Jornal do Brasil
LA PAZ - O primeiro presidente indígena da Bolívia, o esquerdista Evo Morales, demonstrou habilidade em lidar com uma violenta crise política e chega fortalecido para dirigir as negociações com os governadores de oposição que resistem a suas reformas socialistas.
Por unanimidade, dirigentes da América do Sul o apoiaram durante a cúpula emergencial realizada na segunda-feira, condenando qualquer tentativa de golpe de Estado ou rebeliões separatistas.
– Os países da região, à direita, esquerda e centro, não vêem a oposição como tendo queixas legítimas – afirmou Mark Weisbrot, chefe do Centro para Pesquisas Econômicas e Políticas, em Washington.
Um editorial publicado no El Deber, jornal na província de Santa Cruz, fortaleza da oposição, afirmou que Morales tinha se “fortalecido inquestionavelmente” com o apoio dos presidentes sul-americanos e que a oposição faria bem em repensar sua estratégia de protesto.
El Mundo, outro jornal de Santa Cruz, criticou o governador provincial e líder da oposição, Branko Marinkovic, por subestimar a determinação de Morales em “conquistar” as regiões ocidentais.
As medidas equilibradas de Morales contrastaram com os violentos protestos de seus detratores e os assassinatos que seu governo atribuiu ao governador de Pando, Leopoldo Fernandez, que está preso.
Transbordando autoconfiança, Morales declarou nesta quarta-feira a retomada completa da rede de gasodutos bolivianos, depois de seis dias de ocupação por manifestantes da oposição e ainda afirmou que espera duplicar o fornecimento de gás natural para a Argentina a partir desta sexta-feira.
Na terça-feira à noite, o prefeito de Tarija, Mario Cossió assinou um pré-acordo com o governo para dar curso a novos diálogos. O pacto esboça um processo de negociações, definindo os temas que precisarão ser abordados com o presidente.
O documento prevê a devolução dos recursos oriundos do Imposto Direto sobre os Hidrocarbonetos (IDH) aos departamentos e o financiamento, por outros meios, da Renda Dignidade – projeto de pagamento de pensões a idosos.
Sem se aprofundar, o documento também promete que o governo respeitará as autonomias departamentais enquanto forem compatíveis com a nova Constituição Política do Estado (CPE). Por sua vez, os departamentos se comprometem a refletir sobre a CPE, e suas designações jurídicas e eleitorais.
O diálogo entre o presidente e os governadores rebeldes começa nesta quinta-feira, na cidade central de Cochabamba, e contará com observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA), da ONU e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).
[00:40] - 18/09/2008