CULTURA

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Mangabeira Unger busca alternativas radicais em novo livro

Jornal do Brasil

RIO - "O mundo sofre, hoje, sob a ditadura da falta de alternativas", escreve o professor Roberto Mangabeira Unger, na primeira linha do livro que acaba de lançar pela editora Civilização Brasileira, O que a esquerda deve propor. Repete a frase, com sutis variações, o intelectual sentado à mesa de ministro de Assuntos Estratégicos, em Brasília, na primeira resposta ao repórter.

– Ao mesmo tempo em que está sob o jugo de uma ditadura, o mundo está inquieto, em busca de alternativas – insiste ele.

Esgotadas todas as aventuras ideológicas do século 20, Mangabeira acha que o repertório das alternativas disponíveis à humanidade fez água. Ficou estreito demais para o tamanho e a profundidade das mazelas e dificuldades do presente. Os problemas das sociedades contemporâneas tornaram-se insolúveis se corrigidos dentro dos limites desse repertório.

– É preciso ampliar, até mesmo radicalmente, as alternativas institucionais disponíveis – sugere, ao falar de um dos temas centrais do livro e de sua vasta obra teórica.

Sua nova publicação é, na verdade, um livro-manifesto publicado originalmente em inglês, em 2005: What should the left propose? Nele, põe o dedo em riste com mais ênfase em direção aos teóricos e governos de esquerda. "Os autodeclarados progressistas aparecem no palco da história contemporânea como humanizadores do inevitável: seu programa tornou-se o programa de seus adversários conservadores, com um pequeno desconto", escreve, para arrematar em seguida: "Disfarçam a rendição como síntese – de coesão social e flexibilidade econômica, por exemplo. Suas 'terceiras vias' são a primeira via com açúcar: o adoçante da política social compensatória e da seguridade social, substituindo a ampliação fundamental de oportunidades".

Parece referir-se indiretamente ao próprio governo do qual faz parte, mas se dirige, em particular, à social-democracia que encantou a Europa na primeira metade do século passado e se tornou o mais do mesmo adiante.

– A social-democracia resultou de um compromisso. As forças que lutavam por uma reconstrução institucional da economia e do Estado abandonaram essa luta. Em troca desse abandono, conseguiram que o Estado conquistasse uma posição forte no domínio da distribuição ou redistribuição da riqueza. Ocorre que, mesmo nas sociedades mais ricas, os problemas fundamentais não podem ser equacionados nos limites do compromisso histórico.

O resultado, diz ele, é o distanciamento de três mundos: o dos setores avançados da produção e do conhecimento; o mundo das indústrias tradicionais, da produção em larga escala de bens e serviços padronizados; e o mundo dos imigrantes, dos pobres, dos empreendimentos descapitalizados e desqualificados.

– O Estado trata de aplacar os problemas pela prestação de serviços sociais – afirma Mangabeira. – O problema é que essa violenta segmentação hierárquica da sociedade, resultante da separação desses três mundos, não pode ser revertida, ou nem sequer controlada, por políticas meramente distribuidoras.

Conclusão: é preciso encontrar uma maneira de espalhar o acesso do primeiro mundo – os setores avançados da produção e do conhecimento – a uma parcela maior das sociedades. E o caminho, sugere, passa longe da via escolhida até aqui.

– A redistribuição compensatória por políticas de transferências pode tirar as pessoas da miséria, mas não pode reverter a segmentação hierárquica. É uma luta de Sísifo contra forças estruturais.

Mangabeira, portanto, ignora ou reduz o impacto de programas como o Bolsa Família, que tem feito diferença na mudança da pirâmide social do Brasil nos últimos anos. Falta, segundo suas palavras, "rebeldia imaginativa":

– Temos toda a razão para nos associarmos à rebeldia imaginativa. E temos seguido o caminho oposto: o do conformismo intelectual.

Mangabeira parece hoje confortável na condição de ministro. Comanda um dos mais relevantes projetos do governo do presidente Lula, o Plano Amazônia Sustentável, não sem passar por uma ruidosa queda-de-braço com o Ministério do Meio Ambiente, guerra fria que se tornou, entre outras coisas, a pá de cal para a saída de Marina Silva do governo.

Sua missão oficial é conduzir a discussão e a elaboração de projetos de longo prazo, destino que logo permitiu a detratores, críticos e céticos em geral o apelidarem de "ministro do futuro" – no mau sentido. Esquiva-se, porém, das polêmicas de governo.

