ECONOMIA

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Crise e alta do dólar podem ampliar crescimento de vinícolas do Brasil

Cláudia Dantas, Jornal do Brasil

RIO - A mesa do brasileiro nas festas de fim de ano estará cheia de vinhos nacionais. Pelo menos é o que esperam empresários do setor que, beneficiados pela crise internacional e pela disparada do dólar, já prevêem um incremento de até 35% nas vendas. O abalo financeiro levou os grandes varejistas a aumentarem pedidos de vinhos e espumantes brasileiros.

Para Angelo Salton Neto, presidente da vinícola Salton, a retomada do produto nacional nas prateleiras e gôndolas de supermercado beneficiou as vinícolas locais, que travam disputa de espaço com vinhos da Argentina e do Chile.

– Com um dólar distorcido, que chegou ao patamar de R$ 1,50, e com um excedente de estoque, os vinhos argentinos e chilenos invadiram o Brasil – destaca Angelo. – Antes, importavam até 2 milhões de litros. Em 2008, esse número subiu para 40 milhões. E os consumidores encontravam vinhos de R$ 4,00, R$ 5,00.

Com a crise e a disparada de pedidos, a Salton estima um crescimento de 25% no ano. Antes, eles projetavam fechar 2008 com 15%.

– Os grandes varejistas começam agora a fazer pedidos de reposição de estoque, e essa reposição virá com 30% de aumento, no mínimo – analisa Angelo. – Preocupados com o Natal e o Ano Novo, os grandes compradores correm para encher seus estoques do produto nacional. Não existe crise para nós.

O executivo ressalta que o vendedor de importados sai chamuscado da crise, por ter uma dívida em dólar atualizada diariamente e que oscila na casa dos 20%.

Outra barreira para vinicultores também começa a ser vencida: o problema cultural em relação à qualidade dos importados. A fabricação local avançou bastante nos últimos anos, e as empresas investiram principalmente em novas técnicas de produção. Hoje, algumas marcas de espumantes brasileiros competem com as estrangeiras de igual para igual, e isso também fez diminuir a relação custo-benefício entre empresas e consumidores, garantem especialistas.

Angelo, da Salton, conta que por muito tempo “o vinho ficou de fora da mesa do brasileiro por puro preconceito. Essa barreira, no entanto, tem diminuído”.

Mas a crise internacional ainda preocupa os fabricantes nacionais. O representante de vendas das marcas nacionais Dal Pizzol e Do Lugar, Fredy Schlesinger, mesmo comemorando as vendas em alta, revela que os insumos os quais compõem o produto, como rolhas, vidro, embalagens, são importados e podem sofrer reajuste de preço.

– Essa é a única preocupação. Os fornecedores podem repassar os custos – explica Fredy, ao ressaltar que a empresa também reviu para cima as estimativas de venda no fim do ano, e prevê uma expansão de 30% em 2008. Antes da crise, estimavam crescer apenas 10%.

O representante acredita, contudo, que as empresas brasileiras têm agora a chance de aumentar sua participação no mercado nacional, e aposta que, no fim do ano, o vinho brasileiro vai predominar na mesa dos consumidores.

Na contramão

Para Marcio Bonilha, diretor nacional de vendas da Miolo, a alta do dólar não foi fator preponderante para determinar o incremento de vendas na vinícola, embora o executivo tenha notado uma variação maior nos meses de setembro e outubro da ordem de 19%.

Segundo Bonilha, a empresa já mantinha um ritmo de crescimento acelerado, e deve fechar o ano com um aumento de 20% na categoria vinhos e 35% com espumantes.

A importadora Expand, uma das principais do país, também aumentou os pedidos de produtos nacionais, embora já tenha se antecipado em comprar importados depois que o governo brasileiro anunciou aumento de 30% do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI), a partir de janeiro.

Graças ao medo de um IPI maior, a Expand tem 5 milhões de garrafas em estoque compradas nos meses de dólar em baixa.

– Se depender da gente, os vinhos do Natal e do Ano Novo serão importados – promete Otávio Piva de Albuquerque Filho, diretor de operações da importadora.

[22:59] - 31/10/2008