Jornal do Brasil
BELGRADO - Barbudo e de óculos, Karadzic vivia em subúrbio de Belgrado e atendia em clínica psiquiátrica
O ex-dirigente sérvio-bósnio Radovan Karadzic, preso para ser julgado por genocídio e crimes de guerra, vivia disfarçado em Belgrado e praticava medicina alternativa. Karadzic está irreconhecível: muito magro, de óculos, com uma longa barba branca e uma vasta cabeleira. Ele foi preso quando “se deslocava de um lugar para outro”, disse a polícia, sem revelar o local exato.
– Karadzic usava documentos falsos sob o nome de Dragan Dabic – confirmou Rasim Ljajic, representante do governo sérvio para a cooperação com o tribunal de crimes de guerra da ONU em Haia.
– Ele foi muito convincente em ocultar sua identidade, ganhava a vida praticando a medicina alternativa, trabalhava numa clínica particular.
O ex-presidente é formado em medicina e se especializou em psiquiatria. Sob o codinome de Dragan, chegou inclusive a dar palestras em centros comunitários.
Mas antes de trabalhar na clínica, escapou da polícia várias vezes: fingiu que era um sacerdote sérvio ortodoxo e também se escondeu em montanhas em monastérios no leste da Bósnia.
Seu último endereço conhecido foi o subúrbio de Nova Belgrado, bairro da capital, local de condomínios residenciais de classe média e conhecido como reduto do partido de extrema-direita da Sérvia.
– Ele andava por aí livremente, até aparecia em lugares públicos. Quem alugou o apartamento para ele não conhecia sua verdadeira identidade – revelou o promotor Vladimir Vukcevic.
Vukcevic ressaltou que as autoridades não vão divulgar mais detalhes sobre a prisão, para não atrapalhar a captura de dois outros criminosos de guerra ainda foragidos – um deles era o braço direito militar de Karadzic, Ratko Mladic.
O ex-presidente da República Sérvia da Bósnia foi indiciado em 1995 por crimes cometidos durante a guerra de independência (1992-95) bósnia, que lutava para impedir.
Uma das acusações mais graves diz respeito ao massacre de 8 mil homens e meninos muçulmanos na cidade de Srebrenica. Também era procurado por seu papel no cerco a Sarajevo, que durou 43 meses e no qual morreram 10 mil civis.
– Ele foi interrogado durante a noite. Sua identidade foi confirmada e ele foi entregue para o indiciamento. Karadzic estava se defendendo principalmente com o silêncio – disse o promotor.
Pressão da UE
O motivo de a prisão ter acontecido apenas agora não foi revelado. Mas há algumas semanas, no dia 7, uma nova coalizão governamental, pró-Ocidental, foi formada na Sérvia, com o objetivo principal de fazer o país entrar na União Européia.
A UE, no entanto, deixou claro que entregar os criminosos de guerra ao Tribunal de Haia é pré-condição crucial para o reconhecimento da candidatura sérvia ao maior bloco econômico do mundo.
As autoridades européias também eram sempre críticas ao fato de Karadzic continuar em liberdade.
Na semana passada, forças de segurança foram ao apartamento de Ljiljana Karadzic, mulher do ex-presidente. Lá, apreenderam documentos e materiais com pistas. Casas de outros conhecidos aliados do “Carniceiro de Belgrado” também foram revistadas, há algumas semanas.
Então, na segunda-feira, policiais à paisana começaram a seguir Karadzic por horas, desde meados da tarde até a noite, quando foi dada a ordem de prisão. Há rumores de envolvimento de um serviço de inteligência estrangeiro na operação, mas o governo da Sérvia nega.
No entanto, o advogado do ex-dirigente afirma que a polícia está mentindo. Sveta Vujacic garante que seu cliente foi detido na sexta-feira, e não na segunda, por volta das 21h30, e que foi mantido sob cárcere, em sigilo, por três dias.
– Ninguém parece saber quem o deteve de verdade. Kardzic conta que umas pessoas mostraram a ele um distintivo da polícia e o levaram para algum lugar, na sexta. Ele foi mantido num quarto, de olhos vendados. É absolutamente contra a lei o que estas pessoas fizeram – critica.
A Justiça já aceitou a extradição do ex-presidente para Haia, mas a defesa vai entrar com um recurso, que será julgado em três dias. A sentença final deve levar outros três dias, depois que o colégio de juízes do tribunal que julga os crimes de guerra em Belgrado se pronunciar sobre a extradição. Depois, o acusado não tem direito a outra apelação e o Ministério da Justiça pode tomar a decisão de enviá-lo ao TPI.
No entanto, Vujacic contou que também vai entrar com uma investigação criminal para apurar a prisão de Karadzic.
O Tribunal de Haia ainda procura, além de Mladic, o ex-líder dos sérvios na Croácia, Goran Hadzic.
[00:06] - 23/07/2008