ELEIÇÕES 2008

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Faltou maturidade ao PT para escolher o candidato, diz Jandira

JB Online

RIO - A candidata a prefeitura do Rio pelo PCdoB, Jandira Feghali, responde à perguntas feitas pelos repórteres e editores do Jornal do Brasil, na série Sabatina JB.

Por que a senhora quer ser prefeita do Rio?

Tenho 22 anos de vida pública estruturados em cima de trabalhos aqui, no Estado e na cidade. É o momento maduro de assumir esse papel. Sempre tive uma votação crescente no Rio. Na eleição para o Senado, na capital, só tive menos votos que o Lula. Tive mais que o governador eleito. Em todo lugar, a palavra que mais ouço é abandono, principalmente na saúde, que é a minha área.

E as críticas que lhe atribuem muita experiência parlamentar e pouca administrativa?

A maioria dos candidatos tem pouca experiência administrativa. Alguns têm experiência administrativa lamentável. Pouco social, pouco eficiente. A experiência que tive em Niterói foi riquíssima, foram 16 meses de gestão com muitas parcerias. Captei mais de R$ 100 milhões para projetos da secretaria: terminal pesqueiro, Niterói Digital, centro audiovisual, indústria naval. Fiquei 16 meses à frente da executiva do consórcio do leste fluminense, com 11 municípios trabalhando juntos para receber o pólo petroquímico. Saí de lá e deixei o plano de saúde regional pronto, assim como o plano de educação inclusiva, já com recursos e licitando o terminal pesqueiro da região, que é uma prioridade na região. Niterói tinha um técnico para cada tema, enquanto alguns municípios tinham um técnico para tudo. Foi uma experiência muito boa que me deu a convicção de que gestão é projeto, vontade política e muita parceria. É a partir daí que o recurso aparece.

Qual o papel do prefeito do Rio na liderança da despoluição da Baía de Guanabara?

A prefeitura do Rio, primeira coisa, ela exige que nós sejamos um líder político. Uma pessoa que lidere politicamente as diversas parcerias que temos que fazer. Ontem fui conversar com o presidente da SuperVia, e levantei a proposta de transformar os ramais da Central em metrô. Aí vêm aqueles especialistas e dizem: Ah, mas isso é concessão do estado. Não importa. O que importa é que 60 % da SuperVia estão dentro da cidade e 59 das 89 estações estão dentro do município. Não posso inventar uma outra coisa quando já tenho uma estrutura, leitos, carros e possibilidade de fazer onde já existe. Conversando com ele, fiquei mais convencida ainda de que a prefeitura é decisiva para esse projeto acontecer. Até para revitalizar o ramal da Leopoldina precisa-se de autorização da prefeitura. Eu também perguntei para ele sobre o bilhete único integrado. Ele disse que concordava, mas que precisava da prefeitura, que tem a concessão dos ônibus, das barcas. Se o município não está presente, nada acontece. Inclusive na área de transporte. Então, a capacidade da prefeita (vocês vão se acostumando com prefeita) de coordenar as ações de políticas públicas para a cidade é fundamental. Hoje o presidente da República vem à cidade é não é recebido pelo prefeito. É um total isolamento nas relações intergovernamentais, e com a metrópole é a mesma coisa. É uma gestão autoritária, que não ouve ninguém. As subprefeituras e regiões administrativas não cumprem o seu papel. A solução para a Baía de Guanabara está na decisão metropolitana. Eu entraria, pelo menos, com três consórcios metropolitanos: saúde, transporte e saneamento. Eu não consigo resolver a Baía de Guanabara sem resolver alguns municípios da metrópole. Não basta colocar recursos onde tem que colocar, mas construir as parcerias necessárias.

Como se resolve a questão da saúde com os consórcios, quando 80% dos atendimentos dos hospitais do Rio são para pacientes que vêm de fora?

