Bruna Talarico, Jornal do Brasil
RIO - Fechar os vidros do carro, apertar o nariz, respirar pela boca e apegar-se à última lembrança perfumada. Seja nos principais acessos da cidade ou em pontos-chave para o turismo do Rio de Janeiro, a rotina de movimentos sincronizados é a única saída contra o mau-cheiro para quem passa nesses lugares.
Um passeio pela Princesinha do Mar, por exemplo, pode exigir manobras faciais mesmo de moradores, habituados com o cheiro emanado da Elevatória Parafuso, em frente ao Posto 5 da Praia de Copacabana.
– O gringo já passa com aquela cara de quem não está gostando muito, de nariz torcido – conta Antonio Neto, 56 anos, garçom há 25 de um restaurante localizado em frente à elevatória. – Quando faz calor incomoda muito mais, parece que sobe aquele vapor abafado, horrível.
Longe da praia, lixo e dejetos humanos deixam o subsolo para tomar lugar nas vias urbanas. Na Rodoviária Novo Rio, a professora universitária Susana Iglesias, 28 anos, espera pelo ônibus que a leva até a Zona Sul, em uma rotina quase diária de convivência com o mau-cheiro.
– É lamentável. Aqui a gente vê a falta de administração pública, de cuidado – reclama. – Não há nenhuma preocupação com o esgoto, que vai daqui (Canal do Mangue) direto para a Baía de Guanabara. Ninguém faz nada.
E quem passa pela Baía de Guanabara, onde o lixo e o esgoto despejados dão o tom aromático do passeio, sente praticamente na pele as consequências da putrefação da lama sedimentada. É o caso de Sidmar Júnior, 21 anos, que percorre duas vezes por dia o trajeto que liga a Ilha do Governador, onde mora, até o Centro do Rio.
– Todo mundo que sai da Ilha tem que pegar a Linha Vermelha ou a barca, mas a barca deve ser muito pior – ri. – Não tem o que fazer, o jeito é esperar o trajeto passar. Como eu faço esse caminho desde criança, já estou acostumado.
Como Sidmar, muitos outros também se acostumaram ao cheiro desagradável de determinados pontos da cidade. Já imersos no clima boêmio e festeiro da Lapa, os cariocas parecem ignorar o forte odor de urina e chorume, líquido poluente de cor escura e cheiro nauseante, originado da decomposição de resíduos orgânicos. A universitária Érica Magni, 21 anos, trabalha no bairro e freqüenta a noite da Lapa todos os fins de semana. Ela acredita que a dificuldade em encontrar um banheiro público seja um agravante do problema.
– A Lapa toda fede, é muito suja. A parte dos Arcos, onde os mendigos defecam, é nojenta – conta. – O problema é que em vez de procurar um banheiro, as pessoas fazem as necessidades nas ruas. É desagradável.
[07:00] - 17/08/2008