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Ana Paula Verly, Jornal do Brasil RIO - Valorizar a arte como instrumento contra a violência crescente que domina a cidade. Este é o principal pedido que une 10 artistas ouvidos pelo JB. Apesar de reconhecerem que a Era Cesar Maia deixa um bom legado, com nove teatros, lei de incentivo e mais 15 espaços culturais, além da polêmica Cidade da Música, reclamam que o Rio não tem ainda um corpo de baile, um espaço para intervenções de arte contemporânea, concertos e centros culturais suficientes fora dos bairros da Zona Sul. Envolver artistas e público em programações que contemplem também as zonas Norte e Oeste é o que esperam os entrevistados. – O próximo governo tem que redimir o vexame que está aí há 10 anos. A arte não pode ser compreendida só como lazer e entretenimento – defende o cineasta e dramaturgo Domingos de Oliveira, para quem os teatros deveriam voltar a ser administrados pelos diretores, como na gestão de Luiz Paulo Conde. – Só assim os espaços adquirem uma cara, um perfil. A pedido do JB, o prefeito do Rio listou suas contribuições para a Cultura, ao longo dos 16 anos da Era Cesar Maia: “Criei uma rede de teatros, a lei de incentivo à cultura, 15 equipamentos para a área cultural etc”, disse, por e-mail. A rede à qual se refere Maia compreende nove teatros. No maior deles, o Carlos Gomes (685 lugares), o escritor e acadêmico Arnaldo Niskier gostaria de ver mais do que os musicais da programação. – Sugiro concertos para a juventude, para receber os alunos da rede municipal de ensino – propõe Niskier, considerando modesta a lei municipal de incentivo à cultura. Entre as realizações de Maia, destacam-se as 10 lonas culturais para shows e peças teatrais. A atriz Dira Paes gostaria de mais espaços como esses nos subúrbios. O roteirista e diretor João Falcão lembra que a carência de centros culturais e teatros públicos diminui a concorrência e encarece os ingressos. – Os poucos espaços que a gente tem são precários, perdulários – avalia Falcão. No caso das artes visuais, a falta de um local adequado acaba afetando as obras expostas nos espaços da prefeitura – a maioria instalada em prédios tombados pelo patrimônio histórico, como o Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho (Castelinho do Flamengo) e o José Bonifácio (Gamboa). – Espero espaços onde se possa quebrar o chão e furar a parede – diz a artista plástica Zalinda Cartaxo. A bailarina Ana Botafogo aproveita a construção da Cidade da Música para participar ao próximo prefeito que o lugar poderia abrigar um corpo de baile. Já o sambista Moacyr Luz critica o investimento em shows internacionais enquanto os artistas cariocas pedem apoio. – O carnaval de rua ainda é feito informalmente. Inventamos rifas de engradado de cerveja para botar um bloco na rua – lamenta. Marcelo Moutinho, escritor Estranho muito que os que pleiteiam ser prefeito continuem mantendo relações no mínimo questionáveis com a contravenção. Tenho visto candidatos fazerem beija-mão nas escolas de samba. Que tipo de governo a gente vai ter quando, desde a campanha, fica sinalizada essa relação? Sou contra delegar a responsabilidade de uma festa da dimensão do carnaval, que movimenta tanto dinheiro para a cidade. É ruim para a imagem do Rio. Torço para que acabe. O carnaval é a principal festa da cidade e cabe aos governos municipal e estadual organizar. Não entendo o tamanho poder que se dá à Liesa – objeto de vários questionamentos, sem uma administração transparente. No mínimo, gostaria de ouvir dos candidatos que vão colocar às claras a terceirização do carnaval. A gente não sabe para onde vai a renda do evento, como é feita a escolha dos jurados. É uma festa popular privatizada. Arnaldo Niskier, acadêmico O próximo prefeito precisa obter recursos expressivos para realizar um bom plano de cultura. Muitas empresas estão instaladas no Rio. Deveria existir uma espécie de lei de incentivo à cultura que estimulasse as empresas a investir, porque o retorno é certo. O Estado tem a lei do ICMS, e