Jornal do Brasil
RIO - Como se não bastassem três tempestades em menos de duas semanas, o furacão Ike chegou ontem ao Haiti, derrubando a única ponte que ainda conectava a cidade de Gonaïves com o resto do país. Com ventos que o classificaram na categoria 4 da escala Saffir-Simpson, que vai até 5, Ike trouxe chuvas que mataram 37 pessoas. Dez delas morreram afogadas dentro das próprias casas, incluindo cinco crianças.
A tormenta, que no fim da tarde caiu para categoria 3, com ventos a 195 km/h, segue agora para Cuba e Flórida Keys, nos Estados Unidos, antes de continuar pelo Golfo do México.
No Haiti, o número de mortos pelas quatro tempestades tropicais das últimas semanas já chega a 289 e deve aumentar. Pequenas ilhas foram atingidas pelos ventos do Ike e estavam sem comunicação com o exterior.
A situação ficou ainda pior porque autoridades haitianas disseram terem sido obrigadas a abrir uma represa, para escoar o excesso de água, o que inundou mais casas e causou danos ao “cinturão do arroz”, uma área agrícola considerada crucial para amenizar o grave problema da fome no país mais pobre das Américas. Os moradores do Vale Artibonite receberam ordem de retirada imediata, enquanto mais água descia pela planície de Gonaïves.
A cidade, que ontem perdeu a ponte Mirebalais – a única que ainda estava de pé na estrada – está com metade das casas sob a enchente. O ministro da Agricultura, Joanas Gay, avisou aos moradores de Gonaïves e das cidades vizinhas para se prepararem: a água iria continuar subindo, inclusive hoje, dificultando o trabalho dos grupos de resgate que tentam chegar aos sobreviventes com pouco ou nenhum acesso a comida e água potável há quatro dias.
A chuva forte também atingiu a República Dominicana, país vizinho ao Haiti na ilha Hispaniola, onde cerca de 4 mil pessoas foram retiradas de suas casas nas cidades costeiras do Norte. O território britânico ultramarino de Turks and Caicos e a Grande Inagua, nas Bahamas, também sofreram.
– Esse furacão é bem severo – avaliou Shanie Roker, morador de Inagua. – Houve muita chuva e vento. Vários telhados em Matthew Town foram arrancados e as árvores caíram.
Nos Estados Unidos, o Centro Nacional de Furacão prevê que o olho do Ike vá chegar a Cuba hoje à noite e que pode atingir Havana – a capital, com 2 milhões de habitantes morando em prédios antigos, vulneráveis. Ontem, o governo socialista começou a retirada de mais de 600 mil pessoas que moram na região costeira e montanhosa da província de Holguin.
Na base naval americana de Guantánamo, em Cuba, todo o serviço de barcas foi suspenso. Segundo os militares, as celas que detêm 255 homens suspeitos de ligação com o Talibã e com a Al Qeada são à prova de furacões.
– Os oficiais estão de sobreaviso – disse o oficial da Marinha Robert Lamb. – Já sentimos o vento.
Quando deixar Cuba, a previsão é de que Ike suba o Golfo do México em direção a Florida Keys. Mas onde vai tocar o solo é mistério: pode ser tanto na Flórida quanto mudar de rumo e atingir o México.
– Estas tempestades parecem ter vida própria – define o governador da Flórida, Charlie Crist.
De qualquer maneira, turistas foram retirados dos Keys no sábado e, ontem, moradores também tiveram de deixar suas casas. A operação começou pelas ilhotas que ficam mais ao Sul.
Em Louisiana, o governador Bobby Jindal armou uma força-tarefa para se preparar para mais danos. Há uma semana, o Estado organizou uma operação de retirada de 2 milhões de pessoas que vivem nas áreas por onde passou o furacão Gustav. Foi um sucesso histórico, depois da tragédia causada pelo Katrina, há três anos.
No entanto, o prefeito de Nova Orleans – a cidade mais arrasada pelo Katrina – teme que as retiradas percam o impacto.
– Nossos cidadãos estão cansados e gastamos muito dinheiro na operação do Gustav – disse o democrata Ray Nagin. – Acho que será muito difícil mover a quantidade de pessoas que movemos na semana passada.
A temporada de furacões no Atlântico Norte deve terminar em meados desde mês.
[23:20] - 07/09/2008