Jornal do Brasil
RIO - Bolsa à tiracolo, andar vagaroso, Chico Alencar chegou ao JB distribuindo sorrisos e pedindo desculpas pelo atraso de 50 minutos. “Sabe como é, a garotada não me deixou sair”, comentou ele, que vinha de um debate no Colégio São Vicente, onde o candidato deu vazão ao lado professor que exerceu anos a fio antes de entrar para a política. Oitavo nome a ser sabatinado pelo jornal, o candidato a prefeito pelo PSOL parou, olhou as fotos expostas na Casa Brasil, analisou os momentos históricos registrados e só depois de um pouco de conversa jogada fora, sentou-se à mesa. Em duas horas de conversa com os jornalistas Tales Faria, Marcelo Ambrósio, José Aparecido Miguel, André Balocco, Rodrigo de Almeida e Fred Raposo, lembrou seus tempos de militância petista, culpou os desvios de conduta do antigo partido pela apatia da população e deixou a modéstia de lado: “Quero fazer o PT sentir saudades do PT pré-delubiano”.
Como está a recepção do eleitor à sua candidatura?
Estamos sentindo uma apatia muito grande. Parece que o pessoal não se ligou que tem eleição. Mas ontem (domingo passado) meus filhos cobraram um encontro e fomos ao Maracanã ver o Fla-Flu. Na chegada muita gente me reconheceu: Há uns três meses, já era candidato, mas não teve nem comparação com ontem. Teve até um grupo que falou: "Vê lá se é pé-frio hein. Se o Flamengo perder não vai ter chance de ter voto aqui. Quando o Fluminense fez 2 a 1 pensei: "Ai meu Deus. Podia estar em casa descansando". Mas tenho a percepção de que há interesse, mas ainda muito pequeno. Na rua, no Centro, de cada 10 pessoas que passam, três ou quatro se interessam. Como disse o JB, numa belíssima foto, nas escadarias do Municipal, semana passada: "Chico faz campanha à moda antiga". Mas a gente vai insistir porque eu adoro essa moda antiga. Essa mídia à moda antiga, do jornal impresso, para mim é leitura essencial. Na minha formação de jovem, o nosso jornal era o JB. Me lembro do JB de 73, estava na faculdade, sobre o golpe do Chile. A capa do jornal era só texto, texto, texto relatando, e a gente ávido, sofrendo com aquilo. O JB tem essa marca. Torço muito pela recuperação do jornal. E acho que o que ficou mais visível até agora foi a cobertura das eleições.
E as pesquisas?
Tenho fama de reclamão. As organizações Globo trabalham muito em cima das pesquisas, dão a cobertura de acordo com elas. Há uma semana, o Ibope deu empate técnico entre eu e Gabeira, e como tenho menos rejeição, estava na frente, o que foi critério para o RJ TV chamar os cinco primeiros colocados. O Gabeira surpreendentemente ficou de fora. No entanto, a cobertura do jornal não obedeceu este critério. Aí eles estão um pouco abandonando o Gabeira, que foi um candidato muito incensado no início. Mas iam reduzindo o espaço do Gabeira e não me colocaram no lugar.
Existe uma polarização na mídia entre Paes e Crivella?
Essa polarização está sendo muito estimulada por pesquisas que têm universo pequeno. Para 4.550.000 você ouvir 700, 800, 900 ou mil pessoas, é um universo pequeno, com margem de erro grande.
Por que acha que estão estimulando essa polarização?
Porque uma que parece que cimentou socialmente seu teto eleitoral. Não há providência que dê jeito nisso. E a outra é uma candidatura rigorosamente do sistema. O Paes é adaptado ao poder. A sua história política inclusive me autoriza a dizer isso. Ele começou com o Cesar Maia aqui, depois foi para o PFL, cresceu com o Cesar. Me lembro do Paes como administrador. Depois deu uma passadinha no PTB, PFL, DEM, PSDB lá em Brasília. Ele fazia os discursos mais contundentes contra o Lula. Muito crítico à corrupção, à incompetência do governo. Secretário-geral nacional do PSDB. Foi nessa condição que migrou para o PMDB do seu ex-adversário em 2006, a quem combatia fortemente, o Cabral. Então ele é uma figura jovial, faz aquele perfil de jovem, político, dinâmico. Mas sem uma trajetória de consistência doutrinária, ideológica e política. Então tem nesse sentido chance para derrotar, eventualmente, o Crivella. Acho que há um interesse difuso aí, é claro que nenhum órgão de imprensa vai assumir isso: "Não, o nosso conselho editorial resolveu apoiar A, B ou C". Tem sempre o argumento da cobertura democrática. Mas ela está segregada, parcial. E isso é ruim para a democracia. Tem o abuso do poder econômico, da máquina administrativa. A Solange também faz das suas.