A demanda das instituições de saúde do Rio são predominantemente do Rio. Esse dado que 80% vêm de fora não é verdadeiro. Por exemplo, o Inca é uma referência nacional. Então vem gente de fora do estado também. Onde os serviços são referência você tem afluxo de pacientes. Vitiligo não é no Rio de Janeiro. É em Niterói ou em Paty do Alferes. Então os pacientes vão pra lá. Mas no dia-a-dia tem hospital que chega a receber 17%, 20%, às vezes 30% de pacientes de outras cidades. O programa que nós lançamos é o Rede Vida Saúde Integrada. O gestor pleno da saúde da cidade é o município. Eu é que tenho que contratar o estado, que contrato o federal, o universitário, em cima de metas, resultados e em rede. Por isso é que a cidade é a responsável maior pela saúde pública. O dinheiro federal vem para o município. Nós que contratamos o serviço de todos os níveis do setor. Estamos propondo o Centro Integrado de Gestão (CIG), coordenado pelo município, mas com representação de todos os governos, inclusive da metrópole. E com central única de regulação, com módulo de trauma, módulo de câncer, materno-infantil. Para que eu tenha a relação de consultas, exames e internações centralizados em uma única estrutura. Então, eu no município posso me internar no hospital de Bonsucesso, que é federal; posso me internar no hospital estadual de cardiologia, o Aluísio de Castro. Hoje o Aluísio de Castro fecha a emergência e não dá satisfação a ninguém. Isso não pode. Se você tem um sistema contratado, estruturado em rede, tem que discutir aquilo. Toda ação materno-infantil é do município. Estamos propondo que o programa saúde da família tenha cobertura de 100% já no primeiro ano, nas 16 áreas com IDH abaixo de 0,50. Isso dá quase 20% da população (1.200.000 pessoas). Temos que investir na ampliação de postos de saúde, que não substitui o projeto saúde da família. Você pode ter ultra-som ali, exame laboratorial. Queremos chegar, no primeiro ano de governo, a ter consultas e exames no prazo máximo de oito dias. Hoje a grande angústia do povo é a fila de espera. Fui a um posto de Guadalupe e uma moça hipertensa me mostrou o cartão onde estava que a sua próxima consulta era em 3 de setembro de 2009. Um ano depois. Você não pode examinar um hipertenso com um espaço de um ano. Falta posto e falta integração. Está faltando médico demais na rede. Primeiro vamos ter que investir nas 346 equipes do Saúde da Família e construir mais postos. As policlínicas 24 horas (estamos chamando assim por que queremos colocar algumas especialidades na urgência) tem que ter cardiologista. Não pode ter só o clínico e o ortopedista. Isso é pouco. E as grandes emergências têm que ser no hospital. Porque há uma diferença entre urgência e emergência. Emergência envolve risco de vida, tem que ser hospitalar. A busca por vagas nas UPAs é feita por fax e telefone. Não tem uma coisa integrada, ágil, como uma rede online. E temos que fazer a prevenção de dengue agora. Não posso deixar para janeiro.

Você está prevendo uma epidemia?

Essa é a expectativa. Principalmente se nada for feito. O Cesar Maia acabou de reduzir o orçamento de prevenção da dengue e está reduzindo os contratos com os agentes. Isso é grave. Uma idéia que a gente tem que recuperar é a saúde dentro das escolas, com oftalmologista, otorrino, pediatra.

Através de mutirões?

Não, atendimento mesmo. As especialidades não precisam estar lá todos os dias. Pode ser visita regular. Mas o pediatra, o nutricionista, o dentista, sim. A educação infantil precisa ter o atendimento desde a creche.

O salário dos médicos está incluído no seu planejamento?

Sim, cargos, carreira e salários. Os médicos que se formam agora não querem mais ir para o serviço público. Isso é um drama, porque se não houver profissionais, não se consegue atender a grande maioria da população. R$ 669 era o salário para médico no último concurso do município. O pessoal passa no concurso para ter currículo e sai no dia seguinte. A evasão no serviço público é grande. No Lourenço Jorge falta ortopedista por 36 horas seguidas. Sabe em que dia? sexta à noite e sábado: os dias em que ocorrem mais acidentes. Já lançamos no programa de TV o cartão carioca de saúde. Não só para marcar consulta por computador (que pode ser feita na subprefeitura, a telematricula na escola também na subprefeitura), mas que contém o prontuário eletrônico. Em qualquer lugar, você passou o seu cartão e aparece o prontuário inteiro do paciente.

Solange Amaral e Paulo Ramos disseram que houve um exagero do governo federal, quando não uma atitude errada e agressiva, durante a intervenção na saúde da cidade.

