Na peça 'Mistério na mansão', platéia vira personagem

RIO, Jornal do Brasil

RACHEL ALMEIDA - Assim como o belga Hercule Poirot, a colecionadora de arte Eva Klabin (1903-1991) gostava de usar a “massa cinzenta” para desvendar mistérios policiais. Quando não organizava eventos sociais ou viagens mundo afora para arrematar novas peças para sua coleção, gostava de se sentar numa confortável poltrona na sala inglesa de sua casa e ler os romances da dama do crime, Agatha Christie.

Inspirado nesse hábito, o autor e diretor Jonas Calmon Klabin (cujo avô foi primo de segundo grau de Eva) criou o espetáculo Mistério na mansão – O caso da cantora cantonesa, que estréia nesta sexta-feira, na Fundação Eva Klabin, a antiga residência agora revertida em museu, na Lagoa. Nos cômodos da mansão o público incorpora, ao mesmo tempo, o papel de personagem da história e de detetive.

– A Eva era uma notívoga – conta Jonas, gerente da Pequena Central, produtora do ator Marco Nanini. – Adorava passar as madrugadas lendo Agatha Christie com um copo de uísque na mão.

Eu também sempre gostei do gênero. Tanto da literatura quanto de jogos como Detetive ou Murder mystery dinner party.

Mais conhecido no exterior do que no Brasil, o último e elaborado jogo é o que mais se assemelha à proposta da peça. É uma simulação feita em reuniões sociais em que um dos convidados é o assassino e os outros jogadores têm o objetivo de descobrir quem é o bandido. Na encenação de Jonas, os espectadores, 35 por sessão, são convidados a jogar e desvendar os três enigmas propostos: que crime foi cometido, quem é o culpado e qual foi o motivo.

– A própria mansão já tem esse clima de mistério. Os ambientes são todos muito caracterizados. É como se você pudesse imaginar o coronel Mostarda sendo morto na biblioteca com um punhal – explica Jonas, referindo-se a personagem, arma e ambiente do jogo de tabuleiro Detetive

Público se divide na peça

O enredo foi inspirado no documentário Grey gardens (1975), de Albert and David Maysles, que virou musical da Broadway e revela o comportamento de Edith Bouvier Beale e sua filha Edie (tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis), que viviam isoladas numa mansão em East Hampton, Nova York. Na peça, a protagonista, Moça Menina Moiselle, vivida pelo ator Marcos Oliveira, abre sua casa para a celebração de seus 30 anos de casamento.

A festa também marca sua volta à sociedade depois de cinco anos de reclusão e luto pela morte da irmã. A celebração é interrompida por uma morte misteriosa.

O público deve se dividir durante a peça, acompanhando os atores. Além da cantora, estão em cena seu marido Hugo Moiselle (Andre Engracia), a governanta Ada Danha (Marília Medina), a filha Ana Menina (Paula Jardim) e o professor de música Tomás Crina (Thiago Chagas). Oliveira, o Beiçola do seriado A grande família, confessa que, ao ler o texto, estranhou.

– Fiquei apavorado! – brinca o ator, que na segunda-feira trabalhou 16 horas para dar conta de gravações e ensaios. – Achei uma loucura, com três cenas acontecendo ao mesmo tempo. Queria entender para onde eu tinha que ir! Depois, fomos compreendendo que temos um roteiro a ser seguido, mas vamos nos adaptando ao processo interativo da encenação.

Aos 29 anos, o autor e diretor é formado em literatura, cultura e cinema pela Universidade de Tulane, em Nova Orleans. Esta é a sua segunda peça e direção. A primeira foi uma espécie de treino seguindo o mesmo estilo de encenação de A cantora cantonesa, mas menos elaborada. Em 2006, montou Mistério na mansão: o caso do vaso perdido de Atlântida, com uma única apresentação semanal.

– A primeira tinha um caráter de jogo maior. A platéia tinha códigos para decifrar. – lembra o dramaturgo. – Agora, privilegiei o lado da interpretação e social. O público deve prestar atenção em imagens espalhadas pela casa, fotografias e trocar informações com outros espectadores-personagens.

Essa interação acontece em quatro ambientes do primeiro andar da casa: o jardim concebido por Burle Marx, o Hall Principal, a Sala Inglesa e a Sala de Jantar. Ao entrar no jardim, como se estivesse pisando num palco, o público deve escolher entre 25 personagens pré-definidos.

Os outros 10 serão “penetras” na festa, mas estão autorizados a dar palpites.

Durante a investigação do crime, os ativos espectadores vão conhecer parte do acervo de mais de 50 anos de colecionismo de Eva Klabin, nascida em São Paulo e primeira filha dos imigrantes lituanos Fanny e Hessel Klabin, que ainda tiveram Ema (que cultivava o mesmo hábito e disputava o título de melhor acervo com a irmã) e Mina. Seu pai foi um dos fundadores das indústrias de papel e celulose Klabin. A casa-museu, que oferece visitas guiadas, agendadas por telefone, reúne obras de Lasar Segall, Camille Pissarro e Botticelli e é um dos mais importantes acervos de arte clássica dos museus brasileiros.

– Não conhecia o acervo e fiquei impressionado – assume Marcos Oliveira.

– A sensibilidade e excentricidade dessa mulher deixaram um legado para a humanidade.

Para completar a história, um bufé vai ser servido aos interessados detetives.

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[ 00:01 ]   16/07/2008