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Argentina: renúncia aprofunda crise política

Jornal do Brasil

BUENOS AIRES - Saída do chefe de gabinete marca tendência que impõe mudanças à gestão de Cristina

A crise aberta pela mais amarga derrota sofrida pelo Executivo no Senado – que vetou um projeto de lei de taxação sobre os grãos – se aprofundou ontem com a renúncia apresentada pelo chefe de gabinete, Alberto Fernández, que declarou que devia dar o primeiro passo para abrir uma etapa de mudanças profundas no governo.

A necessidade não era considerada pela presidente Cristina Kirchner, que insiste em manter o status quo de sua gestão, avaliam analistas, sublinhando que o governo deve sofrer mais baixas nos próximos dias.

Para substituir Fernández, que durante quatro meses atuou como homem-chave nas distintas fases do conflito com o campo, a presidente nomeou o ex-chefe da agência de seguro social do país, Sergio Massa, que trabalha com os Kirchner há quatro anos.

Antes de Fernández, o governo viu a saída de outro importante aliado, o ministro do Planejamento Julio De Vido, “uma tendência que desafia o casal Kirchner”, ressaltou ontem o colunista do La Nación , Joaquín Morales Solá:

“Os dois foram colunas essenciais da administração kirchnerista, que nunca encontraram uma solução para este problema, certamente difícil”, avaliou.

O ex-presidente, Néstor Kirchner, se negava a aceitar a decisão do ministro, se conta nos bastidores. Um novo gabinete poderia trazer figuras novas, não acostumadas a freqüentar o ex-mandatário, e sem conhecimento dos códigos necessários que regulam a relação do casal presidencial.

– Alberto é como a rolha de uma garrafa de champanhe. Se não sai, a bebida está tranquila e serena debaixo da rolha – ilustraram amigos de Fernández. – A única que não se pode mudar é a presidente. Mas deve mudar seus colaboradores para que tenha a oportunidade de relançar seu governo.

Em sua carta renúncia, Fernández conta que desde 2003, quando assumiu o cargo ainda no governo de Néstor, colocou sua “mais absoluta convicção de que estava protagonizando uma profunda mudança da realidade argentina”:

“A certeza de que se abre uma nova instância no governo, me impulsiona a colocar em consideração minha renúncia com o sano propósito de facilitar a seleção de seus colaboradores”, escreveu.

Para além de Fernández, crescem as versões sobre outras modificações no elenco ministerial. Outras mudanças poderiam incluir o secretário de Comércio Exterior Guillermo Moreno, o ministro da Justiça Aníbal Fernández e o secretário geral da Presidência, Oscar Parrilli.

“Os Kirchner não esperavam que seu isolamento fosse ocorrer tão rápido”, escreveu Joaquín Solá.

Diante do quadro, Massa, o novo chefe de gabinete, evitou assumir a responsabilidade de que sua entrada no governo signifique uma “oxigenação” para a gestão de Cristina:

– Não sei se oxigênio, o que tenho claro é que a chave é conseguir transformar esta sensação de oxigênio além dos primeiros dias e com meu trabalho. Sou um menino de 36 anos que tem a possibilidade de colaborar com uma presidente que tem a vocação de transformar – disse um Massa relaxado e sorridente, reconhecendo que um de seu principais desafios é o de reforçar o diálogo com governadores, prefeitos e legisladores, um pedido feito por Cristina no encontro que tiveram na manhã de ontem.

Massa esteve no governo durante os quatro anos do mandato do marido de Cristina. Em dezembro, assumiu a prefeitura de Tigre, na província de Buenos Aires.

O novo chefe de governo cultiva a intimidade dos Kirchner. Pertence ao elenco estável dos fins de semana de Olivos, onde além de jogar futebol, compareceu nos últimos anos à lições semanais sobre os critérios com os quais o casal administra o poder e o governo.

[00:00] - 24/07/2008