Jornal do Brasil
MADRI - Entre os 153 mortos no acidente do avião da companhia aérea espanhola Spanair estava o brasileiro Ronaldo Gomes da Silva, de 27 anos. O jovem passava a lua-de-mel em Madri com a mulher, a espanhola Yanina Celisdibowsky, que também morreu. Na quarta-feira, o vôo JK 5022, que decolava do aeroporto de Barajas com destino a Las Palmas, nas Ilhas Canárias, e 172 pessoas a bordo, caiu logo após a decolagem.
Natural da cidade de Ourilândia do Norte, no Pará, Ronaldo morava em Londres há cinco anos. A família do brasileiro foi avisada sobre sua morte por parentes de sua mulher. Muito abalado, o pai do brasileiro, Julião Alves da Silva, contou que só ficou sabendo do acidente quando “nos ligaram”.
– Meu filho veio a São Paulo se casar esse ano, foi para Londres e de lá resolveu viajar de lua-de-mel para a Espanha, onde conheceria os pais de sua mulher.
O casamento, realizado dia 3 de julho em São Paulo, teria a segunda cerimônia celebrada no arquipélago espanhol, contou o advogado Yuri Ludwig Poleis Zuconelli, 27 anos, que morou com Ronaldo em Londres.
O brasileiro ficou com a mulher no Brasil até terça-feira, quando pegaram o vôo para Madri. Na quarta, embarcaram com destino às Ilhas Canárias, no avião da Spainair.
Vida em Londres
Segundo Yuri, Ronaldo conheceu Yanina na capital britânica. Ela trabalhava em uma sorveteria ao lado do restaurante onde o brasileiro era entregador de pizzas.
– Ele paquerava ela. Depois de muita insistência, começaram a ter um relacionamento – conta.
Yuri disse que Ronaldo vinha de uma família humilde e “quando foi a Londres, começou a trabalhar muito duro”:
– Ele tinha o sonho de viver na Europa. Como sempre viveu em uma situação difícil no Brasil, queria trabalhar e estudar fora do país. Foi a realização de um sonho.
Já a mulher, Yanina, era de uma família de bom poder aquisitivo. O amigo conta que os dois estavam juntos porque se amavam:
– Ronaldo queria uma pessoa que gostasse dele como ele era, e o príncipe encantado dos sonhos dela era um latino, moreno e forte, como Ronaldo. Eles foram muito felizes.
Yuri disse que ficou sabendo do acidente pelo pai, que recebeu uma ligação dos parentes de Yanina.
– Não quis acreditar, achei que meu pai tinha entendido errado, porque ele não fala espanhol.
A irmã de Ronaldo, Rosana Gomes da Silva, disse que seu outro irmão, também morador de Londres, chegou à Espanha para fazer o reconhecimento do corpo. Segundo Yuri, a família do brasileiro não tem condições de viajar ao continente.
– Ainda não sabemos quando será o enterro. Estamos aguardando notícias. Também não tivemos tempo para pensar se vamos processar a empresa. Estamos muito chocados e abalados – desabafou Rosana.
Sobrevivente
A edição desta quinta-feira do jornal espanhol El Pais relata a história de uma das sobreviventes: Lígia, uma médica espanhola de 41 anos, seguia para uma semana de férias nas Ilhas Canárias na companhia do marido, José, e da cunhada, Gema. Os três iam celebrar os 42 anos de Lígia, no domingo.
Sob o efeito da medicação e da emoção, Lígia contou que pouco depois da decolagem ouviu “um ruído terrível” e foi então projetada para fora do avião, ficando inconsciente por um tempo.
– De repente, uma enorme explosão despertou-me. Eram os tanques de combustível do avião que acabavam de explodir. Virei a cabeça para olhar ao meu redor, à procura de José e de Gema, e vi vários corpos espalhados. Senti um calor enorme. À minha volta ouvi pessoas a gritar e a chorar, entre elas uma criança pequena. Tentei pôr-me em pé para ajudar as pessoas à minha volta, mas voltei a cair. Só então percebi que tinha o fêmur direito partido.
[01:52] - 22/08/2008