CULTURA

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Diretor de 'Romance' fala sobre a produção do longa-metragem

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - O amor sempre foi coadjuvante nas comédias dirigidas por Guel Arraes. Em Romance, quarto longa-metragem do diretor de núcleo da Rede Globo, que chega ao circuito dia 14, não só está em primeiro plano como segue alinhado à estrutura de um drama – a primeira experiência do autor de Lisbela e o prisioneiro (2003) com o gênero.

Co-escrito por Jorge Furtado (Saneamento básico, o filme), Romance é uma espécie de ensaio sobre a representação dramatúrgica do amor, que não nega filiação ao estilo referencial e irônico de Arraes. A história gira em torno de Pedro (Wagner Moura) e Ana (Letícia Sabatella), dois atores de teatro que se apaixonam durante uma montagem de Tristão e Isolda, texto considerado matriz das narrativas do amor romântico moderno.

A relação se degringola quando Ana é convidada por um diretor de TV (José Wilker) para estrelar uma novela. Embora seriamente comprometido com a idéia de refletir sobre o amor, o filme encontra brechas para ironizar os estereótipos da TV.

– Romance não caberia na televisão. Tantas referências assim não estão no código da TV – explica o diretor pernambucano de 54 anos, responsável pela adaptação de O Auto da Compadecida e Caramuru para o cinema.

'Romance' é sua primeira experiência com o drama depois de três bem-sucedidas comédias. Por que essa mudança de caminho?

– Na verdade, representa um retorno a meu impulso inicial, que era fazer filmes sérios, profundos. Sempre alimentei a fantasia de fazer um drama. Quando voltei para o Brasil, depois do exílio e de estudos na Europa, não sabia que ia fazer comédia. A visão que tinha, como filho de exilado, era contra a ditadura, estava me preparando para fazer cinema comprometido, de reflexão. Nem via filme americano, porque achava escapista. Quando cheguei aqui, bem no início dos anos 80, encontrei um ar festivo, quase explosivo. Conheci Sílvio de Abreu e Jorge Fernando e fui fazer telenovelas e programas especiais que riam daquela situação. Romance é um filme que me faz sentir relaxado, até mesmo para voltar a dirigir comédias.

Embora tenha um estilo muito característico de cinema, você considera 'Romance' seu filme mais pessoal. Em que sentido?

– Isso acontece mais em relação ao tema do que à forma, realmente. Inicialmente, achei até que faria um filme mais improvisado, mas não pude fugir muito ao meu estilo. O que me parece mais pessoal é o “editorial” sobre o amor. O fato de ser um filme mais adulto o aproxima da vida presente. E é um roteiro original. Como o Jorge (Furtado) e eu temos muitos pontos de convergência nas idéias é possível dizer que o roteiro, mesmo que a quatro mãos, exprime idéias bem pessoais.

A história de 'Romance' foi alimentada por uma série de referências, cinematográficas e literárias. Que estratégias você e o Jorge Furtado usaram para tirar o peso de tratado teórico, digamos assim, do roteiro?

– Uma trama que tentamos tornar interessante: o que vai acontecer agora? O fato de que o amor é o tema tanto do filme como dos filmes dentro do filme cria uma corrente contínua, a história de amor do casal Pedro e Ana ilustrando ou se contrapondo aos comentários sobre o amor (literário) de Tristão e Isolda, nossa referência principal.

Pedro e Ana, os protagonistas do filme, são dois atores que se apaixonam durante a montagem de 'Tristão e Isolda'. Qual a importância da profissão dos protagonistas para a idéia de um filme sobre a “representação do amor”?

– O romance de Pedro e Ana tenta questionar várias idéias preconcebidas do amor: para amar é preciso sofrer, o ciúme é o tempero do amor, o amor é cego etc. Dentro dessa linha de pensamento, representar o amor é quase um paradoxo, um sacrilégio, já que o amor tem que ser absolutamente espontâneo. Por que então muitos atores se apaixonam em cena? Mais: muitos psicólogos afirmam que o amor na vida real comporta uma dose de representação. Então, a idéia de dois atores apaixonados cuja história de amor é contada em paralelo à história do amor ocidental nos parecia fascinante, até mesmo pela proximidade ou a distância deles da teoria.

'Romance' é teatro e TV dentro do cinema. Como vocês encontraram o tom da linguagem em cada nível de representação?

– No texto, primeiramente. O Romance de Tristão e Isolda no teatro é todo em verso. No especial de TV tem uma prosódia inspirada em Guimarães Rosa. No tom, o Romance de Tristão e Isolda é uma tragédia, o romance de Pedro e Ana, uma história romântica. Para montar os trechos da peça e do especial de televisão dentro do filme, todos nós, da equipe de criação, raciocinamos com a cabeça de um diretor fictício, Pedro, egresso do teatro alternativo, com um estilo próprio.

O que você levou em consideração quando optou por Wagner Moura e Letícia Sabatella para protagonistas? Algum trabalho em particular o fez acreditar que funcionariam como par romântico?

– Para início de conversa, tanto o Wagner quanto a Letícia têm a prática do teatro, compartilham do espírito de grupo natural do ambiente teatral. O que ajuda muito a dar credibilidade à relação entre os dois personagens do filme, dois atores de teatro que acabam se apaixonando nos bastidores da montagem de uma peça. A Letícia me chamou a atenção no especial Hoje é dia de Maria, do Luiz Fernando Carvalho. O estilo dela é apaixonado, como uma atriz iniciante. Levei mais tempo nos ensaios com ela porque, ao contrário, sou muito racional. Como ela foi bailarina, executava as marcações com precisão, mas a emoção dela às vezes atrapalhava. O Wagner, de quem vi muitas coisas pingadas no teatro e na TV, é um ator muito técnico, meticuloso, qualidades perfeitas para o papel de um ator que também é autor de teatro.

[14:33] - 09/11/2008