Braulio Lorentz, Jornal do Brasil
RIO - Com o Kid Abelha na geladeira desde o ano passado e sem previsão de volta, Paula Toller agora segue em sua carreira solo bissexta com as próprias pernas, embora um tanto cambaleantes. Na próxima terça-feira, registra a apresentação que dá origem ao primeiro DVD sem a companhia de George Israel e Bruno Fortunato, no espetáculo musical de estréia do Teatro Oi Casa Grande, no Leblon. Após lançar discos apenas escorada por multinacionais, Paula virou independente. Não renovou contrato com a Warner (numa década, gravou dois discos pela major) e afirma que está empolgada com a espécie de recomeço. Diz-se, porém, frustrada com o fato de seu único CD atualmente na lista dos mais vendidos, com o Kid, ter sido lançado há seis anos.
– O Acústico vende 100 mil por ano, bem mais do que os inéditos – lamenta, lembrando que o Kid ainda é artista da Universal. – É frustrante fazer um disco sabendo que só querem ouvir aquele. O mercado está pouco receptivo para um artista com sucessos lançar músicas novas.
Aos 45 anos, 25 dedicados ao pop-rock, cola em si mesma o rótulo de estreante.
– Meu contrato com a Warner acabou, mas tenho uma parceria ótima com a Microservice (fábrica de CDs). Recebi propostas de outras gravadoras, e não da Warner, por incrível que pareça – garante. – Estou tendo condições que o mercado não tem em termos de porcentagens e adiantamentos. É muito confortável. E são eficientes na distribuição, problema clássico da independência.
Paula conta que o cenário foi pensado pelo cineasta Lui Farias, que acumula a função de direção de imagem, e o artista plástico Afonso Tostes, levando em conta a inclinação das poltronas.
– A platéia é quase colocada dentro do palco, por meio de espelhos – adianta.
A proximidade que tenta criar na concepção do cenário contrasta com a distância que guarda dos fãs. Acha exagero artistas porem seus seguidores para escrever letras (iniciativas das bandas Fresno e Sepultura) ou tocar no mesmo palco (no caso de seu ex-parceiro, Leoni).
– Não gosto de fazer o público trabalhar para mim. Acho excessivo. Tenho um blog e sou a editora de todos os textos que saem no meu site. Não consigo me organizar para responder aos fãs. Vejo a galera nova mais ligada nisso – conta.
O repertório é calcado na estréia solo que leva seu nome, de 1998, e em Sónós, do ano passado, ao passear por Oito anos, Derretendo satélites e À noite sonhei contigo, com participação do argentino-americano Kevin Johansen (“uma figura globalizada, que representa bem a mistura”).
Grand' hotel, em arranjo piano e voz, é o momento que remete ao Kid Abelha, em pausa desde 2007.
– Quis cantar de uma nova forma. Não é um cover, é uma nova interpretação de um clássico. Não estou num trabalho paralelo. Tenho o mesmo vigor – assevera.
Ser a primeira artista a fazer um show no teatro – após incêndio que o destruiu em 1997 e fez com que fosse desativado – não empolga a cantora. Existem outros motivos para a escolha do espaço, reinaugurado em maio com o musical A noviça rebelde.
– Esse show é adequado para teatro. O som é maravilhoso. É tudo novo e moderno – derrete-se, ao adjetivar o lugar, que tem 3 mil metros quadrados em três andares e capacidade para 950 pessoas.
A banda é a mesma de Sónós: Caio Fonseca (piano, violão e vocais); Coringa (guitarra, violão e vocais); Jam da Silva (percussão); Adal Fonseca (bateria) e Jorge Aílton (baixo e vocais). Eles ganham o reforço de outro parceiro que se junta a Kevin Johansen na lista de convidados que dão o ar da graça no DVD: o guitarrista Dado Villa-Lobos, ex-integrante da Legião Urbana.
– Ele é meu parceiro, amigo e cúmplice. Nossas famílias se conhecem. Temos feito muitas músicas. É natural que participe – justifica.
As faixas autorais se juntam a quatro músicas de outros artistas: 1.800 colinas, gravada por Beth Carvalho; Fly me to the moon, famosa na voz de Frank Sinatra; Saúde, de Rita Lee; e Mamãe coragem, composta por Caetano Veloso e Torquato Neto.
– Mamãe coragem dialoga muito bem com duas músicas minhas, Barcelona 16 e Oito anos. Cada uma de sua maneira fala da relação mãe e filho – explica.
[00:43] - 09/08/2008