Se o repertório institucional disponível é estreito, se falta imaginação criadora, se a inclusão social prometida é meramente acessória e não transformadora, a trilha sugerida em O que a esquerda deve propor é o que Mangabeira chama de "agenda de reconstrução das instituições e das consciências": mudanças na forma de organização do Estado, da política democrática e da economia de mercado.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

Jornal do Brasil - Por que propor um novo caminho à esquerda?

Mangabeira Unger - O mundo está sob o jugo de uma ditadura de falta de alternativas. E ao mesmo tempo está inquieto em busca de alternativas. Todas as grandes alternativas institucionais ideológicas alentadas durante o século 20 foram derrotadas. O repertório das poções disponíveis à humanidade ficou muito estreito. Os problemas fundamentais das sociedades contemporâneas não podem ser resolvidos dentro dos limites desse repertório. É preciso ampliar, até mesmo radicalmente, as alternativas institucionais disponíveis. Esse é um dos grandes temas do livro. Esse problema se torna especialmente claro em relação à evolução da social-democracia, construída nos países ricos no curso do século 20. A social-democracia moderna resultou de um compromisso. As forças que lutavam por uma reconstrução institucional da economia e do Estado abandonaram essa luta. E, em troca desse abandono, conseguiram que o Estado conquistasse uma posição forte no domínio da distribuição ou redistribuição da riqueza. Acontece que mesmo nessas sociedades mais ricas, os problemas fundamentais de hoje não podem ser equacionados dentro dos limites desse compromisso histórico.

Jornal do Brasil - Houve acomodação ou as realidades nacionais se tornaram diferentes?

Mangabeira Unger - Vamos tomar dois exemplos de problemas: o da desigualdade e o da solidariedade. Numa social-democracia contemporânea, há três mundos que estão se distanciando. Primeiro, o mundo dos setores avançados da produção e do conhecimento, que são cada vez mais a fonte da riqueza e das grandes inovações. Depois há o mundo das indústrias tradicionais, da produção em grande escala, de bens e serviços padronizados, aquilo que tradicionalmente se chama o fordismo industrial. Essas indústrias estão em declínio. E, finalmente, o mundo dos imigrantes, dos pobres, dos empreendimentos descapitalizados, desqualificados, onde o Estado - quando é rico - tenta atenuar os problemas pela prestação de serviços sociais. O primeiro problema é que essa segmentação hierárquica violenta da sociedade, resultante da separação destes mundos, não pode ser revertida, ou sequer controlada, por políticas meramente distribuidoras. É preciso encontrar uma maneira de ampliar para setores maiores da sociedade e da economia o acesso aos setores avançados. Isso é o problema dessa desigualdade. A redistribuição compensatória por políticas de transferências pode tirar as pessoas da miséria e do sofrimento, mas não pode reverter a dinâmica da segmentação hierárquica. É uma luta de Sísifo contra forças estruturais. O segundo problema é o da solidariedade. O dinheiro movido por políticas de transferência é um cimento social muito frágil para servir de base à solidariedade. O único cimento forte é a responsabilização direta das pessoas umas com as outras. Esse compromisso histórico da social-democracia mais uma vez não serve a isso. Podemos acrescentar aí um terceiro problema, que tem mais a ver com a organização da política do que com a economia: a relação entre a mudança e a crise. As sociedades modernas e os Estados modernos estão organizados de maneira que ainda faz a mudança depender da crise.

Jornal do Brasil - No livro, o senhor diz que a esquerda sente falta da crise.

Mangabeira Unger - Não só a esquerda. Todas as sociedades tiveram suas transformações movidas sobretudo por traumas das guerras e dos colapsos econômicos. Uma grande tarefa é diminuir essa necessidade de a mudança depender da crise e atenuar o vínculo entre a transformação e o trauma. Para isso é preciso reorganizar todas as instituições, mas sobretudo as instituições políticas. É preciso tornar o impulso transformador endógeno, interno, menos dependente desse remédio da crise.

Jornal do Brasil - De que esquerda estamos falando?

