Monique Cardoso, Jornal do Brasil
RIO - “O ente que olhar, daqui a 100 anos, as obras primas de J. Carlos poderá viver a vida que estamos vivendo...”. O trecho de um dos escritos do poeta gaúcho Álvaro Moreyra, diretor de O Malho, já anunciava que fonte histórica preciosa seria a revista, publicada entre 1902 e 1954. Pioneira entre as revistas ilustradas nacionais, praticamente inventou a charge política brasileira, lançando não só J. Carlos, mas nomes como Kalixto, Angelo Agostini, Raul e Storni. Fonte permanente de consulta por pesquisadores, a coleção da revista da Casa de Rui Barbosa acaba de ser restaurada e digitalizada e já pode ser folheada e consultada na internet.
– O Malho é um periódico bastante procurado por suas informações políticas e de costumes. Havia partes ilegíveis, quase se desfazendo. Agora pode ser usado não só por aqueles que vêm à Casa de Rui Barbosa, mas por qualquer um, em qualquer lugar – explica Ana Velloso, coordenadora de produção do projeto de recuperação.
Atualmente em testes (www.casaruibarbosa.gov.br/omalho), entra no ar oficialmente no mês que vem. A iniciativa de restaurar o acervo é da historiadora Eridan Leão de Souza e do artista plástico Hélio Jesuíno, que fez ampla pesquisa iconográfica. A restauração foi feita pela mesma equipe que cuidou, recentemente, do acervo da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat). O projeto durou um ano e meio e custou R$ 800 mil, pagos pelo Programa Petrobras Cultural.
Voltado ao público adulto, urbano, politizado e atualizado, O Malho registrou, com sátira e humor, o bota-abaixo do prefeito Pereira Passos; a Revolta da Vacina contra Oswaldo Cruz; a campanha política e a posse do presidente Affonso Penna; a campanha civilista do marechal Hermes da Fonseca; o surgimento dos movimentos operários socialista e anarquista. A coleção, que integra o acervo do jurista e bibliófilo Plínio Doyle, guardado na instituição, não é completa, mas concentra o período em que a revista foi mais atuante, até a década de 30. Depois da ditadura Vargas, quando a redação foi incendiada, ela muda de foco. O que leva a supor que tenha diminuído o interesse do colecionador.
– A República Velha está toda ali – resume a historiadora Aline Lacerda, coordenadora da equipe de recuperação de informação. – O mais curioso é que O Malho dava bastante destaque ao material do leitor. Gente sem vulto era publicada ao lado dos intelectuais.
A historiadora também elucida a mudança do perfil da revista:
– Ela foi censurada. Passa a dar muita coisa de agências internacionais, deixa de ser crítica.
O acervo concentra 33 mil páginas – ou 550 fascículos. Apesar de a instituição seguir as normas de preservação e catalogação, o constante uso do material contribuiu para a degradação. Boa parte das folhas precisou passar por reenfibragem, que restaura as fibras do papel e acrescenta novas camadas.
– Os fascículos foram guardados soltos, em vez de costurados, e em caixas que protegem contra fungos e umidade – explica Ana.
A digitalização foi feita em paralelo. Textos e as mais de mil charges agora foram contextualizados e podem ser consultados por um simples sistema de busca livre. Informações perdidas, como a autoria de uma série de ilustrações, foram recuperadas. Na internet, além de atender ao pesquisador, o acervo estará à disposição de um público bem mais ampliado.
O Malho é também um marco nas artes gráficas. Foi a primeira revista a passar da litografia à chapa de zinco como meio de impressão, o que facilitou a publicação de fotografias e permitiu a periodicidade semanal. Ao lado da Ilustrada, da Revista da Semana e da Tico-Tico, tornou-se um marco na imprensa brasileira, com o uso contínuo das charges como informação e comentário sobre a vida pública, tendência que ganhou força nos anos 20 e permanece até agora.
– Com os originais recuperados e a possibilidade de examinar e analisar em detalhes o trabalho desses cartunistas, vamos ganhar, e muito, em compreensão da época – lembra o artista plástico Hélio Jesuíno. – É um retrato do Rio e do país, um documento profundamente carioca.
[22:42] - 09/09/2008