Na verdade não foi uma intervenção, esse foi o nome que ficou. O que aconteceu foi a quebra da gestão plena do município. Como o município não cumpria o seu papel, causou-se uma crise aberta na saúde. Até porque ninguém conseguia discutir ou negociar com a prefeitura. A proposta inclusive partiu de mim para o ministro da Saúde: quebrar a gestão plena e mudar o comando da gestão para outro lugar. Como a prefeitura não conseguia dar conta dos problemas, quebrou-se a gestão plena, tirou-se os recursos, que foram passados para o nível estadual. Naquele momento, era o que tinha pra se fazer. Os hospitais municipalizados voltaram para as mãos federais e hoje estão funcionando. O hospital da Lagoa melhorou demasiado, assim como o de Ipanema e o Cardoso Fontes.

O Cesar Maia critica a construção das UPAs. Diz que seria melhor que fossem instaladas na periferia. A senhora faria mais UPAs?

A demanda de atendimento 24 horas é crônica, é antiga. Era o município que deveria estar fazendo, e não fez. Tem um ou outro posto 24 horas. Essa demanda existe por que a pessoa passa mal de noite, e não necessariamente tem que ir para uma grande emergência de um hospital, longe da sua casa. Mas isso isoladamente não traz solução. Às vezes você encontra uma gripe e um infarto no mesmo serviço. Na nossa opinião tem que ser uma policlínica e não o atendimento simples que existe hoje. Os postos de saúde, boa parte deles, têm que funcionar em três turnos. A pessoa chega do trabalho e não tem mais posto. Não pode fazer um preventivo, um laboratorial. Não precisamos de todos os postos 24 horas, mas pode ser em três turnos. E a policlínica é para quando precisa de um atendimento de maior urgência, não necessariamente de risco de vida. Existir o atendimento 24 horas é correto. Precisamos sofisticá-lo um pouco mais e ampliá-lo. Usamos o critério de bairro acima de 30 mil habitantes, dá 70 policlínicas, em quatro anos de governo. Por enquanto tem só oito, que têm que ser incorporados numa articulação prefeitura estado.

Muitos médicos se recusam a trabalhar em alguns postos de saúde por conta da violência? O que pretende fazer?

Muitas áreas com IDH abaixo de 0,50 são áreas de favelas. Não tem por que não tem segurança? E faz o quê? Deixa a população sem atendimento? Já sofre porvou pque está intimidada, e vai sofrer porque não tem serviço. Temos que estruturar condições para que esses profissionais atuem ali. E essas condições estão em resolver a política urbana dessas regiões. Mas esse é o problema de alguns projetos em favela: urbaniza e vai embora. Tem que entrar e ficar, como em qualquer bairro do Rio. E tem que botar estrutura de segurança, para a proteção dos profissionais e da população. Eu tenho um sentimento, que quando você serve a população, as pessoas te respeitam. Você entra nas casas, atende os filhos. O traficante não quer que o filho dele morra não.

Você acha que tem que se sujeitar num primeiro momento a esse poder paralelo?

Não tem que se sujeitar. Ele tem que atender a população. Dando plantão no hospital de Bonsucesso, na emergência, chegaram o bandido, o assaltado e o policial, os três feridos. Me dirigi ao assaltado, que estava melhor. O assaltante estava pior e atendi ele primeiro, o risco de vida era dele. Eles invadem também o Souza Aguiar, não é só em favela. Esse é um problema da cidade toda.

É a favor da guarda municipal armada?

Não, chega de bala. É bala demais sobrando. A Guarda não é treinada para isso. A lei orgânica do município proíbe isso. A GM tem guardas pós-graduados em direito ambiental, treinada em primeiros socorros. Tem que atuar com foco na cidadania, na prevenção. Em áreas de conflito se pode pensar em armas não-letais. E tem que ser carreira de estado, com plano de carreira. Nas áreas de maior conflito tem que ter a PM mesmo tomando conta. Apesar de a Guarda Municipal ter o papel de guarda comunitária, na porta da escola para evitar a venda de drogas, tomar conta do patrimônio.

O que acha da atual política do governo do estado de enfrentamento do tráfico?

A política de segurança tem que ter inteligência (que aqui é zero), a repressão e a prevenção. Não temos nem inteligência no confronto nem na prevenção. Qual o balanço dessa política? Não desarticulamos nenhuma área em poder do crime, a milícia taí. O balanço é inocente civil morto.

O que acha da política de direitos humanos do governador Brizola?