o municipio precisa de uma lei desse porte. A lei do ISS é muito modesta. Tem que ser uma lei de porte para conseguir mexer com o processo cultural. O plano de cultura do Rio deveria começar com uma parceria entre as secretarias de Educação e Cultura. O prefeito precisa ter a preocupação de envolver a rede municipal de ensino nos projetos culturais para que o Rio mantenha a posição de capital cultural do pais. É um título que precisamos reiterar. Sugiro promover a iniciação musical dos alunos da rede municipal, que é a maior da América do Sul, e ativar uma programação no Teatro Carlos Gomes, com concertos para a juventude. Dira Paes, atriz Espero a consideração de que a cultura é um gênero de primeira necessidade. Uma sociedade com acesso à cultura é menos violenta e desenvolve mais a cidadania. A cidade tem grandes potenciais. Temos que valorizar o que já possuímos e descobrir novas possibilidades para dar acesso às pessoas da Zona Norte. As lonas são uma idéia muita boa que precisam ser valorizadas e multiplicadas. Domingos de Oliveira , Cineasta e dramaturgo O próximo governo tem que redimir o vexame que está aí há uma década. Dez anos atrás, a Secretaria Municipal de Cultura era a coisa mais importante para o teatro. Foi a pioneira em distribuir os espaços teatrais entre os diretores, como se faz na Europa. Era uma rede ótima. Cada um movimentava o teatro como se fosse a própria casa, com programações relevantes, como também acontecia no planetário. Cada lugar tinha uma cara. O público sabia onde encontrar o alternativo, o comercial, a vanguarda. Tem que dar teatro e recurso para os diretores unirem suas turmas e seus grupos, como é no mundo inteiro. É a única forma de dar cara aos teatros do Rio. Se o prefeito quiser fazer mais, ótimo. Mas já bastava. Hoje, o teatro é uma casa sem dono. Tanto o Cesar Maia quanto o Cabral não dão bola para o teatro. O teatro está desamparado. A única coisa que retrata uma cidade é a arte que ela produz. Enquanto a arte for compreendida como lazer e entretenimento, nada vai acontecer de importante nessa cidade. Cismaram que artista é para divertir e enfeitar palanque. A arte é para refletir. A cultura deve ser a prioridade da prefeitura, mais até do que a segurança pública é para o Estado. É uma história controversa. Mas o certo é que só a cultura tem a capacidade de afastar a barbárie. Ana Botafogo Bailarina Gostaria que a Cidade da Música abrigasse uma companhia de balé. A dança está sempre ligada à música. Essa obra do Cesar Maia é um espaço que acredito ter capacidade de abrigar um corpo de baile do porte do que tem o Teatro Municipal. Temos muitos bailarinos profissionais e poucas companhia de balé na cidade. O Teatro Municipal não consegue ficar com todos os profissionais bons que se formam todos os anos. Também considero importante a prefeitura oferecer chances de as grandes empresas investirem mais em cultura. É preciso criar mecanismos para facilitar o investimento dos empresários nessa área. O Rio é um pólo cultural e turístico do Brasil. A cidade precisa efervescer de programas culturais e proporcionar espetáculos. E isso só é possível com investimento. João Falcão, Roteirista e direto O que me incomoda na administração pública no setor cultural é o ato de mudar tudo que foi feito e interromper processos no meio do caminho. Tem muita coisa a ser feita, mas seria bom que o próximo prefeito tivesse a sensibilidade de dar prosseguimento às coisas que não tenham sido criadas pela prefeitura dele. Não podemos mais ficar à mercê das vontades e dos atos políticos não administrativos. Gostaria de ver a recuperação e a melhoria dos teatros que já existem e a criação de novos espaços públicos para as artes. Zelar pelo patrimônio cultural que temos já é uma grande coisa. Vejo a cada dia esses espaços minguarem. Faltam ao Rio espaços eficientes. Os que temos são precários, poucos, perdulários e não atendem à cidade como ela merece. A falta de concorrência acaba encarecendo os ingressos.
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