Tem caixa 2 nas campanhas?
É uma tradição. O Eduardo primeiro só apresentou os números no TRE. Não especificou nem os doadores na primeira prestação, agora vamos ver essa segunda. Eles têm uma máquina, uma coisa sofisticada. Os cabos eleitorais do Paes distribuem prospectos acetinados, bonitos, tiragem de milhões. Têm até uma firma, um uniforme de camisa pólo, calça jeans, sapato esporte. São cleans, não têm perfil do cabo eleitoral segurando a placa, pessoas de origem humilde. Isso são empresas. Estimo que tenham acima de 300 mil placas, não sei, inclusive esta novidade das placas iluminadas à noite. Então tem o nome, número, cara jovial e tal, essa parceria com o governo do Estado. Está dentro do universo que chamo de lulo-dependentes: Molon, Jandira, Crivella e ele, sempre de maneira anti-republicana, propagando que eleito qualquer um desses vai ter uma reação fantástica com o presidente. Como se eu, por exemplo, pudesse não ter, ainda mais conhecendo tanto o Lula, de tantas histórias. O Lula é um pragmático. Tenho certeza que jamais vai querer uma política de confronto com um prefeito que foi do PT e que faz a crítica ao governo dele por um viés diferente do PSDB, do DEM. Quero como prefeito fazer o PT sentir saudade do PT pré-delubiano. Vai ser uma relação menos custosa para o governo do que com essa base cumplíssima.
O senhor falou do PT pré-delubiano, que a campanha não entusiasma. Esse desinteresse foi causado pela frustração com o PT, com a desesperança?
O governo Lula embaralhou as cartas de políticas no Brasil, e os sinas da esquerda e da direita, de maneira muito grave, pelas escolhas feitas. O mais grave foi desmobilizar a força social de mudança e começar a chamar o Henrique Meirelles. Ninguém imaginava uma política de ruptura absoluta com todos os sistemas internacionais, mas uma política econômica menos ortodoxa. Uma vez eu encontrei o Pedro Malan em Brasília e ele disse: "Poxa, vocês estão menos conservadores do que eu, hein? Quem diria". O Maluf disse recentemente que, pelo que o PT gosta de banqueiro, ele se sentia um comunista. E as alianças políticas? Quem é o líder de governo no Senado? Romero Jucá. A defesa, inclusive do PCdoB, do Renan Calheiros, foi aberta. O Lula diz que o Severino Cavalcanti é uma vítima das elites paulistas. O Jader Barbalho é o homem que dá as cartas nos cargos do governo. Isso tudo tem um preço. Isso tudo gerou uma confusão enorme pelas incoerências e contradições, no âmbito da esquerda. Mas no Brasil isso assumiu uma feição particularmente aguda e trágica, e aí leva à desmobilização e ao desencanto, inclusive na parte mais informada. Costumo dizer que, para uma parcela da classe média, há um tipo de postura nova, que é o neoconformismo esclarecido. A pessoa tem informações, sabe, mas não acredita mais na cidadania. Muitos se contentam em votar.
Lula é o político mais disputado entre os candidatos como cabo eleitoral. Onde é que está o descompasso entre a política do governo e a esperança?