Acho que o Brizola inaugurou uma relação mais generosa com a área popular. Ele não apostava na política pura do confronto. Nesse aspecto ele estava certo. Logo depois entrou o Marcelo Alencar, que tinha aquela gratificação faroeste, que premiava o policial que matasse mais. O Brizola era o oposto disso. Tem que equilibrar isso. Não é uma política dos direitos humanos, é uma política do não-confronto permanente. Muitas mulheres em favelas vem apelar a mim, a mãe Jandira, dizendo que o filho tomou um tiro consertando a laje da casa. É uma polícia que mata muito, e não tem corregedoria. O que é a milícia? Qualquer criança de favela sabe quem comanda a milícia na favela dela. E a polícia não sabe? Chegamos até aqui por conivência do poder público.

O que a senhora fará com as milícias?

Não posso fazer muita coisa. A milícia é déficit institucional da polícia. Tráfico de drogas tem no mundo inteiro, milícia não. É déficit de controle da corporação policial. Falta de estimulo por um lado, salário horroroso e a conivência com desvio de conduta. Muitos são ex-policiais, muitos estão na ativa. E o prefeito disse que milícia é um mal menor. Há uma permissividade como se a milícia fosse expulsar o tráfico. Do nosso lado, podemos atuar na prevenção e integrar as políticas de segurança. Quero opinar, quero interferir. É a cidade que está em jogo. A Polícia Federal também tem o seu papel, mas Forças Armadas em favela eu sou contra. Isso inclusive desmoraliza a instituição, que não tem esse papel. O morro da Providência foi o maior exemplo da desgraça que você pôr uma pessoa despreparada para aquele tipo de ação no lugar errado.

Acha que isso foi usado eleitoralmente pelo senador Crivella?

Isso está provado, tanto que embargaram a obra.

Qual a sua religião?

Eu não pratico religião nenhuma, de freqüentar.

Acredita em alguma coisa?

Claro, em muita coisa. Até porque se a gente não acreditar e não tiver uma boa energia para tocar essa vida.

O que é ser comunista na administração de uma cidade no começo do século 21?

Primeiro é que a gente acaba negando que é uma coligação. Comunista parece que a candidata é só do PCdoB, então isso estreita o que a gente construiu. Tem mais dois partidos conosco e 200 vereadores na base dessa coligação. Num mundo e num Brasil capitalista, a prefeitura não será socialista, obviamente. Isso seria muito infantil da nossa parte. O que temos é uma formação muito solidária e generosa, democrática de articulação com movimentos sociais, de respeito a autonomia desses movimentos. E de compreender que uma gestão governa para todos mas tem que priorizar onde não há. Se tratar igualmente os desiguais, fica tudo igual. Além disso temos a visão da convivência integrada na cidade. As praças do Rio deixaram de ser espaço de convivência. Você faz grandes eventos aqui e não tem violência nenhuma. Estamos perdendo essa característica de convivermos nos espaços públicos. Precisamos fazer uma política de reocupação do espaço público do Rio.

Como você se diferencia dos demais candidatos de esquerda, que são primos, senão irmãos siameses?

Por isso é que tinha que estar todo mundo me apoiando.

Se não é uma questão de tempo é uma questão de turno.

Por enquanto é uma questão de tempo, ainda nesse turno. Estamos trabalhando por isso. A pulverização, em um momento em que a cidade precisa mudar de ciclo, de uma responsabilidade maior, não era o momento dessa pulverização. A gente tinha que entrar nisso como um projeto de virada da cidade. De qualquer forma, mesmo tendo isso pulverizado, um de nós vai. Espero que seja eu, pelo menos é o que tudo indica.

Você aposta em uma candidatura de esquerda no segundo turno?

Não tenho dúvida. Não acredito que o Rio de Janeiro leve uma candidatura de centro, de centro-direita. Acho que esse campo aqui vai ter alguém lá, e tudo indica que sou eu.

O Eduardo Paes não é de esquerda, é do outro campo. Crivella também, é do outro campo.

Acho que o Crivella é muito segmentado. Ele tem uma marca muito forte que é a Universal. Tenho um comitê cristão com todas as igrejas evangélicas tradicionais. As igrejas tradicionais têm dificuldades com o Crivella, pelo menos eu sinto assim.

A senhora acha que irá com um deles: Solange, Crivella e Paes.

