava de castigo, “era um menino muito inquieto”. Tão inquieto que escrevia esquetes, e os encenava para a família.
– Tive muita sorte porque, mesmo sendo no sertão, em minha casa não havia censura – agradece.
O primeiro romance, nunca publicado, veio aos 19 anos:
– Eu morava em uma pensão no Recife e, um dia, me dei conta: “Estou ficando velho e ainda não fiz nada”. Aí comecei a escrever.
Não publicou a história porque logo se deu conta de que “não prestava”. E quem o ajudou a constatar isso foi ninguém menos que o mestre Ariano Suassuna, para quem o aspirante mostrou seus primeiros escritos. Tornaram-se, desde então, amigos – Carrero trabalhou com o dramaturgo por 20 anos.
– Suassuna discutia os romances inteiros comigo – conta, acrescentando que teve outro mentor célebre: Gilberto Freyre também o orientou em seu início de carreira.
Além do dramaturgo e do sociólogo, Carrero foi muito influenciado pela chamada Geração 65, grupo de jovens poetas e prosadores liderados por César Leal, no meio universitário, e por Elói Melo, nas conversas e nas publicações amadoras:
– Nós estudávamos muito. Atravessávamos noites e madrugadas inteiras debatendo, analisando. E havia até mesmo um pacto: cada um deveria fiscalizar o outro, para que não publicasse bobagem.
Seu primeiro romance a enfim vir a lume, após dois devidamente abandonados, foi escrito em apenas cinco dias: A história de Bernarda Soledade – A Tigre do Sertão, lançado em 1975, sendo alvo imediato de elogios por parte da crítica nacional.
Hoje, Carrero é uma espécie de ídolo no Recife, onde mora, e nas adjacências. Não caminha muitos metros sem ser interceptado por algum leitor, ex-aluno ou ouvinte do programa de rádio que ele apresenta, diariamente, na rádio CBN de Pernambuco, aos moldes de uma oficina literária. Mas o escritor, como de praxe, rejeita o rótulo de pop star:
– Às vezes eu me sinto é como um pobre star – brinca. – A questão é que o fato de ser escritor não me dá o direito de ser chato, de ser abusado, de maltratar um leitor. Se possível, sento e converso.
Seguindo a disciplina que prega em suas aulas, Carrero madruga para escrever: o faz de segunda a sábado, das 4h às 8h da manhã, e pelo domingo inteiro. Escreve à mão, só depois reproduz o texto no computador. E tem percebido, pelo conteúdo de seus livros recentes, que está se tornando cada vez mais autobiográfico:
– Descobri isso quando comecei a brincar comigo. Os meus personagens são a minha sombra. Descobri que brincar com eles é bom: fazem molecagens comigo, e eu faço com eles – revela. – Quando a gente é mais novo, sempre rejeita os episódios autobiográficos porque parecem insignificantes ou desprovidos de sentido. Mas na maturidade tudo se transforma, e eles passam a ter um novo significado.
Tanto que, no romance em que trabalha atualmente, um dos personagens é exatamente um saxofonista, ou melhor: um pastor que, em vez de dar sermão, toca o instrumento; em vez de igreja, tem um circo (como aquele no qual trabalhava um dos irmãos de Carrero). Ao lado de seus personagens, os velhos e os novos, o autor pernambucano anda, cada vez mais, pleno de si mesmo:
– Eu me surpreendo todos os dias. É uma vida longa e trabalhosa. E, para quem viveu com tanta intensidade, tudo tem uma importância extraordinária. Tudo é realidade e é sonho. Graças a Deus.
[18:36] - 14/11/2008 -
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