Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil
VENEZA - Jonathan Demme contribuiu para devolver alguma dignidade à competição do 65º Festival de Veneza, que até agora apresentou poucos candidatos concretos ao Leão de Ouro. O vencedor do Oscar por O silêncio dos inocentes (1991) mostrou-se ainda em forma com Rachel getting married, exibido ontem em concorrida sessão para a imprensa.
O filme, outra atração internacional confirmada para o Festival do Rio, fala sobre uma jovem que freqüenta clínicas de reabilitação e volta à casa dos pais para os preparativos do casamento da irmã mais velha.
A protagonista, vivida pela bela Anne Hathaway (O diabo veste Prada), surge como um elemento desagregador, que traz ressentimentos a uma família aparentemente feliz. Nas mãos de outro cineasta, Rachel getting married poderia facilmente cair no típico drama centrado em núcleo familiar problemático.
Sob a condução de Demme, a trama ganha uma abordagem realista, influenciada por sua experiência como documentarista. No longa, os personagens são perseguidos por uma câmera solta – uma tentativa de se aproximar do Dogma, movimento estético idealizado pelo dinamarquês Lars von Trier.
– Quando mostrei o roteiro para (o diretor de fotografia) Declan Quinn, disse que queria criar uma impressão de realidade, como um filme caseiro – explicou o diretor.
– Mesmo as canções executadas pelos músicos foram escolhidas no momento da filmagem, nunca sabíamos o que iriam tocar.
Rachel getting married possui forte componente multicultural. O noivo é interpretado pelo ator negro Tunde Adebimpe e a confraternização entre as famílias confere uma conotação inter-racial ao evento.
– Para mim, é um grupo absolutamente normal – comentou Demme.
– Alguém viu uma foto de Rachel getting married e afirmou ser um filme sobre união inter-racial. Eu disse:
- Não, apenas corresponde à demografia do casal em vias de se casar.
Até porque Tunde foi minha segunda opção para o papel, depois de (o diretor) Paul Thomas Anderson. Esse é o país no qual acredito, e que está relacionado com minha esperança em Barack Obama.
Nesta quarta, Veneza assistiu também à animação The sky crawlers, de Mamoru Oshiil, que mostra uma realidade alternativa na qual as guerras foram extintas, substituídas por batalhas aéreas patrocinadas por duas empresas rivais.
Os pilotos são adolescentes que nunca crescem, frutos de experiências genéticas.
– A partir da Guerra Fria, passamos a viver um período de paz, que pode ser definido como um tempo das crianças. A guerra é um fenômeno adulto. Foi isso que tentei descrever – disse Oshii.
[23:24] - 03/09/2008