Mangabeira Unger - Nós podemos, de forma geral, atribuir três esquerdas. São duas constituídas e a terceira lutando para nascer. Uma esquerda rejeita o mercado e a globalização, mas não sabe o que pôr no lugar deles. Tenta então desacelerar o movimento em direção a eles, para manter as prerrogativas da base histórica dessa esquerda. Essa esquerda procura então defender as prerrogativas de sua base histórica, que é a base organizada do operariado e da classe média, historicamente encastelada na indústria fordista, indústria de bens e serviços padronizados em grande escala. O problema para essa esquerda é que essa base histórica representa uma parte cada vez menor da população. E a sociedade é atraída pela dinâmica da inovação, da invenção, da aventura. Há uma segunda esquerda que abraça o mercado e a globalização e procura humanizá-los, sobretudo por meio de políticas sociais, como são as políticas de transferência, essas políticas de rediscussão compensatória da renda e da riqueza. Essa segunda esquerda corta a ligação com a base histórica da esquerda e se dirige à sociedade em geral. Mas ela não tem uma mensagem.

Não se distingue claramente das outras forças políticas. O que ela tem a oferecer é simplesmente uma versão mais doce, humanizada, daquilo que as outras forças oferecem.

Jornal do Brasil - E a terceira esquerda?

Mangabeira Unger - Seria uma esquerda que insistisse na agenda da reconstrução das instituições e das consciências. Essa terceira esquerda, em primeiro lugar, procuraria ampliar o repertório das alternativas, sobretudo das alternativas institucionais, as maneiras diferentes de organizar o Estado, a política democrática, a economia de mercado. Essa esquerda não trataria a igualdade como um objetivo supremo. Há um paradoxo. Ela parece propor um igualitarismo radical, mas ao mesmo tempo aceita o conservadorismo institucional.

Jornal do Brasil - Mas a segunda esquerda não imagina um igualitarismo.

Mangabeira Unger - Os filósofos e teóricos da segunda esquerda desenvolvem teorias da justiça que parecem muito radicais em abstração, mas que concretamente vêm a dar em muito pouco, porque têm de se efetivar dentro dos limites das instituições existentes. Esse tipo de igualitarismo é uma espécie de prêmio de consolação. Rousseau diz em algum lugar: "Eles não podiam ser homens, então decidiram ser ricos". É um igualitarismo de substituição. Essa esquerda que estou chamando de "esquerda que luta para nascer" teria como objetivo orientador o engrandecimento e a capacitação das pessoas comuns, a elevação da vida cotidiano dos homens e mulheres comuns a um nível mais alto de intensidade e capacitação. E o igualitarismo, a diminuição das desigualdades, é um instrumento acessório. É um corolário disso, não é o verdadeiro objetivo. O terceiro atributo dessa esquerda é que ela não se aferra às bases sociais limitadas da esquerda histórica, sobretudo o proletariado industrial e os setores organizados da economia e da sociedade. Talvez o maior erro estratégico da esquerda ocidental no curso dos dois séculos foi eleger a pequena burguesia como sua inimiga. E essa mesma burguesa veio a ser historicamente a base dos grandes movimentos de direita nos últimos dois séculos. Hoje, no mundo todo, há mais pequenos burgueses do que há proletários industriais. E sobretudo se definirmos pequena burguesia de maneira subjetiva ? a aspiração para um grau modesto de independência e prosperidade - a vasta parcela da humanidade tem um horizonte pequeno burguês.

Jornal do Brasil - É preciso levar em conta uma enorme classe média emergente.

Mangabeira Unger - Há o surgimento no Brasil de uma nova classe média, quase desconhecida das elites, que já está no comando do imaginário popular. Mas não tem voz, nem representação política. Nem destino político definido. Um quarto atributo dessa esquerda é a determinação de atenuar o vínculo entre a crise e a mudança. Isto é, organizar instituições e culturas que tornem possível não pagar pela transformação o preço do trauma. Isso pode ser colocado de uma forma muito abstrata, primeiro, e depois de maneira mais concreta em termos de organização da política. De forma abstrata, podemos distinguir duas classes de atividade. As atividades rotineiras, que desenvolvemos dentro de um arcabouço em instituições e premissas e no qual muitas vezes não somos sequer conscientes. E as atividades excepcionais, tipicamente conduzidas em momentos de crise coletiva ou de crise pessoal, em que desafiamos e transformamos parte desse arcabouço. A relação entre essas atividades é móvel. Podemos mudar nossa vida coletiva e nosso pensamento de maneira a aumentar a distância entre essas atividades. Nosso objetivo é diminuir essa distância. Fazer com que as atividades rotineiras dêem ensejo às atividades transformadoras. E as atividades transformadoras possam surgir das atividades rotineiras sem o impulso da crise.

Jornal do Brasil - Por quê?