Lula por outro lado introduziu um outro padrão de governabilidade que a esquerda, que nunca tinha experimentado chegar ao poder assim, não conhecia. Hoje posso dizer que o lulismo é muito mais forte do que o petismo. O PT vive um processo de peemedebização. É um partido amplo, que incorpora desde o Jorge Babu, que o Berzoini só agora há três dias descobriu que ainda está no PT e é deputado estadual, até figuras generosas que tem ainda um ritual, uma utopia, uma dimensão política. Mas claro que isso vai complicando nesse sentido, de uma nitidez maior. O Lula era uma figura emblemática, um Silva, como os brasileiros, e um ex-pobre que tem como poucos essa sensibilidade da percepção popular. Estava vendo a participação dele nos comícios no ABC e me lembro que ele fala aquilo que conhece, vive. A bioplastia dele dá uma imantação em relação ao povo despolitizado. Quer dizer, um paradoxo. Pela convivência que tivemos íntima, ele falava: "Eu sou produto do crescimento da consciência política da classe trabalhadora nesse país". Um paradoxo. Quase seis anos depois da sua ascensão ao poder, a consciência politica do trabalhador diminuiu, do ponto de vista da sua organização, da participação nos sindicatos, da independência de classes, da compreensão de seus interesses, da força de mobilização. Então é um paradoxo, porque por outro lado, quando você cresce como personagem político, a impessoalidade da política, que sempre fortalece as organizações partidárias ou intermediárias da sociedade, diminui. Então, a República ficou menor, embora haja um lider originário do processo de democratização. É outra contradição. Por isso há pessoas do PT com quem tenho relação fraterna e muito elevada lá em Brasilia, seja de ministérios, seja da bancada do PT. Muitos dizem: "Ainda bem que o PSOL está em construção porque vocês representam algumas fronteiras que a gente não pode ultrapassar, sabe como é. Para ter governabilidade tem que abrir mão de certas coisas". Muitas vezes parlamentares do PT me pedem para ir à tribuna e atacar certas posições que o governo está cedendo. É um situação complexa, difícil, construir um partido, que nunca pode ser conjuntural, ele tem que ter posições conjunturais, mas na oposição ao Lula é difícil, mas é um dever. E a gente também fazendo esforço para não se confundir com a oposição de direita. Um último detalhe, o caso dos grampos. Será que os grandes grupos da telefonia não podem ter feito isso? Não é uma hipótese?
A crítica ao PT pós-delubiano, do PSOL, é muito parecida com a do Gabeira. Esse discurso pegou na elite, mas não se espraiou. A candidatura Gabeira, decantada como grande fenômeno dessa eleição, não pegou. Não teme que o mesmo ocorra com sua candidatura?
Não porque o PSOL não se constitui como contraponto ao PT. É verdade que, em boa parte, é originário das discensões que ocorreram no PT. Mas incorporou outros segmentos, que não tem, nem a postura mais definida do ponto de vista estritamente da classe operária, da articulação de classes no Brasil que o PSTU, nosso coligado, tem. Senão estaríamos todos no PSTU. Então a gente espera ter vida longa. É a primeira eleição municipal que o PSOL disputa. Naturalmente ninguém tem a ilusão que vai fazer muitos prefeitos, vereadores. Agora, continuo com a convicção profunda de que é muito importante existir o PSOL, pequeno partido contra a velha política no cenário nacional. Até porque é o PT delubiano que está aí. Delúbio anunciou que tudo isso do Mensalão ia virar piada de salão e já virou. Aliás o Lula, no ABC, falou: "Ah, aquelas falsidades, aquelas maledicências, porque caixa 2 todo mundo faz". Como se fosse só isso. Volto a dizer que o PT hoje é a metade do caminho do PMDB, que é uma legenda ampla, forte, simpática, cabe todo mundo. Um amigo meu cineasta, na crise do PT, até brincava: "Está nesse dilema sai-não-sai, se sai vai para onde". Eu recebi muitos convites: PSD, PDT, PPS, PCB. PCdoB não. A gente preferiu essa tarefa extremamente difícil e ousada que a Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro já tinham iniciado de construir um partido, o que não é mole. Inclusive as exigências de hoje são muito maiores do que antigamente, mas conseguimos. O PSOL quer se constituir com fisionomia própria, não é contraponto do PT. Reconhece a profunda crise do socialismo Há importância de estar na institucionalidade política, mas também nos movimentos sociais, de não aparelhá-los. Ter muito cuidado com as alianças que podem desfigurá-lo e corrompê-lo. E não ter tolerância com certas posturas que vão adquirindo uma certa normalidade na política que são insustentáveis para nós. Ter um deputado como o Jorge Babu, pelo que ele significa, seria inconcebível.