A pesquisa do Datafolha ainda nem pegou a influência do programa de TV. E os institutos precisam combinar, né, porque os números estão assim loucos. De qualquer forma toda variação está na margem de erro. Há uma embolação ali. Isso não quer dizer que outros não possam crescer. Mas o que diz a pesquisa? Que eu continuo com um grande potencial de segundo turno e que lá eu ganho. Essa é a mensagem pra mim.

Você acha que vai haver voto útil no primeiro turno?

Acho. Aliás isso já está aparecendo no comitê. Tem uns 30 candidatos a vereador de outros partidos conosco. Lideranças de outros partidos vindo pra cá. Essa migração já começou.

Ficou alguma mágoa com o PT?

Mágoa não. Acho que faltou uma visão mais madura de perceber o momento na cidade. Mas acho legítimo que cada partido tenha o seu candidato. Tenho bom relacionamento com todos eles. A que eu não tenho muito é com a Solange, por que ela não foi deputada no período em que eu fui. Meu relacionamento com ela é de cumprimentar, cordial. Mas todos os outros foram deputados comigo. O que acho é que fizemos um imenso esforço para atender ao apelo da unidade e essa resposta não veio.

Por que empresários que querem investir na cidade devem votar em você?

Porque sou a pessoa capaz de gerar investimento no Rio, como projetos de infraestrutura, com o plano diretor, habitacional, com o novo projeto de transporte. Uma visão de que o turismo tem que ter um plano diretor.

Você tem planos de transformar em pólos culturais a área do porto?

É só ver Belém. É outro porto. A região portuária é a menina dos olhos de quem pensa a cidade. A gente pode ter ali várias escolas de capacitação. Penso em botar ali uma área vocacionada para o turismo e para o mercado popular, artesanato, como tem em Salvador. Além de ser uma área onde se pode construir muitas residências. É uma área com estrutura.

O que a senhora acha da atual política de transporte?

A primeira coisa que eu vejo é que o transporte caro desemprega e dificulta a vida das pessoas. O principal transporte de massa é trilho. Os outros são coletivos. Se colocarmos um veículo sobre trilho num viaduto pré-moldado – estamos pensando na tecnologia de ar, inventada em Porto Alegre –, com R$ 280 milhões, podemos chegar ao aeroporto internacional além da Leopoldina, carregando 30 mil pessoas hora. A prefeitura hoje não tem nenhum comando sobre a política de transporte. Cada um faz o que quer.

O que falta, fiscalização, uma pactuação entre prefeitura e empresas?

Falta um plano de transporte. Onde tem ônibus e van, que só é clandestina por que não tem legalização nenhuma. As vans têm que alimentar as vias principais. A engenharia de transito daqui é desesperadora. Se houvesse um hovercraft da Barra para o Centro as pessoas não optariam pelo carro.

Como você vai enfrentar o problema da Câmara dos Vereadores, que tem representantes das empresas de ônibus?

E tem mesmo. Estamos tentando eleger o máximo de vereadores possível do nosso campo. No mais tem que pautar politicamente a câmara, que não discute mais política. A população também tem que desempenhar o seu papel de pressão sobre o poder legislativo. A pior coisa é você ficar refém do parlamento. Se entrar no toma lá da cá, você ta morto.

Como você pretende se relacionar com os municípios vizinhos?

Tem três áreas que faria consórcio. Transporte é um. Até o mosquito ultrapassa o município. O mosquito da dengue voa. Transporte, que tem um impacto metropolitano enorme. Temos que fazer um planejamento integrado. Na área de saneamento ambiental, que você não resolve sem mexer com tratamento de água e esgoto da baixada, por exemplo. E a saúde, que tem duas leis que não são cumpridas. Uma é a lei dos consórcios, que é lei, só cumprir. A outra é a câmara de compensação financeira da saúde. Se um paciente vem de Caxias chega aqui e é um atendimento básico ou de emergência eu vou atender por que paciente não pode ser recusado, mas eu vou cobrar do município de onde ele veio. Todos os municípios se ressentem da falta de articulação com o Rio.

E em educação?

