Pedro Vieira, Jornal do Brasil
RIO - Fiscais começavam a recolher propaganda irregular no início da comunidade quando tiveram de ir embora.
O fantasma dos currais eleitorais voltou a assombrar a eleição carioca - só que, desta vez, as vítimas foram os próprios homens do TRE e não candidatos impedidos de entrar em comunidades 'fechadas'.
Comandados pelo coordenador de fiscalização do órgão, Luiz Fernando Santa Brígida, 10 homens foram à na Cidade de Deus para tentar dar um pouco de ordem ao local, mas ficaram lá por menos de uma hora.
Ao estacionarem na praça, logo na entrada da favela, receberam o aviso dos olheiros: ali, ninguém podia mexer na propaganda.
O jeito foi limpar a área externa de um galpão abandonado e sair do local escoltado pela PM antes que as ameaças se transformassem em realidade.
– Vou chamar o dono da boca. Vai todo mundo pro “pneu” – dizia uma menina, que encarava a comitiva como se fosse ela a autoridade.
– Aqui vocês não mandam, não.
A operação começou às 9h e o objetivo era limpar Jacarepaguá. Por onde passavam, dezenas de placas ilegais eram recolhidas a golpes de foice e serra elétrica. Chegando na Cidade de Deus, o TRE se deparou com uma praça cheia de cartazes irregulares.
Eram placas sem ninguém tomando conta, presas em árvores e galhardetes em que o número do candidato sequer aparecia. Quando um dos fiscais do órgão tentou iniciar seu trabalho, a chapa literalmente esquentou.
Recados e nervosismo
Quatro galhardetes foram retirados e, à medida em que a população que estava na praça se dispersava, aumentava o medo e a insegurança.
Enquanto 77 placas eram retiradas do galpão abandonado, os fiscais, nervosos, apressavam a operação. As meninas do tráfico, que ameaçaram a comitiva, rodeavam o local, acompanhadas de outras pessoas da comunidade.
Era possível observar que diversas placas irregulares do candidato a vereador Marcelo Piuí (PHS) invadiam a favela, mas a fiscalização não ousou ultrapassar os limites da praça.
Segundo o chefe de fiscalização do TRE, Luiz Fernando Santa Brígida, uma outra operação da Polícia Militar (PM), ao mesmo tempo, atrapalhava o trabalho.
– As vezes encontramos dificuldades para entrar em algumas comunidades, mas isso é contornável. Hoje, com essa operação da PM, as pessoas aqui estão alvoroçadas – tentava explicar Santa Brígida, admitindo a vulnerabilidade de sua equipe diante do poder paralelo.
– Para entrar lá precisaria de reforço da PM.
Outras placas do peemedebista Eduardo Paes, único candidato à prefeitura a ter material irregular apreendido, atrasavam o trabalho do TRE.
Os candidatos a vereador, Professor Célio Luppardi (DEM), Luiz Antônio Guaraná (PSDB), Charbel Zaib (PDT) e Eider Dantas (DEM) também poluiam a vista ocupando totalmente a fachada do galpão. Apesar do elogio de algumas pessoas que passavam, os fiscais não escondiam a preocupação.
– Vamos agilizar. Aqui está perigoso – avisava um fiscal, apressando a comitiva.
– Já conversei com um olheiro do tráfico aqui e avisei que não queríamos confronto, só fazer o nosso trabalho.
Depois de limpar a fachada do galpão, o comboio do órgão foi para o outro lado da praça, retirar, rapidamente, mais duas placas de Marcelo Piuí e uma de Róbson Leite (PT). Em seguida, entraram nos carros do TRE e saíram escoltados por duas viaturas da PM armadas com fuzis.
[00:08] - 02/08/2008