Mangabeira Unger - Porque, em primeiro lugar, tem a ver com o progresso econômico, que depende, sobretudo, da capacidade de reconciliar os imperativos de cooperação e inovação. Em segundo lugar, porque é assim que nós subvertemos a base dos sistemas rígidos de hierarquia e divisão da sociedade. E em terceiro lugar é um fim em si mesmo, um valor em si mesmo, poder participar de um contexto histórico sem nos render a ele. A maneira que nos tornarmos livres, fortes e grandes é podermos nos engajar num mundo específico sem dar àquele mundo a última palavra, retendo a última palavra para nós mesmos. Isso é que é liberdade e grandeza.

Jornal do Brasil - O senhor pode dar um exemplo?

Mangabeira Unger - A área da vida social em que esse problema se coloca de forma contundente é a organização da política. A política tem a ver com as condições para mudar todas as outras áreas da vida social. Daí eu argumento que parte do projeto institucional dessa esquerda é reorganizar institucionalmente a democracia. Na parte da argumentação que tem a ver com a democracia, defendo uma democracia com as seguintes características. Primeiro, instituições que elevem de forma organizada o nível de engajamento político. Por exemplo, financiamento público das campanhas eleitorais. Em segundo lugar, arranjos institucionais que resolvam rapidamente os impasses entre os Poderes do Estado, inclusive por eleições antecipadas. Em terceiro lugar, o aprofundamento, no sentido experimental, do regime federativo, para permitir que territórios e setores da economia e da sociedade possam construir contra-modelos das soluções apresentadas na política.

Quarto lugar, práticas que não só assegurem aos cidadãos universalmente o mínimo de direitos e oportunidade, uma espécie de herança social que todos teriam independente de sua herança familiar, mas também uma maneira específica de resgatar as pessoas que se encontrem em situação de exclusão da qual não podem escapar por seus próprios meios. Uma quinta característica é a combinação de democracia representativa com democracia participativa. Não significa substituir uma pela outra, ou diluir as características individuais que caracterizam a democracia representativa, mas enriquecer com traços da democracia direta. Essas mudanças institucionais, com seu efeito combinado e cumulativo, reduziriam o vínculo entre a mudança e a crise.

Outro exemplo para revelar o sentido dessas idéias tem a ver com o mercado. Estamos acostumados com a discussão ideológica tradicional a imaginar uma espécie de modelo liberal. Mais mercado, menos Estado. Nessa visão tradicional, a tarefa do Estado é regular o mercado e depois contrabalançar as desigualdades geradas no mercado por políticas de redistribuição. É uma maneira de formular o debate ideológico que desconsidera a possibilidade de reconstruir e imaginar o próprio mercado.

Essa observação teórica tem uma grande importância prática. Agora, no mundo, há um desejo de organizar o crescimento econômico includente, um crescimento econômico que baseie a lógica do crescimento na democratização de oportunidades. Não é possível uma economia de mercado mais includente sem reorganizar as instituições. Todas essas preocupações e todas essas oportunidades são incapazes de serem acomodadas dentro do repertório conceitual e constitucional estreito da social-democracia institucionalmente conservadora.

Jornal do Brasil - Esse debate das alternativas vem sendo tratado com insistência pelo senhor. Por quê?

Mangabeira Unger - A argumentação desse livro se situa dentro de uma obra teórica que estou construindo há muitos anos. O livro é focado na discussão programática contemporânea. Mas é a manifestação de um projeto intelectual muito maior. Um dos traços desse projeto intelectual maior que estou desenvolvendo nas minhas obras teóricas é a construção de uma alternativa radical ao marxismo e às outras teorias sociais que dominaram o pensamento social nos últimos dois séculos. Há um paradoxo conceitual nessa tradição intelectual: o grande tema é que aquilo que parece ser natural e eterno e universal é, na verdade, contingente, local e transitório. Marx criticou os economistas ingleses, mostrando que aquilo que eles apresentavam como leis universais da economia eram, na verdade, leis de um determinado tipo de organização econômica.

Há uma contracorrente nessa tradição intelectual, a idéia fatalista ou determinista de construir uma narrativa da história, que argumenta que há na história do mundo uma pequena lista de sistemas institucionais indivisíveis, como feudalismo, capitalismo e socialismo. Segundo, que esses sistemas se sucedem na história. E terceiro, que há leis que governam essa sucessão e que estão fora do controle e mesmo além do conhecimento dos homens.