É a base de integração de muitas políticas, começando pela creche. Há uma grande deficiência de creches. O município tem que botar 25% do orçamento em educação. E nós temos uma folga hoje, mesmo com a lei de responsabilidade fiscal, de R$ 600 milhões para contratar pessoal. A aprovação automática ganhou esse nome por que o aluno passa sabendo ou não sabendo, de qualquer jeito. Temos que acabar com isso. Mas por outro lado também não vai haver reprovação automática. Pra isso tenho que mudar o plano pedagógico para a escola ser mais sedutora. A biblioteca pode virar uma midiateca, com outras formas de comunicação além dos livros. Temos que garantir o horário integral. Pelos nossos cálculos, por ano, pelo orçamento que temos, daria para colocar 20% das escolas em tempo integral. Promovendo a inclusão digital e o acesso à banda larga. Podemos usar os clubes para aulas de esporte, tem muitas parcerias para fazer.

Você daria uma parte dos royalties do Rio para o Fundeb?

Se for para ser usado na cidade, sim. Fora da cidade, não. Nenhum royalties fora daqui. Tudo para cá. Nós temos é que autorizar o uso dos royalties para determinadas políticas que hoje não pode. Se você pensar no que virá de dinheiro com o petróleo pré-sal é uma coisa inimaginável. Aqui tá faltando dinheiro para muita coisa.

Você concorda com a frase do presidente de que o Brasil vive um momento mágico?

Acho que nós avançamos bastante. Uma agenda de desenvolvimento que estava faltando no Brasil havia muitos anos.

Você não acha que ele devia apoiar a sua candidatura em off?

A gente até botou no programa de teve ontem, no finalzinho de junho, o Lula que propôs o acordo de unificar a esquerda em torno do meu nome, em torno da Marta, do Serafim, em torno lá de Belo Horizonte. Então houve um esforço dele em juntar a esquerda em torno de Jandira. Mas é o que eu digo, não respondeu, fazer o quê? Agora ele está com vários candidatos pulverizados da base, é uma situação difícil pra ele. Em algum momento ele vai ter que se posicionar, ele é quem vai ter que decidir, não eu. Mas que a migração do PT já começou, já. Pode ser que isso puxe o Lula. De vereadores, de lideranças.

Quanto?

Olha, somando de outros partidos já tem uns 30. Não posso dar os nomes senão arrebento com eles.

Essa migração significa o quê, campanha na rua?

É, agenda. Estou fazendo agenda com eles.

Qual a diferença que a senhora vê entre o Eduardo Paes e o Cesar Maia?

Acho que existe a mesma origem política. Muita semelhança de formação. Mas parece que hoje eles têm visões diferentes da cidade. Toda a experiência administrativa dele foi com o Cesar Maia. Mas quando vocês perguntam a minha diferença para os outros eu digo que cada um tem a sua história. E eu tenho a minha e acho que isso pode fazer diferença. A televisão é um grande instrumento. Mas ela sozinha não elege um prefeito, tem que colar com a sua história. O recall de um candidato não cresce com a TV, apenas confirma. Tenho dados científicos para dizer isso. Se o candidato não tem uma história forte a TV sozinha não resolve. Ninguém vira prefeito por causa da TV.

Quem a senhora acredita que vai chegar ao segundo turno?

Eu e mais alguém.

Nenhuma preferência?

Não, sem preferência. Eu tenho muita convicção que vou para o segundo turno. A campanha na rua é muito forte. As pessoas choram na rua, tem movimentado as pessoas. Não temos uma campanha rica, como outros por aí. Não é só isso que ganha eleição, as pessoas precisam acreditar em você. As pessoas estão agarrando como se fosse o último fio de esperança, uma imensa expectativa. Eu ganho a eleição agora. Se for para o segundo turno, dificilmente perco a eleição para qualquer candidato, mesmo tendo TV, eleição polarizada. O fato de ser mulher está pesando, impressionante. O principal drama da cidade hoje é a saúde.

A imagem do médico já esteve melhor na sociedade que hoje em dia.

Mas também não tem imagem mais forte de saber cuidar da saúde do que alguém que é dessa área. Eu sou médica, mas a marca dos meus 20 anos de mandato foi essa. Estudo saúde pública há quase 30 anos. Todo mundo pode falar, mas quando eu falo a credibilidade é outra. Não é a mesma coisa.

E quanto à gestão dos hospitais. Pretende implantar algum controle de presença?

