Leandro Souto Maior, JB Online
RIO - "Já tem ingresso?" e "se tiver ingresso eu compro!" eram as frases mais ouvidas do lado de fora do Theatro Municipal do Rio na noite deste domingo, antes do histórico concerto de João Gilberto.
Uma vez lá dentro, as palavras trocadas pelos privilegiados que dividiram tal momento único eram sobre a ansiedade de presenciar aquela que pode ser a última apresentação do músico em terras brasilis – devido não só ao avançado da idade, mas também à raridade de seus shows.
Depois do concerto começado, nem um suspiro. O público carioca, mal acostumado a ir a shows mais para aparecer e conversar que para apreciar a música em si, teve uma prova de fogo. Todos foram 'obrigados' a ficar em silêncio, escutar a música e assistir a apresentação atentamente até o fim. Até respirar tinha que ser feito com cautela. Um clima até tenso. Todos com medo de João reclamar de alguma coisa, do ruído do ar condicionado ao ranger das poltronas. Que nada. O 'criador da batida diferente da bossa nova' estava em noite de alto astral. No final, arregaçou as mangas e disse que não queria mais ir embora.
Tosses, pigarros, sussurros e barulhos de celulares tocando e sendo desligados pontuavam a apresentação entre um acorde dissonante e outro. Os ecos das tosses e espirros eram tantos e tão altos – devido também à acústica privilegiada do Municipal - que parecia que a saúde do carioca não estava nada bem. Por sorte, o governador Sérgio Cabral estava lá para constatar. E seu pai também, para lhe puxar as orelhas.
Já na primeira música, Você já foi à Bahia, de Dorival Caymmi, tudo o que todos esperavam estava lá. O violão de ritmo inimitável, as harmonias sensacionalmente bem encadeadas, o vocal impossível de acompanhar, todas as suas inovações que permanecem suspensas em uma cápsula à prova de tempo. Além da característica perna balançando enquanto toca – charme que só quem conhece e ama a obra de João Gilberto em sua totalidade pode entender. Ele atacou de Dorival nas três primeiras músicas do show, seguindo com Doralice e Rosa Morena.
Sempre ovacionado entre uma canção e outra, seguiu desfilando clássicos como Samba do avião, Wave e Desafinado. Acostumado com as salvas de palmas de longa duração, João as recebia sempre imóvel e com a cabeça baixa.

Deixou o palco depois de Isso aqui o que é praticamente sem ter trocado uma palavra com o público. Retomou com Aos pés da Santa Cruz. A partir daí, riu, descontraiu, e o público sentiu o alívio. Em Chega de saudade, todos cantaram com ele, que gostou e pediu um bis do 'sussurrinho' da platéia, tocando a música novamente desde o início. João Gilberto ainda tocaria Garota de Ipanema e O Pato antes de encerrar e deixar o palco aplaudido de pé por um público que lotou o Theatro Municipal.
Faltava esse show no Rio nesses 50 anos da Bossa Nova. Não adiantava apenas os shows em São Paulo. Mais que em qualquer outro lugar do mundo, a volta aos palcos brasileiros do principal intérprete do gênero teve sua maior dimensão e sentido histórico no Rio de Janeiro.
[02:17] - 25/08/2008