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Somini Sengupta, Jornal do Brasil NOVA YORK - Vinte e cinco anos depois de acidente com fábrica que matou milhares, dejetos perigosos ainda têm de ser retirados e ninguém investigou quão fundo o material entranhou no solo e na água Centenas de toneladas de lixo ainda se degeneram dentro de depósitos com teto de zinco na esquina dos antigos terrenos da fábrica de agrotóxicos Union Carbide, quase 25 anos depois de um vazamento de gás venenoso que matou milhares e transformou a velha cidade num símbolo do desastre industrial. Os dejetos tóxicos ainda têm de ser retirados. Mais de duas décadas depois, salvo algumas checagens superficiais da agência ambiental estatal, ninguém investigou quão fundo o material entranhou no solo e na água, que surge nos poços da vizinhança com resíduos de pesticida em nível muito além dos permitidos. Tampouco alguém se preocupou com os interesses daqueles que beberam essa água e cultivaram jardins nesse solo e cujos filhos agora apresentam indisposições que vão desde lábio leporino até deficiência mental – uma segunda geração das vítimas de Bhopal – embora não se possa dizer com certeza qual a fonte de suas aflições. O porquê de se levar tanto tempo para lidar com o desastre é uma fábula épica da falta de efetividade e aparente apatia da burocracia indiana. O governo também não conseguiu fazer com que os donos da fábrica limpassem a confusão que deixaram. Mas a questão de quem paga pela faxina dos mais de 44 mil m² ganhou nova urgência num país que hoje deseja atrair capital estrangeiro. Foi aqui que, em 3 de dezembro de 1984, um tanque da fábrica despejou 40 toneladas de gás metil isocianato, matando aqueles que o inalaram enquanto dormiam. À época, esse ficou conhecido como o pior acidente industrial da História. Pelo menos 3 mil pessoas morreram imediatamente. Outras milhares morreram depois, com os efeitos tardios da exposição, de modo que não se sabe o número exato de mortes. Compensações Mais de 500 mil pessoas declararam ter sido afetadas pelo gás e pediram compensações de US$ 550. Algumas vítimas dizem ainda não ter recebido o dinheiro. As tentativas de extraditar dos EUA Warren M. Anderson, executivo chefe da Union Carbide (Associação dos Carburetos, em tradução livre), perduram, embora aparentemente sem muita energia. Advogados daqueles que moravam perto do local ainda caçam a empresa e o governo. Acorrentaram-se à casa do primeiro-ministro num dia e espreitam reuniões de acionistas, não deixando que Bhopal se torne uma tragédia esquecida na Índia. Insistem que a Dow Chemical Co., que comprou a Union Carbide em 2001, também adquiriu suas dívidas e deve pagar pela limpeza. – Se os restos tóxicos tivessem sido limpos, não haveria contaminação do lençol freático – defende Mira Shiva, médica coordenadora da Associação de Saúde Voluntária, um dos principais grupos a pressionar a Dow para que assuma as responsabilidades da limpeza. – A Dow foi um primeiro crime. O segundo foi a negligência do governo. A empresa afirma que não tem responsabilidade sobre a limpeza de algo que não tenha sujado. “Como nunca houve propriedade, não há responsabilidade nem dívidas para a tragédia de Bhopal ou suas conseqüências”, escreveu o porta-voz da empresa, Scot Wheeler. Wheeler alega que a antiga propriedade da fábrica, assim como os dejetos que continha, foram passados ao governo da província de Madhya Pradesh em 1998. E acrescenta que, mesmo que quisesse, a Dow não poderia financiar os cuidados, pois abriria um precedente para futuras responsabilidades da empresa.
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