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JB Online RIO - A promotora de Justiça Márcia Velasco divulgou na noite desta quarta-feira uma carta para a imprensa em que lamenta a morte de Daniel Duque, 18, morto no sábado na porta da boate Baronetti, em Ipanema, Zona Sul do Rio. Leia a carta na íntegra: "Tenho lido e assistido em silêncio angustiante, nos últimos dias, a incontáveis manifestações de revolta e indignação pela morte do jovem Daniel Duque. Manifestações justas, principalmente quando partem da mãe e do padrasto de um menino que teve sua vida roubada pela violência. No seu lugar, como mãe de um rapaz tão jovem quanto o filho dela, estaria me esforçando para não gritar de dor. O que pode acontecer de pior a uma mãe do que perder um filho na flor da idade? Mesmo sofrendo como estou, gostaria de dizer que não estou acostumada a ter momentos de fraqueza. Não posso me dar ao direito de tê-los. Tenho enfrentado, ao longo dos últimos anos, desafios que me foram impostos pela minha profissão, em defesa da sociedade, da população. O exercício da Promotoria de Justiça, nos dias de hoje, de maneira séria e honesta, exige de todos nós sacrifícios que só realizamos com muita determinação e coragem. É uma luta constante contra o crime, em suas mais variadas manifestações. Uma luta que, no meu caso, transformou uma mulher normal, tímida, sonhadora, feliz, um lindo filho pequeno, numa mulher determinada, implacável, em busca da justiça e da paz que todos nós queremos. Os caminhos desta luta me levaram a confrontar, como todos já sabem, os mais perigosos e cruéis bandidos do Rio de Janeiro e o maior criminoso da história do país, Fernandinho Beira-Mar. Os desafios apareceram, eu os fui enfrentando, um a um, sem jamais recuar e acho que hoje pago o preço muito alto que esta cruzada me cobrou. Este bandido voltou a me ameaçar. No último dia 19 de junho recebi nova comunicação de que ele, mais uma vez, disse que não descansará enquanto não me matar. São anos e anos de uma vida sem paz, uma vida de medo, minha e de meu filho, que cresceu sem poder ser como os garotos de sua idade, brincando, feliz. Sempre cercado de seguranças, Pedro cresceu e hoje me orgulho, e o pai dele também, de termos criado um rapaz com valores rígidos, com caráter, decência e honestidade. Mas Pedro sempre tentou ter uma vida mais próxima da normalidade, com todas as dificuldades que teve por causa de nossa situação. Fico triste ao ver que tantas pessoas o considerem um privilegiado por estar sempre protegido por um segurança. Na verdade Pedro é um prisioneiro, pela nossa condição de marcados para morrer. Com estas informações, não quero criar justificativas para nada. Quero dizer que o sábado 28 de junho foi um dos dias mais tristes da minha vida. Eu lamento do fundo do coração a morte do jovem Daniel Duque. Lamento profundamente a violência que se repete nesta cidade como uma rotina sufocante. Quero justiça, assim como todos. Quero que o policial que disparou a arma, e que nunca, em oito anos, havia usado a sua pistola enquanto prestava segurança para nós, sempre demonstrando autocontrole, seja julgado – e não pré-julgado - com o direito de defesa que se deve dar a todos. Direito que até o homem que quer nos matar, a mim e meu filho, está recebendo. Lamento pela violência que acaba se impondo e se traduzindo em nosso meio social, como que incorporadas de forma banal no meio de nossos jovens. É o que costumo chamar da convivência pacífica com a “cultura da ilegalidade”. Eu sei o que é a angústia de perder o sono esperando o filho voltar da rua. Sei disso porque toda a mãe sabe, como a mãe de Daniel sabia. Mas sei por um motivo a mais: estamos, meu filho e eu, diretamente ameaçados de morte. Há oito anos dei a minha paz e a do meu filho em defesa de uma cidade melhor, em que todos nós pudéssemos viver em paz e sem medo. Há oito anos não tenho vida, rotina, tranqüilidade e paz de espírito. Há oito anos convivo com o medo. Medo de ligar o carro e vê-lo explodir. Medo de ter minha casa invadida por cúmplices do criminoso que ajudei a prender. Medo de receber a notícia de que meu filho sofreu um atentado. Filhos não deviam jamais morrer antes dos pais. A morte de um filho contraria a lei natural na qual queremos sempre acreditar. Parece subverter o próprio espírito humano. Não há nada que se diga, portanto, que possa mitigar a dor de Daniela Duque e do seu marido. Espero apenas que, um dia, eles percebam que toda a história tem mais de um lado. Esta também. E pretendo fazê-la acreditar que, embora repita, nada que possa dizer neste momento vá atenuar a sua dor de mãe, como Promotora de Justiça, nos dezesseis anos de minha pública carreira, tanto quanto ela tenho apenas um anseio : DE JUSTIÇA. Desejo apenas que a verdade dos fatos venha à tona. E certamente ela virá. Rio de Janeiro, 01 de julho de 2008. Márcia Velasco"
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