Jaime Gonçalves Filho e Leandro Souto Maior, JB Online
RIO - Os versos singelos de Chega de saudade, repetida três vezes, as duas últimas com o acompanhamento da platéia, a pedido de João Gilberto, talvez sirvam para resumir o estado de graça que tomou o Theatro Municipal do Rio, durante a apresentação do músico, na noite deste domingo.
Mais que uma coisa linda ou uma coisa louca, o show do pai da bossa nova tomou corpos e mentes da platéia pelo conteúdo surpresa: e a surpresa foi o estado de humor do protagonista da noite.
Com meio mundo artístico concentrado no Municipal, as expectativas eram elevadas antes da apresentação. Quem conseguiu sublimar os acessos de tosse, os rangidos das poltromas e barulhinhos e bips de celulares, consegiu se divertir.
Pouco antes do show, o ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, calculava entre sete e oito anos o último show assitido de João.
- Tenho muita saudade dele, até porque nem sem ser ao vivo eu o encontrei desde então. Mas melhor ainda que vou revê-lo cantando - alegrava-se. Outro que dizia ter saudades de João no palco era Caetano Veloso.
- Faz tanto tempo que nem me lembro a última vez que vi um show. Mas sempre tenho o João dentro de mim, na minha música. Estou sempre conectado com ele.

Homenagem a Caymmi abre o show
O amigo e conterrâneo Galvão, ex-Novos Baianos, dizia esperar ansioso a leitura e liberação da biografia de João escrita por ele.
- O João ainda não liberou. Eu vou lançar assim que ele liberar. Ele está lendo e tenho fé que ele vai liberar. Pode ser que role ainda este ano, o que seria ótimo, por causa dos 50 anos da Bossa Nova - acredita.
Após começar o show com Você já foi à Bahia?, numa homenagem a Dorival Caymmi, morto no último dia 16, João, como que para reafirmar a homenagem, repetiu a canção em um andamento ainda mais lento, em rítmo Dorival.
A partir daí seguiu com Doralice e Rosa Morena, ambas também de Caymmi. A essas se seguiram Meditação e uma versão demolidora de Samba do avião. Aqui, nesse ponto, o público carioca demonstrou o quanto ainda tem que evoluir. Durante toda interpretação da música as tosses, pigarros e fungados se repetiram, atrapalhando um momento único.
- O público está mal acostumado a ouvir som alto. Hoje, todos tinham que prestar atenção no show - anlisava o guitarrista Pedro Sá, atualmente na banda de Caetano Veloso, confessando que aprendeu a tocar vendo o músico. - Ele é imbatível ao vivo.
Indiferente a isso, João parecia se divertir. Fez sua versão de Lígia sem pronunciar o nome da musa inspiradora da canção; entregou a bela Caminhos cruzados aos ouvidos do Municipal e lapidou uma série de obras-primas ali, aos olhos de todos.
No final do concerto, embevecido, o músico Francis Hime, parceiro de Chico Buarque em canções como Trocando em miúdos, lembrava que não assitia um show de João há cerca de 15 anos.
- Achei extasiante, foi uma noite mágica. Fiquei maravilhado, principalmente com a interação com a platéia - disse.

Show foi 'medalha de ouro'
A última apresentação de João no Rio, no mesmo Municipal, aconteceu na noite de 7 de dezembro de 1992, acompanhado de Tom Jobim, no show que marcava o reencontro, 30 anos depois, dos criadores da Bossa Nova.
- Achei especial. Adorei dele ter cantado Estate, do Bruno Martino, que é uma canção que adoro. Fiquei sabendo que ele ficou muito emocionado com a platéia - dizia o cantor Toni Platão já após o término do show.
Ainda impactado com a desenvoltura de João sobre o palco, o músico norte-americano Arto Lindsay, que produziu álbuns de Caetano Veloso e Marisa Monte, definia a apresentação com o que viu no palco.
- Achei lindo, lindo. Ele parecia muito feliz, até arregaçou a manga, só faltou abrir do paletó.
De fato João Gilberto parecia especialmente inspirado. O baixista Dé Palmeira, eufórico, fazia uma analogia entre o show e os recém-encerrados Jogos de Pequim.
- Medalha de ouro. João arregaçar a manga da camisa foi um gol de placa, incrível. Se houve algum fiasco nas Olimpíadas, tudo foi superado aqui hoje.
Depois de assistir o show na fila do gargarejo, em frente ao músico, Jards Macalé amarrava o teor de todas as declarações em uma só.
- João está cada vez mais João. Isso resume tudo - encerrou.
[02:31] - 25/08/2008