Portal Terra
NOVA YORK - Não teve nem Gustav nem Hannah. O furacão que assolou o cenário americano nesta semana chamou-se Sarah. Sarah Palin. A maior surpresa da corrida eleitoral à Casa Branca até o momento, a governadora republicana do Alasca, de 44 anos, fez um discurso radical e raivoso ao aceitar o convite para ser a candidata à vice-presidência na chapa do senador John McCain. "Sou uma pitbull de batom", avisou, com bom-humor, mas deixando claro quem será o cão-de-ataque da direita nos próximos dois meses de campanha.
Pois o furacão se transformou, durante a semana, em fenômeno pop, com dezenas de imitações da governadora na Internet. No site YouTube, marmanjos de peruca e óculos fizeram pose de bibliotecária sensual e imitaram os trejeitos da política. E McCain e Palin anunciaram que esta semana começam a Caminhada Para a Vitória, em busca dos votos das eleitoras chamadas de "hockey moms", uma corruptela de "soccer mom", termo usado para definir as mães de classe média da América Profunda.
O hóquei é o substituto para o termo em estados nórdicos como o Alasca da governadora. Os republicanos acreditam que o carisma de Palin pode trazer para a chapa situacionista o voto de mulheres decepcionadas com a exclusão de Hillary Clinton da chapa democrata.
Feminista histórica, Gloria Steinem, que apoiou a ex-primeira-dama com destaque nas primárias, apareceu nas páginas de opinião do Los Angeles Times com o texto "Palin: Mulher Errada, Mensagem Errada". Direta, ela diz que Palin e Hillary Clinton têm, em comum, apenas um cromossomo. "Esta não é a primeira vez que um chefe escolhe uma mulher desqualificada para um posto de trabalho apenas porque ela concorda com ele, inclusive em oposição às posições da maioria das mulheres. Votar em Palin em protesto contra a ausência de Hillary da disputa é como reclamar que alguém roubou seus sapatos e por isso você vai amputar suas pernas."
A governadora defende o ensino de teorias anti-evolucionistas nas escolas americanas, é contrária ao direito de aborto e à união civil de pessoas do mesmo sexo, em rota de colisão com a senadora Clinton. A revista Time, o mais importante semanário do país, chega neste domingo às casas dos americanos com a imagem da governadora na capa e o título: "A Educação de Sarah Palin". O repórter Nathan Thornburg viajou para a pequena Wassilia, cidade onde Palin estreou na política, como vereadora e prefeita na década de 90, para descobrir detalhes sobre o enigma do momento.
Em uma reportagem de sete páginas, Thornburg diz que "em menos de uma semana, o país foi apresentado a pelo menos sei versões diferentes de Palin, como a ex-miss que virou governadora, a mulher que iniciou uma cruzada contra a corrupção no Alasca, a caçadora de alces que também faz questão de mostrar seu lado feminino nas sessões de foto, a evangélica conservadora com ambições imensas." A revista ouviu o antecessor de Palin na prefeitura, que lembra de algo extremamente polêmico: segundo ele, Sarah teria questionado à bibliotecária local quais seus poderes no caso de censurar a compra de livros que julgasse inapropriados para os habitantes da cidade.
Também é questionada a ambição da governadora, que só teria revelado à campanha a gravidez de sua filha adolescente um diz antes de ser apresentada por McCain aos americanos. A mistura de família e política parece ser uma constante na carreira da governadora, que está sendo investigada em seu estado por ter pedido a demissão de seu ex-cunhado da guarda estadual, em meio a um divórcio complicado.
