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Irmão de Obama mora em favela

Jornal do Brasil

WASHINGTON - A edição italiana da revista Vanity Fair encontrou o meio-irmão do candidato à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama. George Hussein Obama tem o mesmo sobrenome e o mesmo pai do senador democrata, mas seu cotidiano não se assemelha em nada ao do político. Enquanto Obama vê aumentar suas chances de se mudar para a Casa Branca, George não tem perspectiva de sair do barraco de seis metros quadrados onde vive, numa favela do Quênia.

George Hussein Onyango Obama é o caçula e o menos afortunado dos oito meio-irmãos Obama. Nunca tinha sido encontrado por nenhum jornalista que cobre a campanha presidencial americana, até que uma repórter da Vanity Fair da Itália localizou-o numa favela em Huruma, subúrbio de Nairóbi.

– Aqui vivemos com menos de US$ 1 por mês – disse George, homônimo de Bush.

Parte da matéria, que chega às bancas nesta quarta-feira, foi antecipada nesta terça-feira pelo jornal italiano Corriere della Sera, que também publicou uma foto de George, cortesia da Vanity Fair, cuja repórter passou um dia com o Obama esquecido. Ela entrou no barraco de George, fragilmente sustentado por tábuas. Nas paredes de papelão, dois pôsteres de futebol – dos times italianos Inter e Milan – e a primeira página destacada de um jornal local, com a foto do senador Barack Obama.

Na favela, adianta o Corriere, todos chamam George de Hussein, seu sobrenome muçulmano. Seu pai, que também atendia por Barack Hussein Obama, era fiel ao islã. Assim como quase todos no Quênia, era polígamo. Teve quatro esposas e, ao morrer, deixou oito filhos. Até terça, a imprensa mundial conhecia sete. Auma, próxima ao irmão Barack – nos primeiros meses das primárias democratas ajudou na campanha. Sabia-se ainda da existência de Abongo, também conhecido como Roy e Malik, que mora próximo ao Lago Vitória. Há outros três Obamas: um mora na China e dois em Londres, mas que preferem se manter distantes das revistas e jornais. David morreu jovem, num acidente de moto. Faltava George Hussein Onyango Obama.

– Vivo recluso, ninguém sabia da minha existência – disse.

Se alguém percebe seu sobrenome e pergunta se é parente do homem que pode governar os EUA, George fala que não:

– Sinto vergonha.

O caçula diz que não tem nada contra o resto da família, mas tampouco mantém contato. Com Barack encontrou-se apenas duas vezes. Uma quando tinha cinco anos, e pouco se lembra. O episódio, entretanto, está registrado no livro do presidenciável, Sonhos de meu pai, num trecho em que Obama descreve George como “o menino da cabeça redonda e de olhar circunscrito”. A segunda vez foi há dois anos, quando o senador estava em turnê pela África, com a mulher, Michelle, e as filhas, Malia e Sasha. Diante das câmeras, a família foi conhecer a avó, Sarah, em Kogelo, e George estava lá. O encontro durou 45 minutos.

– Foi curioso. Como encontrar um estranho – recorda.

A última vez que viu o pai foi há 10 anos, quando passou um “desastroso” Natal em Honolulu. Depois, quase nenhum contato: só notícias esporádicas, histórias que a mãe, Jael, conta, e muita mágoa.

– Pelo menos Barack o conheceu. Queria ter convivido com ele também – conta, baixinho.

Jael e George foram abandonados por Barack pai quando o caçula ainda era criança. Ela se casou de novo, tem outros filhos e mora longe de Nairóbi. Em Huruma, George vive sozinho. Aos 26 anos, inscreveu-se há pouco no primeiro ano de um instituto técnico comercial.

– Tive que aprender a sobreviver – disse, acrescentando que morou nas ruas por 10 anos.

Viver na periferia de Nairóbi não é fácil. Em janeiro, na violência pós-eleitoral, seis pessoas foram mortas por machadadas só em Huruma. Mas suas cicatrizes têm história mais feliz.

– Ganhei-as no futebol. Chuto bem – gaba-se.

[02:47] - 20/08/2008