Marco Antonio Barbosa e Ricardo Schott, Jornal do Brasil
RIO - Enquanto Marcelo Camelo – maior atração brasileira do Tim Festival, encerrado no sábado, na Marina da Glória – envereda por ruas do Bairro Peixoto, estreitando relação com a MPB, confetes e velhinhos bons de papo, Rodrigo Amarante anda sob o sol californiano, como já havia indicado quando (na semana seguinte ao lançamento de Sou, estréia de Camelo lançada no início do mês passado) divulgou três de suas novas crias no MySpace.
Os indie rocks com letras em inglês escancaram as diferenças entre os compositores dos Los Hermanos. Uma semana antes do lançamento oficial, marcado para a próxima terça (com a chancela do selo inglês Rough Trade), surge para download a estréia do Little Joy, banda formada por Amarante; Fabrizio Moretti, baterista do Strokes; e Binki Shapiro, namorada de Moretti.
Flertes com o reggae se destacam no disco
por Ricardo Schott
O reggae, em suas facetas mais nostálgicas e doces (a dos skazinhos, ou a do cruzamento com o doo wop, comum em grupos vocais), já bateu ponto no conjunto de influências do indie rock algumas (poucas) vezes.
O Little Joy, projeto que une Rodrigo Amarante (Los Hermanos) e Fabrizio Moretti (Strokes), lança sua (boa) estréia homônima calcada nessa base, acrescentando-lhe referências dos anos 50 – como na balada Brand new start, na qual até a qualidade da gravação (com ecos nos vocais e nas bases de guitarra) acompanha o clima.
Não é o disco que se imaginaria vir de um Hermano, apesar de músicas como Next time around (que recorda a “fofice” da estréia do LH) e da balada acústica Play the part (que evoca algo brasileiro no violão).
Não há muita coisa que lembre Sou, de Marcelo Camelo, talvez só a despretensão dos arranjos e das gravações, em meio a flertes com o blues e com o soul (No one's better sake), sons ligados ao country rock (Don't watch me dancing) e lembranças dos Strokes (as duas guitarras e a bateria gélida de Keep me in mind). Já a sonolenta Evaporar, cantada em português, soa como uma desnecessária (e fraca) faixa-bônus.
Pequena alegria que não enche barriga
por Marco Antonio Barbosa
Little Joy é isso mesmo: uma alegriazinha passageira. Um som bacaninha e despretensioso que, por favor, não deve ser levado a sério. Não é uma mistura de Los Hermanos e Strokes, como os mais afoitos anunciaram (se bem que a voz de Amarante emula, aqui e ali, o estilo de Julian Casablancas).
São canções delicadas, lo-fi, às vezes cativantes. Mas as composições – e esse era um mal do qual Amarante já sofria nos LH – parecem mal-acabadas, rascunhos apressados e/ou sonolentos, impressão ampliada pelos vocais arrastados e pelos arranjos tão “básicos” que chegam a beirar o desleixo.
O que não quer dizer que inexista talento no projetinho. Nos melhores momentos, como nas belas melodias tramadas em Shoulder to shoulder, The next time around e Evaporar. Quando brincam de indie rock dançante, em Keep me in mind, mantêm um divertido e desajeitado charme. Menos perdoáveis são as devagar-quase-parando Play the part e Don't watch me dancing (esta com vocal da multiinstrumentista Binki Shapiro), nas quais o LJ sacrifica sua espontaneidade por uma “fofice” calculada e, francamente, meio irritante.
[21:23] - 27/10/2008