Agência Brasil
BRASÍLIA - O mérito do Plano Real foi ter sido democrático, com respeito à população e sem questionamentos jurídicos. Foi o que disse nesta terça-feira o ex-presidente da República e ex-ministro da Fazenda, na época do plano, Fernando Henrique Cardoso, em depoimento gravado, exibido no seminário de comemoração dos 200 anos do Ministério da Fazenda.
- Os planos anteriores eram tecnocráticos. Eram decididos nos gabinetes e ninguém sabia de nada e aparecia do nada no Diário Oficial. A população tomava um susto. E o maior susto foi o confisco das poupanças do tempo do presidente Collor. O sujeito tem a sensação de amanhecer mais pobre - disse Cardoso. O evento reúne todos os ex-ministros da pasta.
- Foi um choque no espírito tecnocrático. Mas achamos melhor apostar na democracia. O Plano Real foi feito dessa forma: respeitando a população. Isso é político e pedagógico - afirmou.
Segundo o ex-presidente, houve apenas um questionamento jurídico de questões técnicas que não tiveram resultado. Ele lembrou que esses questionamentos em planos anteriores geraram prejuízos aos cofres públicos.
Cardoso disse ainda que, na hora de definir o salário mínimo, imaginava-se que 'mais uma vez o trabalhador iria pagar o preço da estabilização'. Segundo ele, não foi isso que aconteceu, mas mesmo assim houve muita oposição em relação à medida.
Ele contou que, na época, convidou representantes de movimentos sindicais para conversar sobre a proposta do governo. - No gabinete, eles concordaram comigo porque dava um aumento de salário real. Eles sabiam, mas politicamente não queriam dizer isso - afirmou.
O ex-presidente também recordou uma conversa que disse ter, na época, com Luiz Inácio Lula da Silva e o então presidente do PT, José Dirceu. - Eles perguntaram: há algum risco do PSDB disputar com o PT a presidência da República. Eu disse que não. Eu achava que não - afirmou. Segundo Cardoso, eles não deram apoio ao plano.
No seu relato, o primeiro problema encontrado quando era ministro da Fazenda foi organizar a equipe. 'Ninguém queria trabalhar no ministério, pois acreditava-se que a inflação ia continuar, que ele [o convidado a trabalhar no ministério] próprio iria se queimar e acabar com a carreira política'.
- Montar uma boa equipe não quer dizer só gente de fora do governo. Se não houver dentro da burocracia pública gente boa, que apóia também, não resolve nada. A burocracia fazendária é boa. É preciso apoiar e motivar - disse.
Outro problema enfrentado, segundo ele, foi a moratória decretada no governo José Sarney e, por fim, convencer o Congresso que era preciso cortar 50% das despesas. - Mas tínhamos outros problemas como a memória inflacionária, pois todos aumentavam os preços achando que a inflação ia continuar - concluiu.
[15:17] - 09/09/2008