Levando em conta as limitações de estrutura partidária, qual a estratégia para se diferenciar dos demais candidatos? Os ataques a Jandira não tem sido à toa...
Nenhuma crítica, prefiro a palavra crítica, é gratuita, deve ser fundamentada. A trajetória do PCdoB é de um oficialismo permanente, e agora se vê que, além disso, tem o hegemonismo. Hoje (segunda-feira), o JB cobriu, houve uma situação quase patética. Um debate que a mocidade do São Vicente, com apoio da escola, parou o colégio para a turma do ensino médio, provavelmente a maioria não-eleitores, promover um debate para os candidatos a prefeito. Lotaram o auditório e atentos, sem necessidade de um professor olhando, perguntas excelentes. Fomos Gabeira, Molon, Eduardo, Serra e eu. A Jandira não vai e manda representante. Deu confusão, ele, Capelli, inclusive candidato a vereador. Uma postura até arrogante. O discurso nacionalista do PCdoB caiu na bacia das almas, ou melhor, nas bacias sedimentárias, eles não questionam os leilões dessas bacias.
Então tem uma questão de fundo. Prefeito do Rio não pode ser, como muitos dizem, só um síndico, um xerife, uma dona de casa. Ele tem que ser isso e sobretudo uma liderança política. Uma eleição em dois turnos é muito democrática nesse sentido. Permite afirmação do seu projeto no primeiro turno. É a eleição do sim. Todo o partido com quadros, trajetória, doutrina, militância, falo isso nessa concepção de esquerda de partido político, é legítimo disputar uma eleição. O segundo turno, do não, é a afirmação entusiasmada do seu próprio projeto que chegou lá. Essas tentativas da Jandira revelam a arrogância, uma pretensão descabida de se colocar como única candidata da esquerda, o voto útil da esquerda. E pior, vai bater na porta errada porque ela devia procurar os seus aliados. É estranho que você seja de esquerda só em certos momentos e situações. A Jandira fez um pacto de não-agressão com o Crivella.
E o não crescimento da candidatura do Gabeira?
Não arriscaria dizer que não cresceu. Até agora essas pesquisas, inclusive pelo próprio desinteresse da população no pleito, são precárias. As pesquisas de referência para fazer análise da conjuntura, as melhores nesse cenário, são as espontâneas, que dizem que apenas 20% dos consultados escolheram um candidato a prefeito. A vereador, só 5%.
O senhor está dizendo que as pesquisas, de certa forma, induzem a opinião pública?
Induzem. Porque como o voto virou um pouco uma mercadoria, um instrumento de mínima barganha extremamente provisória para o senso comum, já ouvi dizerem: "Não quero desperdiçar meu voto. Vou votar em quem está na frente". Que é a concepção do atraso político mais terrível. É o voto despolitizado. Nossa campanha vai insistir, nesse mês que falta, muito nesse voto consciente, qualificado, inclusive para vereadores. No nosso "programínimo", como chamamos, de 57 segundos em TV e rádio, já começamos a alertar para que há um perigosíssimo processo de aceleração da captura dos poderes institucionais pela criminalidade. Isso é particularmente forte no Rio de Janeiro. Câmara de Vereadores, Assembléia Legislativa, no Judiciário as interseções devem existir também, nos Executivos. É dever dos partidos políticos tomar posição clara e firme quanto a isso. Não pode haver nenhuma dúvida. A hora é muito grave. Antigamente a famosa caixinha da Fetranspor era recorrente. Tentamos fazer uma CPI, a partir de denúncias do Garotinho, que não deu em nada. A própria base do Garotinho refluiu. Depois com três, quatro meses de conversa com o Picciani, ele acabou se acomodando ali, nesse grande sistema, espinha dorsal da política do Rio. E o que a gente vê hoje? E não é discurso de um candidato da frente socialista, de um candidato de esquerda não. Hoje no Rio, todos os grandes partidos na sua nominata de disputa das eleições têm, em seu corpo parlamentar, pessoas acusadas de crimes graves ou presos. Isso é muitíssimo grave, porque essa tendência pode aumentar. Estudo de sociólogo da PUC, disse que, dos 50 vereadores, 25 praticamente estão lá para intermediar interesses localizados. Outros tantos ficam ali só para fazer leis e ter status de vereador. Então a gente tem um quadro de degeneração político-partidária no Brasil que, eu afirmo aqui, alimenta até a nossa espiral de violência.
