Yuriy Humber, Jornal do Brasil
MOSCOU - Boris Bondo conta que há 15 anos fugiu 1609.34 km para Moscou, de sua Geórgia natal, para escapar da violência. Agora, o conflito o pegou. O enfrentamento entre as tropas russas e georgianas pela região separatista da Ossétia do Sul deixou o homem de 54 anos preocupado com sua segurança à medida que as imagens da guerra deixaram os moscovitas no limbo. A polícia pára Bondo e outros georgianos diariamente para checar suas identidades.
– Vivia bem – diz Bondo, que vende frango grelhado em Moscou, onde uma a cada 200 pessoas é de etnia georgiana. – Agora sinto que qualquer um pode se tornar alvo.
Moscou é casa para 54 mil georgianos, dos quais muitos chegaram à metrópole ao escapar das batalhas no Cáucaso nos anos 90. Desta vez, a relação entre Rússia e Geórgia se estremeceu com a ocupação da Ossétia do Sul pelas tropas georgianas que foi seguida da ofensiva militar russa, com ambos lados acusando-se mutuamente de querer provocar e realizar uma limpeza étnica.
Na Moscou que abriga igrejas, escolas e restaurantes da Geórgia, um georgiano de 55 anos foi espancado e roubado semana passada por seis jovens que questionavam sua etnia, segundo informou o porta-voz da embaixada da Geórgia na cidade.
Uma frentista de 37 anos foi agredida no dia em que a Geórgia entrou na Ossétia do Sul. Sua mãe, Nana, pediu que o nome da filha não seja revelado, pois teme represália.
Seqüência
Estes não foram incidentes isolados. Quatro homens não identificados entraram semana passada em uma mercearia dirigida por um georgiano em Moscou, que está fechada até agora, conta Marina, outra caucasiana que vive na capital russa e recusou-se a dizer seu sobrenome.
O presidente russo, Dmitri Medvedev, reuniu-se com o ministro do Interior Rashid Nurgaliyev dia 13 para pedir que as autoridades de coerção da lei “não toquem os georgianos que cumpram a lei”.
– Não temos registro de incidentes especificamente ligados ao conflito – contestou a porta-voz do ministério, Angela Kastueva.
A cultura georgiana influenciou a vida na Rússia há mais de 250 anos. O país, localizado no Mar Negro, foi absorvido pelo império russo na virada do século 19. Entre seus filhos, figura o líder soviético Josef Stalin. A Geórgia declarou independência da URSS em 1999, três anos após o colapso do muro de Berlim.
A Rússia é casa para meio milhão de georgianos étnicos, ou cerca de 4,4% da população, de acordo com o censo de 2002 realizado por ambas as embaixadas.
A culinária da Geórgia, como os kebabs e o pão recheado de queijo, são tão comuns em Moscou quanto a pizza é em Nova York.
Os movimentos jovens financiados pelo Kremlin como Nashi, Jovem Rússia e Guarda Jovem, protestaram na frente da embaixada da Geórgia em Moscou durante uma semana, pedindo a Saakashvili que pare com a incursão na Ossétia, alegando ligações étnicas com os moradores da região, onde a maioria tem passaporte russo.
Na catedral São Jorge, o Salvador, a mais antiga igreja da cidade construída há 250 anos pelos georgianos, multidões batem o ponto para rezar pelo fim do conflito. A igreja está localizada na Bolshaya Gruzinskaya (Grande georgiano). As ruas e o subúrbio são para os moscovitas referência do local onde a rei da Geórgia se instalou no século 18 depois de fugir do império otomano.
Para Bondo, assim como muitos outros membros da congregação, o movimento não é uma opção. Suas vidas estão atadas a Moscou:
– Meu filho me perguntou por que não nos mudamos. E eu respondi que não sei. Como poderia? – disse o atual cidadão russo. – Se meu único pecado é amar a Rússia, Tolstoy, Pushkin e sua arte, então, que me enforquem.
[01:40] - 19/08/2008