O que procurei fazer em minha obra teórica foi resgatar e radicalizar a primeira idéia em oposição à segunda. Isto é, demonstrar que é possível libertar essa idéia de que a sociedade é uma invenção e que as estruturas são produto da luta. E separar essa idéia de todos os constrangimentos e de todas as concessões impostos pelo ideário fatalista. É possível fazer isso sem menosprezar em nada o peso dos constrangimentos. Não é para dizer que a transformação seja fácil ou que a correlação de forças, numa determinada sociedade, não seja algo real. É isso que procurei fazer na minha obra teórica.

Um segundo traço dessa obra que forma o contexto desse pequeno livro é a imaginação das alternativas. Sobretudo a imaginação institucional. Nas ciências naturais, nós compreendemos que entender um fenômeno como um estado de coisas é entender as condições em que ele se pode transformar. Quem não entende as condições da transformação não entende o fenômeno. Nós não sabemos argumentar programaticamente. Hoje, no mundo todo, quando uma pessoa propõe algo muito distante do que existe, as pessoas dizem: "É interessante mas é utópico". E quando propõe algo próximo do que existe, as pessoas dizem: "É viável mas trivial". Tudo o que se propõe parece utópico ou trivial.

Esse falso dilema tem a ver com seqüência, não com planilha. É música, não arquitetura. Na falta de uma visão crível da transformação estrutural, nós acabamos nos fiando num critério abastardado do realismo político. É esse falso critério de realismo que vai dar naquele dilema do pensamento programático, que revela a incapacidade de entender a transformação - passada ou futura. Minha obra teórica é um esforço para sair dessa condição.

Um terceiro traço dessa obra, num plano mais filosófico, é a construção de um mundo de idéias que aceite de fato a possibilidade do novo, que veja a história e o mundo como abertos. Vou dar um exemplo: a realidade do tempo. A física do século 20 derrubou a idéia de haver um arcabouço de espaço e tempo invariável, que seria como o pano de fundo dos acontecimentos do mundo. Mas, ao derrubar essa idéia, manteve a idéia de haver um arcabouço de leis imutáveis da natureza. Mas se o tempo é para valer, se o tempo vai até o fundo, não há esse arcabouço e vamos para segunda derrubada.

Essa obra filosófica é o aprofundamento e a sistematização de uma visão de mundo em que o novo é de fato novo. O novo não é apenas a entrada no palco de um possível que já estava lá esperando para entrar no palco. E o tempo não é um fenômeno superficial, mas engloba tudo, abrange tudo, toca tudo. A obra programática está dentro do contexto da obra social, dessa tentativa de repensar a história e a sociedade. E o pensamento social está, por sua vez, dentro dessa tentativa de radicalizar o elemento mais distintivo da nossa tradição ocidental. O elemento compartilhado pelo cristianismo, pela ciência e pela democracia.

Nós somos uma civilização que aceita a realidade do novo e do tempo. Para nós, na nossa civilização, as raízes de um ser humano não estão no passado, mas no futuro. Nós somos os seres que estão sempre formados por um contexto específico. Estamos reféns sempre de um lugar específico na história e na sociedade. Mas somos também seres que são sempre inesgotáveis. Nós nunca somos esgotáveis pela nossa situação. Nós sempre o transcendemos. A visão da humanidade que perpassa a minha obra é a visão que reúne essas duas idéias. Da nossa contextualidade e da nossa transcendência. Essa é a base de toda essa obra programática.

Jornal do Brasil - Um dos seus diagnósticos fala que os governos de esquerda se acomodaram a uma realidade impedidora de transformações estruturais. No Brasil, os constrangimentos foram maiores ou faltou um projeto de esquerda segundo essa concepção que o senhor defende?

Mangabeira Unger - No sentido profundo, o problema maior do Brasil não é o mundo, mas o Brasil. O mundo está cheio de constrangimentos. Mas para quem tem projeto forte e idéia clara, está também cheio de oportunidades. Basta ver que há outros grandes países que criaram um caminho muito diferente de nós.