Segurança pública é um assunto a ser tratado pelo prefeito?
Sem dúvida, e vou além. O prefeito do Rio tem autoridade política para falar até da paz mundial, e da política do Bush, que felizmente me parece no seu ciclo terminal. Claro ele não vai se ocupar disso o tempo todo. Mas eu sou do Rio, quando eu nasci aqui estavam as maiores lideranças políticas nacionais. É verdade que ainda era capital, sou da metade do século passado, mas o Rio tinha essa vocação cosmopolita, metropolitana. Foi aqui que chegou a Família Real. Então a gente tem vocação de grandeza política. Estou fazendo uma ligeira digressão histórica, mas chegando à sua pergunta. Se essas questões nacionais e mundiais são também do prefeito do Rio, que dirá o nosso cotidiano de segurança pública. Por uma razão básica, a violência é grave o suficiente para julgar que pode ser resolvida apenas pelas polícias, que de resto precisam de reforma profunda, reestruturação, atualização, combate à corrupção.
As nossas polícias precisam ser reformadas radicalmente. Claro, a militar e a civil são vinculadas ao Estado, assim como a federal ao governo da União. Mas eu, como prefeito, não quero polícia não, quero poder ponderar e questionar a atuação das polícias. Quero me sentar, como estou aqui, no hoje um pouco esquecido Gabinete Integrado de Segurança Pública, que existe no Rio e não está ativado. Para junto com representantes do governo da União, e do bom programa, o Pronaci, que eu, como deputado federal, votei e aprovei. O Gabinete Integrado de Segurança Pública, e a articulação com o governo federal, tem a missão importantíssima de combater o atacado do comércio criminoso de armas e drogas ilícitas. Porque o que a gente tem nas favelas, de maneira crescente, despótica, triste, conheço, eu vejo isso quase que todo dia, porque moro como tantos numa área linda, numa comunidade pobre, tem o poder despótico ali do varejo de drogas e a meninada armada. O garoto que pegava côco na minha casa – em Santa Teresa, ainda tem um quintalzinho – vai crescendo, quando ele deixa de usar o uniforme da escola pública, ihh tá ficando estranho, vai ficando meio fechado, macambúzio. Aconteceu literalmente isso com um menino chamado Jeferson. Aí vi ele com uma arma na mão, falei: "Que isso rapaz?". Ele respondeu: "Estou aqui para garantir a paz, pode deixar". Dali a 15 dias ele foi morto. Pior. Quando a nossa juventude começa a perder o medo da morte, é porque perdeu a dimensão da vida. E aí entra a prefeitura, a creche, a educação infantil, a educação pública de qualidade, as ofertas culturais, o amparo, o apoio, a parceria com entidades sérias que fazem um trabalho com essa juventude. O papel da prefeitura é como braço social da política integrada de segurança pública.
A Guarda Municipal entra nesse contexto?
A Guarda Municipal entra na sua atribuição, que não é de polícia. A GM é uma corporação em busca de sua própria identidade. Falo como alguém que, como vereador, ajudou a criar a empresa municipal de vigilância. É polícia ou não é? Não é polícia. É a guarda da mobilidade humana, isto é, do trânsito, dos espaços públicos, inclusive para ordenar o comércio ambulante. A Guarda não é para sair correndo atrás de camelô nem de bandido. Ela pode e deve agir como Guarda da cidadania, da orientação da cidade, como guarda do zelo pela urbanidade que muitos motoristas e que muitos pedestres desrespeitam, ela pode e deve ter uma conexão para o enfrentamento de pequenos delitos, do cotidiano, com as polícias. Agora a GM vai para a rua e não sabe quem da polícia está lá, que patrulinha está, como é que funciona. É uma desintegração absoluta.
