Jornal do Brasil
SÃO PAULO - As vendas de títulos públicos para pequenos investidores pela internet bateram recorde em julho. Enquanto a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) atravessa um período de instabilidade, com perda acumulada de 6,94% no mês, os investidores se voltam para o mercado de títulos comprados no Tesouro Direto, que mantêm um ganho líquido médio entre 5% e 6% no mês. Segundo dados do programa de venda de títulos, foram vendidos R$ 183 milhões em títulos em julho. O recorde anterior, de R$ 128 milhões, era de janeiro.
Segundo o professor de finanças públicas da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, Sergio Jund, o aumento das vendas de títulos públicos é uma forma de migração de investimentos.
– Os investidores estão em busca de um porto seguro. É muito menos arriscado ter um investimento de retorno garantido do que depender das flutuações do mercado – disse o professor.
O número de investidores cadastrados no sistema, que era de 103 mil no final de 2007, chegou a 126,8 mil. O governo tem R$ 1,8 bilhão dos títulos da dívida pública na mão desses aplicadores.
Os papéis mais vendidos em julho foram a NTN-B e a NTN-B principal (41% das vendas), com diferentes vencimentos, que pagam uma taxa de juros pré-fixada, mais a correção da inflação medida pelo IPCA.
O valor médio por operação foi de R$ 18 mil, mas 60% dos investimentos foi de até R$ 5.000.
Em relação à rentabilidade, os títulos prefixados NTN-F com vencimentos em 2017 e 2014 apresentaram retorno de 6,04% e 5,05% no mês, respectivamente.
No acumulado dos últimos 12 meses, as rentabilidades da NTN-C 2011, NTN-C 2021 e NTN-C 2017 foram de 19,08%, 15,82% e 14,93%, respectivamente. Esses papéis, corrigidos por juros mais IGP-M, não estão mais sendo vendidos pelo governo.
É necessário cadastramento
É importante lembrar que os títulos comprados no Tesouro Direto podem ser revendidos ao governo, independentemente da sua data de vencimento. Os resgates são feitos pelo Tesouro sempre às quartas-feiras. Para investir no Tesouro Direto é preciso estar cadastrado em algum banco ou corretora de valores. O desempenho da aplicação depende também da taxa cobrada por cada instituição. Algumas não cobram nada. Os grandes bancos, em geral, têm as taxas mais caras. A lista pode ser vista no site do Tesouro.
O valor mínimo de aplicação equivale a 20% do preço do qualquer título. Atualmente, o título mais barato é vendido por cerca de R$ 600 e o mais caro, por R$ 3.500.
Dívida em queda
Para fugir dos juros altos, o Tesouro Nacional tem evitado a emissão de títulos públicos, estratégia que, combinada com a grande concentração de vencimentos de papéis ocorrida no mês passado, fez a dívida do governo federal registrar uma redução entre junho e julho.
De acordo com dados do Tesouro, o endividamento do governo federal somava R$ 1,298 trilhão ao final do mês passado, uma redução de 3,4% em relação ao saldo de junho. Neste ano, a queda é de 2,7%.
A queda ocorrida especificamente no mês passado se explica pelo maior volume de vencimentos de títulos prefixados que costuma ocorrer no começo de cada trimestre. Apenas esse resgate somou R$ 74,8 bilhões, respondendo por toda a redução ocorrida em julho.
No horizonte mais longo, porém, é possível notar que, independentemente de fatores sazonais, o Tesouro tem optado por vender uma quantidade menor de títulos públicos no mercado. Entre janeiro e julho deste ano, o governo tirou de circulação R$ 110 bilhões em papéis, contra apenas R$ 6,5 bilhões no mesmo período de 2007.
Segundo Guilherme Pedras, responsável pelas operações da dívida pública no Tesouro, o aumento nos resgates foi uma forma encontrada de escapar da alta que tem se observado nos juros pagos pelos títulos do governo, reflexo da elevação da taxa básica de juros (Selic).
[02:21] - 21/08/2008