Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil
RIO - Assumindo-se um artista prestigiado pelo universo gay, o cantor e compositor Sam Sparro
une soul 70 e experimentações
e abre uma nova janela para o pop: “Sabia que seria algo grande”
Desde que a psicodelia pop e a soul music setentista explodiram unidas pela voz potente do cantor Cee-lo Green, a bordo do hit Crazy – talhado há dois anos pela outra metade do Gnarls Barkley, o produtor Danger Mouse – FMs mundo afora definham sedentas à procura de uma canção que a pudesse substituir à altura e com impacto semelhante.
Ao apostar em estética musical similar, coube à imprensa inglesa destacar o poderio vocal do cantor australiano Sam Sparro e lhe determinar a incumbência de trazer de volta às pistas de dança e às paradas de sucesso boas referências musicais em formato pop.
Sem falsa modéstia, o cantor toma para si o posto de intérprete oficial de um dos maiores hits do ano, Black and gold. Descartando fórmulas vazias e requentadas, Sparro caiu nas graças de produtores como Mark Ronson (Amy Winehouse), do radialista Zane Lowe e da imprensa especializada que lhe reserva a alcunha de Prince Século 21.
– Assim que comecei a escrever a canção, sabia que seria algo grande e que representaria muita coisa para mim. Talvez isso soe arrogante, mas meu instinto sempre foi dos melhores.– revela Sam, adepto convicto de clubs, em entrevista ao Jornal do Brasil. – Ouço de tudo, de jazz à new wave, passando por disco, electro, r&b, além de bandas punk. Aliás, cheguei a tocar em algumas.
"Black and gold" é o carro-chefe de seu álbum de estréia, batizado com seu nome e lançado em março (sai no Brasil 19 de agosto). A faixa chegou ao topo dos charts oficiais da BBC.
Branquelo de traços firmes e ornamentado, invariavelmente, por roupas coloridas oitentistas ou modelitos de corte refinado, Sam Sparro sustenta o ar blasé indie-fashion que o transformou em ícone do universo gay, ao qual assumidamente se insere.
– Sempre acreditei que muita coisa iria acontecer na minha vida, mas obviamente passei por um período de incertezas. Quando compus Black and gold, por exemplo, não cheguei a estar deprimido, mas, sim, confuso, pois servia cappuccinos em vez de cantar sobre palcos. Parecia que minha vida não iria dar em lugar algum – lembra.
Fruto da quinta geração de músicos de sua família, Sam é neto de um trompetista de jazz – que, entre outros, acompanhou Frank Sinatra – enquanto seu pai, o compositor e guitarrista de blues Chris Falson, prestou-lhe o favor de encharcá-lo, desde os 10 anos, na tradição gospel dos corais americanos.
Foi numa dessas reuniões que seu talento vocal de graves arredondados e agudos precisos foi descoberto pela diva soul Chaka Khan, que, surpreendida, disparou: “Damn, that white boy can sing”!.
– Fui moldado pelos caminhos do jazz e da soul music, já que em Los Angeles meu pai me levava para as igrejas. Mais tarde fiz a conexão destas linhagens com o hip hop e o dance – conta.
Hype, rádio e web
Produto de uma era em que a velocidade da informação ignora e descarta artistas com a mesma rapidez em que cria mitos de última hora, Sparro afirma não se incomodar com a deglutição voraz da geração Web 2.0 e muito menos com todo o hype dispensado à sua meteórica carreira.
– É importante para a minha música estar disponível para todos.
Perguntado sobre as perspectivas de um mercado fonográfico cada vez mais esvaziado, ele é taxativo e da ponta de sua língua deixa escorregar uma solução palpável:
– Acho que o Myspace, o YouTube e sites do gênero deveriam pagar royalties aos artistas. Isso é mais do que justo, já que minha música serve como isca para que as pessoas sejam expostas aos produtos anunciados.
Cria da internet, mas, rapidamente, cooptado e catapultado às principais ondas digitais ou não de rádio, Sparro não esconde seu desapego das FMs, onde, mesmo assim, tem prestígio.
– Apenas há poucos meses passei a ouvir rádio novamente – diz o músico. – Sinto-me um tanto quanto desprendido e distante da música considerada comercial. Mas, por curiosidade, fui checar e procurar saber o porquê e junto a quem minha música estava acontecendo e dando as cartas nas rádios.
Gravado em Los Angeles entre dezembro de 2007 e janeiro de 2008 pelos produtores Paul Epworth, Richard X e Jess Rogg, seu álbum de estréia é ponto culminante de mais de cinco anos de experimentações e muito material pré-gravado e testado.
– Comecei compondo e pré-produzindo no estúdio que tenho em meu quarto. Depois levei o material para o estúdio do Jesse Rogg e, depois, cerca de quatro ou cinco canções acabaram sendo formatadas em parcerias com alguns dos melhores produtores ingleses. Gostaria de passar muito mais tempo em estúdio para produzir meu próximo álbum.
Inspirado por artes visuais, o que inclui cinema, design gráfico e moda, ele faz questão de enumerar os estilistas que determinam seu estilo cool, entre eles fashionistas pop como Jeremy Scott, Ksubi, Henrik Vibskov.
– Amo a conexão que podemos estabelecer entre música e cinema. Acho que, por isso, me envolvo tanto no aspecto visual da minha arte, seja quando eu resolvo me vestir, fazer o design de algo, ou quando contrato alguém para fazer um trabalho. Tive algumas pequenas batalhas para garantir que minhas idéias fossem postas em prática no aspecto visual da coisa, mas ao final do processo tudo se acertou.
Mais interessado em falar sobre design, moda e artes visuais do que sobre os temas e as questões que influenciam sua produção musical, o cantor deixa para os fãs e a crítica especializada a tarefa de lidar e interpretar as circunstâncias do existencialismo pop de suas letras.
– Escrevo apenas quando sinto que tenho algo a dizer. Qualquer coisa, algo que esteja nos comentários da sociedade de forma geral, questões internas que tocam minha alma e essência, até sobre coisas ridículas e triviais, como ficar doidão.
[00:12] - 25/07/2008