Se ela é uma força de segurança, mesmo para pequenos delitos, tem poder de polícia...
Para ter este poder tem que ter status de servidor público do ponto de vista jurídico e legislativo.
Armada ou desarmada?
Desarmada, sem armas letais, de fogo. Porque é temerário você colocar mais 5.900, 5.800...de repente é complicado ter 5.800 pessoas a mais armadas se eu tenho convicção absoluta que não vai diminuir a violência. Pelo contrário, desconfio que pode até aumentar. A PM volta meia usa muito mal as armas de fogo, e ela é uma instituição centenária. Acho que o guarda deve estar provido de algum elemento de proteção contra os tumultos urbanos. Mas entendo que uma Guarda com o seu papel definido e com uma atuação complementar à das polícias garante uma vida menos tumultuada. Não é vocação da GM, por exemplo, controlar tumulto de torcidas na saída do Maracanã. Agora ela pode ser a Guarda do ordenamento urbano no sentido da cidade como espaço público. Nos debates falam de Bogotá, Medelín, Nova York. O Rio parece que tem que imitar todas as outras cidades! A gente tem que ter as nossas soluções próprias mas recolher experiências. A decantada Bogotá começou a ter uma inflexão na sua situação crítica não só combatendo desigualdades e fazendo uma profunda reforma nas polícias, que é muita corrupção, foi muita gente exonerada, mas com um prefeito filósofo, que estimulou algo, que quando eu falo o pessoal acha que é delírio ou coisa muito idealista, que é a cultura cidadã, a transparência com o dinheiro público, e o chamamento a cada cidadão se organizar a participar da vida da cidade. Aqui há papel até para os mais idosos, para os chamados inativos aposentados, como alguém que ajuda a prefeitura a realizar as suas políticas públicas. Esse reencantamento da população com a própria cidade, com o seu governo, é fundamental.
De acordo com a últimas pesquisas, há risco de a esquerda ficar de fora do segundo turno. Isso levaria o PSOL a se aliar a Jandira Feghali?
Da nossa parte não, até porque a gente está na rua direto, e eu te asseguro que temos muito mais intenções de voto do que as pesquisas apontam. Não vou dizer que a gente está ombreado com aqueles que têm o recall da eleição passada, de 2006. Não por acaso Crivella, Paes e a própria Jandira. Eles disputaram eleições majoritárias. As últimas, nem foi só a última. Nós temos a nossa chapa de vereadores, tem a coligação com o PSTU, a gente vive cada dia na maior intensidade, põe tudo que a gente é no mínimo que a gente faz, quer ser grande em cada coisa. Estou parafraseando o grande Fernando Pessoa. Não vemos os outros candidatos na rua. Não tem mais essa figura da militância. O material que o nosso militante distribui tem muito mais receptividade do que aquele do cabo eleitoral, mesmo o "clean". Porque tem a autenticidade. Em debate na Uerj, com auditório cheio, infelizmente lá não foi a Jandira, não foi o Molon, isso para nós é muito grave, é caminho de separação. Quem foge a determinados debates, e se reivindica do campo de esquerda, está mostrando que não é tanto assim. N História e na vida, a própria população escolhe os seus caminhos, independente dos partidos. Você pode orientar uma determinada posição, mas isso vale para o partido. O povo não é rebanho, o povo faz suas análises e suas considerações. Fica muito difícil para o povo achar que um é mais à esquerda do que o outro, só porque tem uma foice e um martelo na bandeira.
O senhor acha que a Jandira e o Paes são a mesma coisa?
