Jornal do Brasil
RIO - O candidato do PT à prefeitura do Rio, Alessandro Molon, responde à terceira e última parte da Sabatina JB, com questões enviadas também por leitores do JB Online:
Se o Sr. for para o segundo turno, o Sr. vai com quem?
– Mas, por que o se? (risos) Quem vier a gente traça.
Com relação ao salário dos professores, o prefeito Cesar Maia lembrou, quando o presidente Lula sancionou o piso nacional, que o piso do Rio é superior ao das médias das capitais.
– Só que o prefeito acho que não entendeu. O presidente sancionou o piso e não o teto. Ele tem toda liberdade para aumentar o salário dos professores. Não proibiu isso quando sancionou o piso.
O Sr. é contra a aprovação automática, mas é a favor da cota?
– Sou a favor da cota como paliativo. A cota não é aprovação automática. Existe uma disputa entre um certo grupo de pessoas para preencher determinado número de vagas e elas têm que passar no vestibular e ao mesmo tempo conseguir...
Não é uma discriminação?
– Existe um termo em inglês que se chama discriminação positiva. Na verdade é uma discriminação para compensar uma outra discriminação anterior e muito maior que faz com que hoje a classe no Brasil tenha cor. Vamos falar de discriminação. Uma criança de dois anos que começa a estudar em creche particular de qualidade, vai chegar aos seis anos para fazer a classe de alfabetização de jeito incomparavelmente melhor do que uma criança que não tem creche hoje e pré-escola, que é a maioria das crianças do Rio de Janeiro. Então, essas duas crianças que chegam aos seis anos na classe de alfabetização, mesmo que a escola delas fosse igual, já não tiveram igualdade de oportunidade, mas a escola delas ainda é muito desigual. A escola pública onde essa criança pobre vai estudar é completamente diferente em que essa outra rica ou de classe média alta vai estudar. E aí como elas vão chegar no vestibular e dizer que agora é todo mundo igual. Como todo mundo igual, se elas nunca foram iguais.
As pessoas definem as cotas como classe e não como cor...
–Não é só cor. Você pode ter pessoas, raras as exceções porque ainda é muito desigual e muito injusto o Brasil, que são afro-descendentes e são ricas, mas são a minoria dentro às afro-descendentes. Então não é justa que essas, a que passaram por uma educação de alta qualidade, gozem dos benefícios das cotas. Já não gozam aqui no Rio de Janeiro. Nós vamos universalizar o acesso às creches de zero a três anos nas áreas de menor IDH. Nós vamos começar pelas áreas mais necessitadas e vamos caminhara para a universalização para todas as crianças.
O PT nunca defendeu com afinco os Cieps do Brizola. O que o sr. acha dos Cieps e da educação em tempo integral?
–Eu sou professor e fui professor do Colégio São Bento e da Escola Municipal George Pfisterer. O Colégio de São Bento que é o primeiro colégio do Brasil de tempo integral. Portanto, eu defendo como proposta, a educação em tempo integral. É isso que a gente vê na França por exemplo. A criança entre na escola às 7h e sai às 17h. Por isso, eu acho que a idéia dos Cieps é uma idéia muito boa, é uma idéia que precisa ser resgatada, valorizada, embora quem diga que vai implementar educação em tempo integral na cidade do Rio de Janeiro está mentindo. Defendo um projeto que caminha na direção da tempo integral, em que se celebram convênios com clubes, associações de moradores, cursos de inglês, cursos de informática para que os alunos do município que de manhã têm aula na escola, à tarde tenham, atividades esportivas, de línguas, de informática, complementares. Isso é possível? É possível. Isso já existe? Já existe. Belo Horizonte é um exemplo disso.
O prefeito está em terceiro lugar em Belo Horizonte. Ele não teve sucesso na administração.
–Teve sim. Mas ele está em terceiro porque ele escolheu um candidato do PSB. Cometeram um erro político sério porque o PT governa há 16 anos Belo Horizonte e a avaliação da prefeitura é excelente. Deveria ter lançado um candidato do PT. Tem candidato de qualidade lá. Errou, eu acho que corre o risco de perder a eleição.
O PT tem essa mania te ter candidato próprio...
–Eu acho que as eleições são o momento da apresentação das idéias que nós temos para a sociedade. O histórico das eleições mostra que muitas vezes quem está na frente das pesquisas não ganha a eleição. A Liziane Lins em Fortaleza em 2004, candidata do PT, tinha nessa época da campanha 3% das intenções de voto.
E não tinha o apoio do Lula...