Claro que o serviço tem que funcionar, o profissional tem que estar lá. Mas não precisa de uma visão policialesca numa unidade de saúde. O plantão está completo, atendeu as pessoas, salvou gente? Os profissionais de saúde e os de educação são heróis. A saúde só vai para imprensa quando morre alguém. A quantidade de gente que é salva diariamente não é divulgado. Os caras se matam ali, sem condições, para ganhar um salário horroroso.

Você pretende transferir favelas, conter favelas ou urbanizar favelas (especificamente na Zona Sul)?

A redução do número de moradias em favelas só tem uma possibilidade: é dar alternativas. E em conjunto com transporte. As pessoas querem trabalhar e estar próximas ao local de trabalho. E um transporte que elas possam pagar. Favela não é um problema de polícia, não é de remoção. Claro que se for área de risco, está arriscando a vida para as pessoas. E a favela é bairro, é cidade. Não faço diferença entre a favela e o asfalto. O poder público tem que entrar lá como em qualquer lugar, botando escola, posto, guarda municipal.

Dando título de posse?

Claro. Hoje o Favela-Bairro não dá título de posse para ninguém.

Mas isso tudo não é para quatro anos. É um pontapé inicial?

Não, acho que em quatro anos dá para fazer muito. Projeto habitacional. Por ano a gente pode construir aqui umas 80 mil casas. Tem projetos e recursos para todo lado, tem que ter planejamento. Dá para fazer. Há um déficit habitacional no Brasil de 8 milhões de casas. O lixo, a mesma coisa. Eu sou contra o lixão de Paciência. Acho que ali não é para botar. Gramacho está esgotado. Lixão é anacrônico. Coleta seletiva tem que implantar? Tem, mas é um processo cultural. Temos que implantar coleta seletiva, reciclagem e usina de energia. Ali no Caju gastaram bilhão e não funciona. Ali a gente podia fazer uma grande usina de geração de energia. É atividade econômica. Eu chamo de luxo do lixo. Imagina 600 caminhões de lixo, por dia, indo para Paciência. E ali viola a lei orgânica, pela proximidade com as residências. Hoje o governo do estado está bancando aquilo e o Cesar Maia também. Ali no Caju, se você gastar R$ 284 milhões recupera a Usina do Caju.

Como a senhora pretende lidar com os centros sociais?

Sabe onde acho que os centros sociais crescem? Onde não tem política pública. Então se o posto não atende, alguém monta um centro social e a população vai porque não tem lugar para ir. É uma atuação que distorce a atividade parlamentar.

O que achou de Cesar Maia ter criado uma secretaria para abrigar a irmã, para não ter que demiti-la por causa da lei contra o nepotismo.

Acho isso um horror, uma distorção. Se a ação contra o nepotismo é exatamente pra evitar isso, ele cria, faz uma manobra para manter a irmã empregada. Isso acaba desqualificando o papel do gestor com a população. Essa atitude de burlar a lei, de dar um jeitinho, isso não é atitude de gestor. Gestor tem que dar o exemplo. Quando o gestor faz isso, ele gera o sentimento de que por baixo ninguém precisa cumprir lei. Acho isso ruim, acho mau exemplo para a sociedade.

IPTU?

É um imposto que precisa de justiça fiscal também. Para nós a redução do IPTU em algumas áreas é importante. Primeiro bitributações. Algumas áreas de estímulo à atividade econômica, áreas de projeto arquitetônico, áreas comerciais, como a Lapa, temos que estimular com IPTU para poder revitalizar. A implantação do IPTU progressivo é o ideal, que depende da ajuda da Câmara. A isenção ou acordo de passivos temos que fazer para revitalizar certas áreas.

E pardais e lombadas eletrônicas, há uma indústria de multas?

Há uma indústria de multas, mas sou contra tirar todos os pardais. Brasília quando inaugurou isso diminuiu muito o número de acidentes. Acho que tem que adequar a velocidade à pista. De madrugada em algumas áreas você pode desligá-los, porque você deixa a pessoa vulnerável a alguma violência.

O que vai ser feito da Cidade da Música?

Foi gasto dinheiro público, não vamos jogar fora. Na minha opinião a Orquestra Sinfônica Brasileira tem que ter a sede lá. Mas é difícil alguém assumir ali, porque a manutenção é cara. Tem que ter uma gestão que sustente aquele patrimônio e ao mesmo tempo tem que democratizar. Pode ser uma casa de todas as linguagens e com capacitação profissional.

[18:12] - 30/08/2008