Jornal do Brasil
MARCELO MIGLIACCIO - Há pelo menos um oásis no Rio livre da poluição visual e sonora da campanha eleitoral. Ou quase livre, porque na última sexta-feira uma solitária militante remunerada tomava conta de um painel de propaganda da candidata a vereadora Leila do Flamengo na Avenida Pasteur, porta de entrada do pacato bairro da Urca. Fora isso, não se vê por ali qualquer sinal de que a cidade está prestes a escolher um novo prefeito e renovar a Câmara.
– A Urca não tem peso para eleger um candidato – raciocina Ana Luísa Brandão, presidente da Associação dos Moradores e Amigos do bairro.
Com cerca de 8 mil moradores e pouco mais de 5 mil eleitores, a Urca está longe de apresentar o quadro caótico de regiões como Campo Grande, Recreio, Ramos, Bonsucesso e Olaria, campeãs de propaganda irregular segundo o Tribunal Regional Eleitoral.
– Graças a Deus, não temos isso por aqui – comemora a advogada Patricia Meirelles, 31, que mudou-se de Botafogo para a Urca há cinco anos. – Já temos informação suficiente pelos jornais e pela TV, essa campanha ostensiva, mas que informa pouco sobre o candidato, não é necessária.
Faixas nas residências da Urca até podem ser encontradas, mas não têm nada a ver com a disputa eleitoral. Foram estendidas nas fachadas por moradores contrários ou favoráveis à instalação no bairro do Instituto Europeu de Design (IED), que enfrenta ações judiciais para ocupar o prédio que já sediou o Cassino da Urca e a TV Tupi.
– Só tem eu mesmo? – espantou-se Crisleide Machado, 19 anos, que tomava conta do painel de Leila do Flamengo, ao ser informada de que estava sozinha naquela função no bairro.
Moradora do Catete, ela ganha R$ 400 por mês para promover a candidata das 8h às 17h e cumpria ontem sua primeira jornada na Urca.
– Acho que os candidatos preferem lugares mais movimentados – conjectura Iuri Gregório, 18, que segurava um painel do candidato Paulo Pinheiro na Avenida Wenceslau Brás, em Botafogo, exatamente na divisa do bairro com a esquecida Urca.
– Se eles vierem nêgo expulsa – exagera o pescador Adilson Santana, 52, que atraca sua embarcação no bucólico ancoradouro do Quadrado há quase 30 anos.
Não é bem assim, mas o engenheiro Antônio Torres conta com humor o episódio envolvendo uma equipe de correligionários de um candidato a vereador nas eleições de 2002:
– Veio uma turma aqui e saiu perguntando aos moradores do que o bairro necessitava. Eu apontei aquelas mansões ali, depois os prédios de luxo e disse: veja, não precisamos de nada. Por que vocês não vão lá no Morro Chapéu Mangueira (Leme) perguntar. Lá, eles precisam de muita coisa.
[02:17] - 16/08/2008