Na mesma revista, um dos mais respeitados analistas políticos do país, Joel Klein escreveu sua mais dura coluna sobre a corrida eleitoral, afirmando que as escolhas de Palin e do senador Joseph Biden para a vice-presidência, respectivamente, por republicanos e democratas, definiu de vez o tipo de governo que se terá na Casa Branca a partir de 2008. Uma opção seria conservadora e a outra radical. "E a conservadora seria um governo democrata. A escolha de Biden revelou muito sobre Obama: um sujeito que não gosta de desapontar ninguém, obcecado por encontrar o meio-termo, o centro da discussão. A escolha de Palin, petulante, peremptória, foi mais um exemplo da preferência de McCain pela política de gestos e não de conteúdo. Sua falta de interesse em governar nos desaponta. Ao escolher Sarah Palin, ele fez um imenso favor aos cidadãos americanos: revelou exatamente o tipo de presidente que será."
O texto pontua todos os pontos fracos de Palin. A governadora teria apoiado a chamada "ponte para lugar nenhum" no Alasca até o projeto se tornar uma das maiores piadas da história dos EUA, pois ligava o município de Ketchikan a uma ilha com apenas uma dúzia de habitantes a um custo de US$ 223 milhões. Também não acredita em aquecimento global, era próxima de um dos maiores símbolos da corrupção dentro do Partido Republicano, o senador Ted Stevens, também do Alasca, processado por desvio de verbas.
Klein lembra também que o simpático marido da governadora, por ela apresentado na tevê como "first dude" (algo como "primeiro cara"), em contraposição às primeiras-damas, foi membro durante anos de um partido que defende a independência do Alasca. E a governadora, ele diz, definiu a invasão do Iraque como "uma tarefa que nos foi dada por Deus". Radical ou não, o furacão Palin deu novo gás à candidatura McCain. A pesquisa nacional CBS News, feita na semana seguinte ao anúncio de que a governadora seria a vice na chapa republicana, mostra Obama e McCain empatados, com 42% das intenções de voto, uma recuperação de oito pontos em apenas uma semana.
Markos Moulitsas, comandante do blog liberal mais popular do país, o Daily Kos, conta que a explosão de Palin rendeu-lhe o maior número de acessos na história do site. "Geralmente nos fins de semana as pessoas desaparecem. Mas ninguém quis saber de outra coisa desde o anúncio de Palin: todos querem falar da governadora. Mas agora que eles parecem estar descobrindo quem ela é de fato, ela pode se tornar um pesadelo para os republicanos. Agora, os cristãos de direita a adoram. Para eles, ela é praticamente a segunda encarnação de Cristo." Até mesmo o grupo de pop-rock Heart (dos pegajosos hits What About Love? e These Dreams) entrou na olho do furacão, exigindo que a campanha republicana parasse de usar a música Barracuda em anúncios eleitorais. O título refere-se ao peixe bravo típico de águas geladas que é um dos apelidos da governadora.
As irmãs Wilson, danadas com o que consideraram um desrespeito à propriedade intelectual do grupo, soltaram nesta sexta a seguinte nota: "De modo algum os valores da governadora Sarah Palin nos representam enquanto mulheres norte-americanas. Não autorizamos, portanto, o uso da música, que compomos no fim dos anos 70 justamente contra a política discriminatória das corporações, embora haja uma certa ironia de os republicanos, justo eles, quererem usá-la como propaganda." A escolha de Palin foi considerada estratégica por conta da liderança que Obama desfruta no voto feminino. De acordo com pesquisa do Washingto Post-ABC, feita antes do anúncio de que a governadora seria a companheira de chapa de McCain, Obama tinha 55% de intenção de votos das mulheres, contra 37% para McCain.
Afim de evitar uma reviravolta, a senadora Hillary Clinton já foi despachada para a Flórida, um dos Estados cruciais nas eleições, onde passará a semana fazendo a campaha de Obama. "Depois de ouvir todos os discursos desta semana, não vi nada que pudesse me sugerir que a receita econômica dos Republicanos vai ajudar a classe média. Então, com uma pequena emenda do que já havia dito em Denver: Sem chances. Sem a menor chance. Sem McCain-Palin".
[11:57] - 06/09/2008