Não. Eles têm trajetórias diferentes. Acho que a perda de definição, de nitidez, a partir da Era Lula, é muito grande. Nós vamos analisar a conjuntura para o segundo turno e aí aprofundar todas essas análises. Não acho correto eu antecipar como vai ser governo de A, B ou C, exceto o que eu represento. No meu governo eu lhe asseguro que vai ser de esquerda. Isto é, participativo, transparente, com absoluta prioridade ao social. Agora, você é no governo muito do que na campanha. Quem faz campanha com uso da máquina administrativa? Espúrio, criminoso. Quem faz campanha com abuso do poder econômico? Quem faz campanha sem se submeter ao debate democrático de entidades estudantis, sindicais, associativas? Quem só vai a debate das grandes redes de TV ou dos grandes conglomerados econômicos? No debate da Fecomércio estava todo mundo lá, menos a Solange, e o Crivella, que tinha razões justificáveis, pois coincidiu com o dia de entrevista dele na CBN. Eu nunca mais, em nenhum debate, na Zona Oeste, na Uerj, no colégio São Vicente, nunca mais encontrei esses candidatos. Eu questiono muito essa postura, sobretudo em quem se reivindica uma trajetória de esquerda.
O que dá para falar do seu programa de governo em 57s?
Pouco. Dá para falar que a educação é prioridade, duas ou três falas e, por favor, se você estiver na internet, vá à página da campanha. Senão, nos encontramos no Largo da Carioca, no calçadão de Bangu, na Praça Mauá, no Ponto Chique, no Mercadão de Madureira... O contraponto desse pouco tempo de TV, que é o preço que a gente paga com serenidade, não com alegria, é a independência política. Os outros não podem falar porque todos, de alguma maneira, estão ligados às máquina municipal, estadual, federal ou universal, que aliás é do governo federal, ou global.
O senhor que dizer que não é o candidato das máquinas?
Olha, não tenho arrogância de achar que sou o único mas, seguramente, não sou de máquina nenhuma. Falo isso com emoção. Encontro cada depoimento tão bacana na rua, de gente que vem e chora: "Puxa, eu admiro muito vocês que deixaram o PT quando ele chegou ao poder". Não é por um espírito oposicionista atávico. Não é por mania de ser do contra. Foi um contencioso debatido, dramático, angustiante. Essa escolha de mudar de chapa para continuar o plantio, pelas pessoas informadas, ela é muito respeitada. Inclusive por figuras do PT. Outros mudam de partido de acordo com as conveniências. É bom lembrar porque na coligação do Eduardo Paes está também o PTB do Roberto Jefferson. Ninguém fala isso. Essa história de votar na figura e não no partido é uma desgraça. Você tem que votar no candidato, isto é, na sua trajetória de vida. Você tem que votar no partido, no seu programa, na sua doutrina.
Acredita que os candidatos, o senhor inclusive, aproveitam pouco a internet? Sente falta da estrutura do PT?
Sinto falta de tempo de TV, rádio. Pois como vocês estão vendo aqui, com a minha loquacidade às vezes exagerada, tenho muito o que dizer. A política, embora cada vez seja eleição de mercado, e o voto dado assim de maneira um pouco inconseqüente, e isto é estimulado, são caras e números. Você tem a sabedoria que não é do marqueteiro, pode ser do bom publicitário, mas é sobretudo do bom político, que tenha idéia de causas e não só da política do dinheiro. Tem que traduzir isso em uma linguagem que o povo entenda. Agora, eu sinto é claro a falta da estrutura do PT. A gente contribuiu com o início da Era Lula, batalhada por 20 anos por todos que viemos do PT, aquele tipo de estrutura que você adquiriu é muito bom. Agora, com certas concessões, cada vez maiores. O preço que se paga para esse tempo de TV e rádio do PT é dramático, muito triste. Me lembro da reunião do diretório nacional, quando o (José) Genoíno renunciou à Presidência do PT, lá se vão três anos, ele falou: "Eu vivi a vida parlamentar como o meu paraíso", ele que era um excelente deputado, atuante...está lá de novo. "Quando eu resolvi disputar o Executivo, começou meu calvário". O financiamento privado de campanha é a porta da corrupção política e da degeneração partidária.
Por que não se parte para o financiamento público?