– E não tinha o apoio do presidente. O líder das pesquisas era o Inácio Arruda, candidato do PCdoB, veja que coincidência né. Tentaram que ela retirasse (a candidatura), lembra? E o que ela fez? Resistiu e acabou ganhando a eleição. Acredito que isso vá acontecer aqui no Rio de Janeiro também. Dos quatro municípios do Brasil cujos prefeitos são os mais bem avaliados pelo Datafolha, três são do PT: Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. Ela é a quarta capital mais bem avaliada do Brasil. Eu tenho certeza que a Jandira vai nos apoiar no segundo turno, isso não vai impedir o apoio dela. Portanto nós vamos afirmar nosso projeto. Nossa candidatura não é para marcar posição, é candidatura para vender as eleições. Nós estamos seguros da nossa proposta para a cidade, da nossa história, o que a gente representa e que nós vamos crescer com a televisão e quando crescer ninguém segura, aí nós vamos para o segundo turno e vamos receber o apoio da esquerda.
A marca do Lula na televisão vai alavancar sua campanha? O sr. espera por isso?
–Não espero por isso. Mas eu tenho certeza que a marca do presidente e a sua popularidade vão ser muito importante para o nosso crescimento.
Mas o Lula não ajuda mais o Sérgio Cabral?
–Mas o Sérgio Cabral é de outro partido. O Lula não pode estar em outro programa de TV. É proibido pela lei eleitoral.
Como a prefeitura vai atuar no saneamento?
–A prefeitura vai assumir sua responsabilidade no saneamento da cidade. Vamos por exemplo discutir a despoluição das rede pluviais. Tem muito esgoto ligado irregularmente a rede de água pluvial e boa parte dessas línguas negras de praia tem a ver com isso. Isso é problema do município. Se o Rio de Janeiro fizer a sua parte e o Estado tiver habilidade de construir com os municípios que estão a margem da Baia de Guanabara o compromisso de despoluírem a Baia de Guanabara, ela pode se tornar o maior centro mundial de esportes náuticos, um grande centro de entretenimento de lazer, o rumo de crescimento da cidade vai mudar. A cidade que está crescendo para o Recreio e Barra da Tijuca pode voltar a crescer para dentro da região Leopoldina, para as margens da baía.
O sr. tem algum projeto para conter a favelização?
–O que a prefeitura tem que fazer são duas coisas. De um lado promover um projeto de urbanizar integrada de favelas, a exemplo do projeto Vila Viva em Belo Horizonte, que inspirou o PAC. Urbanização integrada. O Favela-Bairro ficou aquém do que poderia. O PAC vai muito além. O problema da tuberculose da Rocinha que é um taxa altíssima por que? Por falta de ventilação. Portanto nós vamos urbanização integrada, contenção imediata da expansão e estímulo à troca de uma casa na favela por uma habitação regular.
Como se faz a contenção da expansão?
–A prefeitura tem que agir. Tem que dizer não pode construir mais. E isso tem que ser feito no momento da construção. Além disso, vamos usar os mecanismo do estatuto da cidade para construção de habitação de interesse social, regularização fundiária, como previsto no estatuto da cidade e estimular que as pessoas optem por uma moradia em um prédio. Eu dei o exemplo do PAC, podemos pensar em outros programas habitacionais, mas como é o PAC? Programa de arrendamento residencial. A Caixa Econômica compra o terreno, constrói o prédio, a pessoa vai morar no apartamento de dois a três quartos e ela começa a pagar quando começa a morar R$ 400 por mês, por exemplo. O que equivale o preço de um barraco em diversas favelas do Rio de Janeiro.
Qual é a população das favelas do Rio?
– Nós temos 750 favelas. E 1,2 milhão de habitantes mais ou menos. Se você vira para um morador e diz você está pagando R$ 400 de aluguel nessa sua casinha. Vou te oferecer um apartamento de dois quartos onde você vai pagar a mesma coisa que paga por este aluguel ou um pouco menos e daqui a 20 anos esse apartamento é seu. Você vai ter o título de propriedade.
Molon responde a perguntas de leitores do JB Online
Werkes Paulino da Silva, RJ: Sou evangélico e espero que vocês da esquerda se unam, pois temos três bons candidatos. Meu voto é seu, mas fica ai o meu apelo.
- No segundo turno com certeza a gente vai ter apoio da esquerda. Mais do que a minha vontade, o que vai pesar é a decisão do partido, a nossa decisão vai ser uma decisão partidária. Naturalmente a minha tendência é de apoiar um candidato de esquerda que vá para o segundo turno, caso eu não vá, mas isso tem que ser discutido com o partido.
