Marcelo Migliaccio e Renata Victal, Jornal do Brasil
RIO - Nesta terça-feira começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV para os candidatos a vereador. A partir de desta quarta-feira – sempre às segundas, quartas e sextas-feiras – serão lançadas as últimas fichas dos postulantes à prefeitura. Embora os ataques até agora tenham sido tímidos, a aproximação do pleito, segundo cientistas políticos, vai determinar a exploração dos pontos vulneráveis de cada um numa tentativa final de reverter as pesquisas.
O bispo Marcelo Crivella (PRB), por exemplo, que aparece em primeiro lugar em todos os levantamentos de intenção de voto já divulgados, precisa, a todo custo, desvincular sua imagem da Igreja Universal do Reino de Deus. Esta é a opinião do cientista político da PUC Ricardo Ismael.
– O senador Crivella possui enorme rejeição no eleitorado de maior escolaridade e renda, e pouco tempo na TV. Para reverter isso precisa conseguir apoio de formadores de opinião da Zona Sul – avalia Ismael.
O mesmo pensa o sociólogo e cientista político do Iuperj Gláucio Soares:
– A força e a debilidade de Crivella têm a mesma origem. Para os que o seguem, é um pastor; para os que se opõem, é o representante político de uma seita caça-níqueis que explora os pobres e tem um projeto de poder – explica.
O historiador e coordenador do setor de pesquisas da Fundação Getúlio Vargas, Carlos Eduardo Sarmento, descobre outro flanco aberto na candidatura do senador:
– Os concorrentes também descobrirão que é possível desconstruir o Crivella batendo na associação dele com lideranças comunitárias duvidosas – opina.
Adversário ideal
Mas o xadrez eleitoral não é tão simples assim e é possível até que o líder das pesquisas seja poupado, acredita Sarmento:
– Há adversários que sonham em enfrentar Crivella no segundo turno por causa de sua alta rejeição. Foi o que fez Cesar Maia há quatro anos, polarizando com o senador e esquecendo Jandira Feghali. Desta vez, Jandira e Eduardo Paes preferem decidir com Crivella.
O peemedebista Paes, que chegou ao segundo lugar na última pesquisa do Ibope, precisa tomar cuidado ao colar sua imagem à do governador Sérgio Cabral Filho. Na avaliação de Ricardo Ismael, é possível que os problemas na segurança pública respinguem nele.
– Paes deve salientar a parceria com o governo estadual, que será benéfica no caso de ele se tornar prefeito, mas ficar distante do tema da criminalidade no Estado.
Outro apoio, o de Cesar Maia à candidata Solange Amaral (DEM), também pode ser um entrave para a campanha da deputada.
– Cesar está desgastado e isso pesa – diz Ismael.
Para o professor da PUC, a médica Jandira Feghali (PCdoB) precisa “fazer um discurso mais universalista”.
– Ela se apresenta como médica preocupada com a saúde pública.
Gláucio Soares vai além. Para ele, a fragmentação da esquerda é ruim não apenas para Jandira, mas para Alessandro Molon (PT), Fernando Gabeira (PV) e Chico Alencar (PSOL).
– É possível que essa divisão signifique que nenhum desses candidatos chegue ao segundo turno. Não obstante, com a aproximação das eleições, haverá transferência de votos entre eles.
O efeito Lula
Em relação ao petista Molon, o fato de ser do partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que goza de alta popularidade, paradoxalmente, pode ser um ônus.
– Lula tem muitos aliados na disputa. Crivella fez seu projeto do Cimento Social com apoio do governo federal, que também está cooperando com o governador Sérgio Cabral, patrocinador da candidatura de Paes. Não há um vínculo único com o presidente no Rio – argumenta Sarmento.
Contra o candidato do Partido Verde, avalia o cientista político do Iuperj, pesa ainda uma hostilidade dos setores mais conservadores. Para reverter a situação, Gabeira deveria investir na divulgação de sua atuação parlamentar:
– Ele enfrenta uma rejeição devido à defesa da liberação do consumo de maconha, à postura em relação ao aborto e à união entre pessoas do mesmo sexo – pontua Soares. – Mas é um deputado combativo, incorruptível.
Sarmento, entretanto, enxerga justamente na atuação parlamentar de Gabeira um potencial de dificuldade para o candidato.
– Drogas e homossexualidade, bandeiras de sua ação como deputado, não são interessantes numa disputa majoritária. A rejeição a Gabeira também é grande, e ele se comunica com uma parcela restrita da sociedade com renda e escolaridade altas e concentrada no Centro, na Zona Sul e na Barra.
O professor do Iuperj lamenta a falta do debate de idéias e propostas. Ele teme que discussões sobre aborto e união civil entre homossexuais, que pouco têm a ver com a rotina da cidade, acabem dominando os programas gratuitos:
– As questões capitais da educação e da saúde, as contribuições do município para reduzir o crime e a violência, assim como as relações com o poder federal e estadual, até agora foram menos importantes. Estão debatendo temas fora da esfera municipal.
Os horários
Os programas eleitorais dos candidatos a prefeito serão transmitidos todas as segundas, quartas e sextas-feiras, em dois blocos de meia hora cada um. No rádio, às 7h e às 12h; e, na TV, às 13h e às 20h30. Os candidatos a prefeito dividem, também, 30 minutos diários em forma de inserções de 15 ou 30 segundos, ao longo da programação, entre as 8h e meia-noite.
[00:45] - 19/08/2008