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Na ONU, Rússia e EUA trocam farpas sobre Iraque e Kosovo

Louis Charbonneau, REUTERS

NAÇÕES UNIDAS - Diplomatas da Rússia e dos Estados Unidos trocaram duras palavras nesta quinta-feira, durante uma sessão do Conselho de Segurança da ONU, na qual Moscou encontrou pouco apoio às suas ações na Geórgia.

Foi a sexta sessão de emergência do Conselho desde a invasão russa deste mês, para repelir a tentativa georgiana de retomar o controle da república separatista da Ossétia do Sul. Houve uma breve guerra, e depois disso a Rússia ocupou parte da Geórgia, além de reconhecer a independência da Ossétia do Sul e da Abkházia, uma outra região na mesma situação.

A exemplo do que ocorreu nas cinco sessões anteriores, o Conselho de Segurança, composto por 15 países, não aprovou nenhuma resolução ou declaração, já que a Rússia tem poder de veto.

A troca de insultos entre os diplomatas da Rússia e dos EUA lembrou os dias mais duros da Guerra Fria, refletindo a crescente tensão entre ambos. O embaixador-adjunto dos EUA, Alejandro Wolff, acusou a Rússia de violar a Carta da ONU ao usar a força (ou mesmo ameaças) contra outros Estados, e rejeitou a alegação russa de que estaria agindo para proteger seus cidadãos na Ossétia do Sul.

O representante russo, Vitaly Churkin, apontou hipocrisia na fala de Wolff, citando a invasão norte-americana no Iraque, em março de 2003, à qual Moscou sempre se opôs.

- Gostaria de perguntar ao distinto representante dos Estados Unidos: armas de destruição em massa. Vocês as encontraram no Iraque ou ainda estão procurando?.

Era uma ironia com a justificativa apresentada pelo governo Bush para invadir o Iraque e derrubar o regime de Saddam Hussein. As armas de destruição em massa que os EUA diziam haver nunca foram encontradas. Wolff disse então que Churkin estava fazendo uma falsa comparação.

- Não sou psicólogo e não sei o que provocou a livre associação que ouvimos do embaixador Churkin. Houve divisões a respeito da guerra do Iraque. Estas são bem conhecidas. Achávamos que as tínhamos superado. Aparentemente ainda há frustrações restantes. Mas não há ambição territorial ou desejo de desmembrar o Iraque.

Como Kosovo

Churkin também citou o bombardeio de 1999 da Otan contra a Sérvia, para forçar o que restava da Iugoslávia a abandonar a região de Kosovo, que lhe pertencia. O russo comparou a declaração de independência da Ossétia do Sul e Abkházia à declaração de independência de Kosovo, ocorrida em fevereiro de 2008 e apoiada pelo Ocidente. O embaixador britânico, John Sawers, rejeitou tal comparação.

- Temo que esta afirmação, embaixador Churkin, simplesmente não resista ao escrutínio - disse, argumentando que a intervenção militar da Otan em 1999 foi multilateral, destinada a conter uma crise humanitária, depois de esgotados todos os canais diplomáticos. E que a declaração de independência de Kosovo se deu depois de a província passar nove anos sob administração direta da ONU.

O Conselho de Segurança até agora rejeitou pedidos para que enviados da Ossétia do Sul e Abkházia se manifestem. Só o embaixador sul-africano, Dumisani Kumalo, apoiou a iniciativa russa de convidá-los. Os representantes das regiões separatistas já solicitaram visto norte-americano em Moscou, usando passaportes russos.

A delegação chinesa, tradicional aliada russa no Conselho, não se pronunciou, o que diplomatas ocidentais entenderam como uma derrota para a Rússia, comprovando o suposto isolamento de Moscou.

[23:18] - 28/08/2008