Carlos, RJ: Prezado Molon, qual será sua postura com os auxiliares de controle de endemias que tanto trabalham sem nenhuma estrutura e comandos ineficientes?
- Os agentes de endemias foram desprezados e mal-tratados pelo prefeito e o preço que a cidade pagou foi a morte de dezenas de pessoas por causa da dengue. Nós vamos dar infra-estrutura, apoiar o trabalho dos agentes de endemia e ao mesmo tempo organizar o trabalho. O exemplo que eu dei dos laboratórios interconectados para secretaria municipal de saúde é um exemplo de organização, de estrutura para o trabalho que eles não têm hoje em dia. Pode ser com palmtops. A tecnologia hoje é uma grande aliada do avanço do poder público brasileiro.
Arthur Perez, RJ: Quais são as deficiências do sistema educacional do município?
- As notas do Rio no Ideb estão muito aquém das suas possibilidades. Esse exame que o ministério da educação faz para conferir a qualidade do ensino mostra que o Rio está mau em relação a outras capitais e regiões metropolitanas – e poderia estar muito melhor. Primeiro lugar: qualidade na educação. E como se faz isso? Com profissional da educação motivado, com recuperação salarial, condições de trabalho. Por exemplo: o agente educador, que é o antigo inspetor. Não é possível que uma escola com mil alunos sem inspetor, a escola não funciona. Terceiro ponto: formação continuada do profissional de educação. Os professores, por exemplo, saem das faculdades e não têm a oportunidade de voltar a estudar. Isso é um problema do município, qualificar a sua mão de obra. Isso é um problema do empregador, não é só o empregado que tem que correr atrás de curso, de ler, para estudar, é um problema do empregador se ele quer melhorar a qualidade do seu serviço. A educação também tem que pensar assim. A prefeitura tem que garantir formação continuada para os profissionais de educação para que eles possam oferecer um serviço cada vez melhor e isso não tem sido feito. Quarto ponto: aprovação automática. O prefeito impôs a aprovação automática como se fosse resolver os problemas da educação municipal. Foi uma lástima, feito da maneira errada, da forma errada, desestimulando os alunos. Hoje eu encontrei um no Saara que disse: "Prefeito, acaba com a aprovação automática. Isso é uma vergonha para a gente". Ele sabe que isso afeta a qualidade da sua educação. Quinto ponto: creches. A nossa menina dos olhos para a educação.
Ricardo Melchiades, RJ: Sou trabalhador informal e com muita dificuldade e jogo de cintura, levo o pão de cada dia para minha família. Digo isso, devido ao rigor da GM que até agride trabalhadores informais. Como o senhor pretende agir?
- É preciso distinguir e separar o camelô que vende produto artesanal, que vende algo fabricado por ele, do camelô que vende produto pirata. Essas coisas são completamente diferentes na minha opinião. Uma coisa é o comércio ambulante que prejudica o trânsito nas calçadas, que cria uma série de embaraços para vida da cidade; outra coisa é o comércio do produto pirata que não pode ser admitido. Isso é um problema do Estado. O governo estadual tem que resolver isso. Isso tem que ser enfrentado. Isso é um problema. Não se deve resolver pela fronteira, porque o produto pirata se faz aqui no Rio de Janeiro. Eu não estou falando do contrabando, estou falando da pirataria, isso é um problema sério. Outro problema é o comércio ambulante de alguma coisa que não é falsificada, não é mercadoria roubada, mas que cria transtornos para a vida da cidade. A proposta que nós temos é de mercados verticais, aproveitar prédios desocupados, por exemplo no centro, para que em prédios cedidos à prefeitura sejam organizados mercados verticais de comércio ambulante desses tipos de produto. A regularização do comércio é positiva para todo mundo. Para o comerciante que passa a ter uma existência formal, legal, que passa a poder ter crédito por conta disso. Então nós vamos ter uma proposta de formalização, de organização desse comércio. Do comerciante que trabalha com produto legal, que não é ilegal, que não é pirataria. Por exemplo fabricação de bijuterias, isso não é ilegal, mas é informal. E nós vamos trazer para a formalidade. De que jeito? Construindo esses mercados verticais, dando acesso ao microcrédito. Essa formalização passa pelo microcrédito, por um convênio com o Sebrae para ensinar aos comerciantes a tratarem isso como negócio, a fazerem fluxo de caixa, plano de negócio, um modelo simples para microempresários, para trazer essa turma para a formalidade. Isso é bom para todo mundo. É bom para ele, é bom para a cidade e bom para quem quer transitar livremente no Centro.
[18:05] - 02/08/2008