Dentro desse mesmo mundo que vivemos. A parte do mundo que foi mais obediente nas últimas décadas ao ideário institucional e econômico recomendado pelas autoridades econômicas, políticas e intelectuais dos países ricos foi a Américas Latina. Ao mesmo tempo é verdade que a globalização, na sua forma dominante, está tomando um determinado rumo que não é nem necessário nem desejável. Por exemplo, o sistema internacional do comércio está sendo organizado de acordo com determinados princípios. Primeiro, a maximização do livre-comércio é o objetivo. Não deve ser. O objetivo deve ser a coexistência de trajetórias alternativas de desenvolvimento dentro de uma economia mundial que se vai transformando progressivamente em mais aberta. Segundo lugar, o sistema está sendo pautado pela idéia de que, em nome do livre-comércio, se deve impor às economias comerciantes um determinado modelo da economia de mercado. Uma variante que, por exemplo, proíbe a título de subsídios todas as formas de coordenação estratégica que os países ricos usaram para enriquecer. Em terceiro lugar, o sistema internacional de comércio está evoluindo de acordo com o princípio de que as coisas e o dinheiro devem correr o mundo, mas as pessoas devem ser aprisionadas dentro do Estado-nação. Em quarto lugar, está aceitando a idéia de que o trabalho livre pode ser livre só na sua forma contratual, embora na prática se aproxime da escravidão. Tudo isso é uma construção política e intelectual.

Jornal do Brasil - Como reorientar o rumo?

Mangabeira Unger - Só se na base houvessem projetos nacionais fortes para reorganizar a economia e o Estado de outro jeito, que rompessem os limites impostos pela globalização.

Jornal do Brasil - A emergência de países como G20 e as pressões em torno de um comércio mundial mais justo não é uma forma de mudança, de reorientação de rumo?

Mangabeira Unger - Não. Por enquanto, nas discussões sobre organização econômica, estamos debatendo questões pontuais, ainda que importantes, como o protecionismo agrícola. Não estamos debatendo uma alternativa sistêmica de organização do livre comércio mundial. Nas organizações políticas, estamos debatendo a representação dos países emergentes nas organizações internacionais no sistema das nações unidas estabelecido depois da segunda guerra. Não estamos debatendo a reconstrução dessas instituições para criar um mundo mais hospitaleiro do que o mundo estabelecido. Nós, no Brasil, temos toda a razão para nos associarmos à rebeldia imaginativa. E temos seguido o caminho oposto, o caminho do conformismo intelectual. Na nossa tradição intelectual, os pensadores brasileiros se dividiram em dois campos. O campo dominante é o campo das narrativas evolutivas e fatalistas. Não só o marxismo, mas muitas outras variantes do pensamento ocidental no curso dos outros dois séculos. Com o marxismo foi especialmente grave. O que ocorreu muitas vezes é que as aspirações transformadoras foram descartadas e o fatalismo histórico foi mantido. E a tradição humanitária, dissidente, do pensamento brasileiro, é uma tradição de construtivismo voluntarista, como os positivistas. O que ocorre no Brasil é que quem rejeita os determinismos estruturais é visto como um representante da outra tendência, e assim procuram fazer comigo. Eu não quero ajudar a entoar o coro do destino. Nosso interesse intelectual e político é construir uma tradição de pensamento social que associe o entendimento do existente à imaginação do possível.

Jornal do Brasil - O governo Lula restringiu ou avançou na imaginação do possível?

Mangabeira Unger - Todas as iniciativas nas quais estou engajado no governo são tentativas de construção institucional, mesmo quando não parecem ser. Nada é meramente técnico ou econômico. Tudo, para avançar, exige reorganização das coisas. E, mesmo quando não parece ser, uma das minhas tarefas é a coordenação do Plano Amazônia Sustentável. Para organizar na Amazônia florestada o manejo sustentável da floresta tropical nós precisamos inovar nessas instituições. Incluir a gestão comunitária das florestas.

Precisamos encontrar uma maneira de organizar os serviços ambientais avançados. Fornecer aos próprios executores dessa política. Na Amazônia sem floresta, na Amazônia dos cerrados, temos uma oportunidade de organizar uma revolução na agricultura brasileira, que permitiria triplicar nosso produto agrícola sem tocar numa única água. Exige inovações, como a reorganização dos mercados agrícolas para fortalecer os produtores fragmentados diante dos compradores, produtores capitalizados. Essas inovações institucionais não são como as inovações que fascinaram o pensamento nos últimos dois séculos. São pequenas variações que ganham grande significado como parte de uma seqüência. São inovações micro, dentro de um projeto de inovação ampla de re-imaginação do Estado e do mercado. Quando assumi minha tarefa no governo, logo me convenci de que, se eu apenas conceituasse um projeto de futuro, haveria um grande risco de ver esse projeto morto no papel. O longo prazo só existe se começa no curto prazo. Com iniciativas agora. O que a nação mais quer agora é um modelo de organização que ancore na democratização de oportunidades. Esse é o espírito, a ambição, que organiza o sistema, no qual estou engajado.

[23:34] - 08/08/2008