Quando eu era da Comissão Especial da Reforma Política, em 2003, ainda no PT, a gente tentou. A base de sustentação do Lula, todos – à exceção do PT e do PCdoB, vamos ser francos também – ou seja, PMDB, PTB, PR (o antigo PL), o PRB, todos foram contra, porque fazem política deste modo. Uma vez surpreendi um candidato majoritário famoso no Nordeste, época de campanha de reeleição em 2006, e na agenda tinha "tal hora empresário tal, tal hora empresa tal, tal hora banco tal". A gente assim, Praça Seca, Saens Peña, Calçadão do Méier, Dias da Cruz. Ele não, era empresário A, B, C, D. E aí faz a política do arrebanhamento. Acho que o PT está pagando um preço caríssimo e se desfigurando. Agora, escândalo do PT ficou como caixa de lenço de papel: você puxa um, sai outro, um atrás do outro. E pior, como disse o Garibaldi Alves: "Ninguém mais se espanta". É uma tragédia. Não é o moralismo udenista. É bem diferente de moralidade na vida pública e rigor ético. Claro. Mesmo nós do PSOL podemos ter um filiado lá que transgride, que tem esquemas que a gente não conhecia. Agora, a postura tem que ser imediata. Eu quero ver o que o PT vai fazer com o irmão do Babu, que é candidato a vereador. Vou ser o primeiro a aplaudir, podem me ouvir na ocasião, se eles tirarem o rapaz da nominata. Não é condenado em julgamento, porque tem uma visão errada sobre o direito a candidatura. Candidatura não é nem sequer um concurso público, que já tem suas restrições. Candidatura à representação não é um direito universal sem qualquer limite. Pressupõe parâmetros mínimos, que os partidos têm a obrigação de estabelecer e fazer cumprir. Tem um projeto do meu amigo Biscaia, de 2004, que diz que condenados por homicídio, roubo, seqüestro, tráfico, corrupção ativa e passiva em primeira instância, não pode concorrer. O ACM Neto foi nomeado relator e sentou em cima.
Caso Eduardo Paes vá ao segundo turno com o senhor, existe a possibilidade dele buscar o apoio do PT. Ele deve ser cobrado?
Não, porque não são críticas de ordem pessoal. São críticas ao partido. O PT anda de jeito tal que não há nada certo. Eu vou disputar a militância sincera do PT, sempre. Porque o eleitor é livre. A gente vai apresentar um programa. Outra grande vantagem do segundo turno é que são 10 minutos para cada um. Se o Crivella estiver lá, disputando contra mim, eu vou cobrar a sua história social e política no Rio, que é nenhuma. O Crivella é um anjo, não vou dizer que é do mal ou do bem, é um anjo etéreo que nunca fez política. Suspeito que é por isso que fugiu do debate comigo no Casa Grande. Ia perguntar se ele veio no debate sobre anistia, sobre a liberdade democrática? Se veio naquele show do Chico com o MPB4, em plena censura? Pelo menos se viu a peça Os Mistérios de Irma Vap? A minha principal crítica é que ele é uma figura desses novos tempos da despolitização política. Ele não tem trajetória. Por isso que não tem estofo para ser prefeito do Rio. Acho até que dificilmente será. O Eduardo Paes vou questionar a sua trajetória errática do pula-pula sempre a serviço do poder. Isso é ruim para a política. E é uma cobrança política. As idéias brigam e as pessoas não, se respeitam. São todos muito educados. Eu só não estou cumprimentando gentilmente porque eles não aparecem em debate nenhum. Impressionante como fogem. A Jandira também, as críticas que fiz aqui ao PCdoB, eu vou levantar também. E uma postura muito arrogante dela desde já. É pretensioso você começar a clamar pelo voto útil dizendo que é o pólo de esquerda viável. Um pouquinho de humildade não faz mal a ninguém. Agora, eleição no segundo turno, você tem que ter a proposta, o programa, buscar apoios. É diferente da aliança programática, que você estabelece no primeiro turno, e disputa o voto na sociedade.
E da Solange, o que o senhor cobrará?
Tudo que foi absolutamente insuficiente no governo que ela representa. Inclusive a postura vertical, tecnoburocrática, autoritária. De gastos disparatados em algumas áreas, e carente em outras. Da política do Cesar Maia de transferência de recursos públicos para a iniciativa privada.
[20:07] - 06/09/2008