Leandro Souto Maior, JB Online
RIO - Na semana em que três dos maiores representantes de movimentos expressivos que mudaram o rumo da música no Brasil realizam grandes apresentações no Rio, o compositor Roberto Menescal aponta uma crise de criatividade mundial.
- Claro que tem muita gente ótima por aí, mas em termos de criação, não se tem um movimento musical acontecendo em lugar nenhum do mundo - lamenta o criador de O barquinho.
Para Menescal, a Bossa Nova de João Gilberto, a Tropicália de Caetano Veloso e a Jovem Guarda de Roberto Carlos fizeram parte de um auge de criação mundial que acontece em todos os séculos e que vai decrescendo para depois voltar.
- Você pega os anos 50 e 60 e vê ali o crescimento do jazz, o surgimento dos Beatles, os movimentos de protesto com Bob Dylan, aqui no Brasil a Bossa Nova e depois a Jovem Guarda. Ali estava o auge do século - destaca Menescal. - Mas não vejo que o momento atual seja de desespero, de dizer 'puxa vida, o que está acontecendo'. Fui estudar a história dos séculos passados e percebi que em diversos momentos existe esse apogeu ligado à cultura.

Foto: Adriana Caldas / CPDoc JB
Ele acredita que este ano em que se celebram os 50 anos da Bossa Nova seja um bom momento para rever a história do movimento e pensar sobre o que pode acontecer no futuro com o gênero.
- Tenho notado um pouco do que a gente fez tempos atrás, que as pessoas têm voltado a fazer experiências. Antes da Bossa Nova se estabilizar como um estilo, nós pegávamos sambas, canções antigas, ouviamos Dorival Caymmi, Ary Barroso e Noel Rosa, e colocamos tudo no liquidificador com o jazz. Agora os jovens estão pegando a Bossa Nova e misturando com a música eletrônica e o funk, e vai nascer uma coisa legal daí. Fernanda Porto, Bossacucanova, Bebel Gilberto, tem muita gente buscando inspiração na Bossa Nova para tentar encontrar o seu caminho, e eu acho que eles vão acabar achando uma saída bacana - acredita.
Menescal, que este mês lança o DVD 50 anos de Bossa, registro de um show com participações de Emílio Santiago, Wanda Sá, Danilo Caymmi, Pery Ribeiro e Leila Pinheiro, aproveita as poucas horas vagas para gravar um CD que prepara com Marcos Valle, João Donato e Carlos Lyra. O nome provisório é Os quatro da Bossa, e ainda não tem data para ser lançado, mas já promete ser histórico.
- Estamos gravando quando dá tempo, sem pressa. Cada um vai fazendo uma coisa na música do outro e tem tudo pra sair ainda este ano. O problema é que estamos fazendo muitas viagens. Esta semana estou indo para a Argentina, depois Austrália e Espanha, com Wanda Sá, Marcos Valle, João Donato e Os Cariocas.
Menescal recebe convidados, mas também participa de diversos projetos de outras pessoas. Ele diz que nunca recebeu tantos discos de gente fazendo Bossa Nova e que nunca foi tão requisitado para participar em discos de outras pessoas como agora.
- Recebo muita coisa ruim, é verdade. Me perguntam o que achei e sou sincero, digo: 'acho que você apenas tentou misturar a Bossa Nova com alguma outra coisa'. Mas não tenho dúvida que daqui a 12 ou 15 anos vamos ver o surgimento de uma coisa totalmente nova e original - aposta.
[17:35] - 23/08/2008