Lei seca mesas de bares no Subúrbio

Clara Passi, Jornal do Brasil

RIO - A Lei Seca tornou áridos alguns dos mais emblemáticos bares da Zona Norte e da Baixada. A sinfonia dos copos foi calada pela queda na venda de chope estimada em 40% - percentual comum a todas as capitais brasileiras, estima a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). A diminuição do movimento, a violência endêmica e a alta dos alimentos causada pela inflação enforcam estabelecimentos que se valem dos barris, serpentinas e petiscos. A tolerância zero já causa demissões e ameaça a sobrevivência de quem vê, a cada fim de semana, as cadeiras esfriarem com a ausência da clientela vinda de outros bairros.

– Com as vias facilitadoras de acesso, como as linhas Vermelha e Amarela, esses bares ganharam vigor por causa do trânsito livre de pessoas da Zona Sul e vice-versa. A liberdade foi cerceada: toma-se um copo de vinho ou chope, ou mesmo come-se bombons de licor e acaba-se multado – vocifera Marcio Silmar, diretor executivo da sede da Abrasel do Rio de Janeiro. – O impacto é sentido da mesma forma em toda a cidade. Os bares estão fazendo um esforço hercúleo para não repassar o prejuízo para clientes ou cortar funcionários. A Lei Seca virou uma máquina de arrecadação de multa.

A Abrasel se ampara em números do IBGE para denunciar a crise por que passa um dos segmentos mais representativos do país. O setor de bares, restaurantes e similares gera 6 milhões de empregos (2,4% do PIB nacional), ultrapassando a construção civil.

– Não dá para sofrer com 40% de queda no consumo por causa de uma questão que diz respeito única e exclusivamente ao governo, que deveria investir em programas de educação no trânsito. Bares estão fechando todos os dias. A saída para o consumidor é não beber. Moro na Barra e não me vejo entrando numa van depois de um jantar com minha esposa e tomar vinho. Mas qual é a saída para os donos de estabelecimentos? – questiona Silmar.

Driblando a crise

A resposta é dada de improviso. Vale engordar o estoque de cerveja sem álcool, como a Liber, da Brahma – saída encontrada por Marcelo Oliveira, dono do bar Abracadabra, em Nova Iguaçu. Oliveira viu pedidos improváveis de suco de laranja aumentarem muito onde antes reinava o álcool. A bebida inócua que só enchia copinhos agora chega às mesas às jarras.

– O movimento diminuiu, mas o consumo despencou e há até mesas em quem ninguém bebe. O consumo de cerveja sem álcool aumentou absurdamente – constata. – Antes, uma caixinha de long neck durava uma semana e só servia para agradar a raros clientes. Agora três caixas se esgotam em três dias.

Embora sinta o ressecamento na caixa registradora, Oliveira diz não ter ouvido falar de muitas blitzes com bafômetros em Nova Iguaçu. Mas bastam os rumores.

Quem tem capital para investir faz como o Petisco da Vila, de Vila Isabel: firma convênio com cooperativa de taxi local – até o dia 30 deste mês o bar arca com 50% do valor da corrida de fregueses que morem no bairro e cercanias: Tijuca, Méier, Maracanã, Grajaú, Rio Comprido, Praça da Bandeira e São Cristóvão. A casa colocou até mesmo um motorista de plantão para conduzir clientes embriagados no fim da noite.

– O movimento diminuiu assustadoramente – lamenta Cezar Rezende, dono do bar da Amendoeira, em Maria da Graça. – Na quarta-feira, os barris de chope que comprei no sábado da semana passada ainda não haviam acabado. Não consegui vender nenhum. O prejuízo vem aí, porque chope tem prazo de validade.

Os happy-hours de hoje, ao contrário de um passado bem recente, não têm nada de feliz para o dono do amendoeira.

– As pessoas estão indo direto para casa. Estou pensando seriamente em demitir gente para contornar a crise. Ainda tenho "gordura" para queimar, mas a gordura de um bar da Zona Norte não é como a de um bar da Zona Sul, por exemplo. Acaba logo.

Outras matérias

» Chinesa desaparece depois de trocar dinheiro em casa de câmbio

» Áreas da Cobal são tombadas pela prefeitura

» Sobrado onde Machado de Assis viveu em 1874 será tombado

[ 21:06 ]   19/07/2008