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Ricardo Schott, Jornal do Brasil RIO - O violonista carioca Guinga não toca em rádio, vai pouco à TV e nunca vendeu muitos discos. Seu trunfo é o reconhecimento artístico – e é esse prestígio que faz com que um número significativo de artistas dedique CDs inteiros a releituras de sua obra. Aos discos de cantores e músicos como Leila Pinheiro (Catavento e girassol, de 1997, só com parcerias do compositor com Aldir Blanc), Marcus Tardelli (Marcus Tardelli interpreta Guinga, de 2005) e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi (Graffiando vento, 2005) se junta Carta de pedra, do Zé Nogueira Quinteto (MP,B/Universal), só com versões instrumentais de canções do violonista. Nogueira recuperou músicas conhecidas de Guinga, como a faixa-título (com Aldir Blanc) e Choro pro Zé, que o músico fez em sua homenagem, também com Aldir. – E encontrei um blues do Guinga, Pisando em falso, que é inédito e do qual ele nem se lembrava – diz Nogueira, feliz por homenagear seu ídolo e amigo. – É uma evolução, né? Fico contente em ver que tanta gente também está repassando a obra dele. O “tanta gente” citado por Nogueira é um grupo que cresce a cada dia, numa celebração que independe de datas comemorativas. O clarinetista Paulo Sérgio Santos, outro acompanhante do compositor, prepara um álbum só com seu repertório. O Coral Expresso 25, de Porto Alegre, vai pelo mesmo caminho e planeja lançamento parecido, assim como a Orquestra Jazz Sinfônica, o pianista Paulo Malaguti e a cantora Paula Santoro, que pesquisa o repertório do violonista – com direito a músicas inéditas – para um disco sem previsão de lançamento. – Quem mergulhar na obra dele tem que preparar a estrutura vocal – avisa a cantora, que diz ter reaprendido a cantar para interpretar a obra de Guinga. – Ela tem microdetalhes que você não acha em nenhum outro compositor. Outra homenagem a Guinga foi feita semana passada no Clube dos Democráticos, na Lapa, conhecido por suas noites de gafieira, e pode virar disco. O violonista Daniel Marques, do grupo Frevo Diabo, convidou amigos – entre eles o homenageado – para repassar a faceta dançante do repertório do músico. – As pessoas vêem o Guinga como um cara erudito, mas fazemos o público dançar com os baiões e forrós dele – diz Marques que, no CD, pretende ultrapassar fronteiras entre popular e erudito. – Vamos explorar um lado cru, sujo, da obra dele. Pôr guitarras, fazer um som pesado. Agradecido e até meio tímido, Guinga nem sabe o que falar diante de tantas homenagens. – Isso tudo é muito legal, fico lisonjeado – diz o violonista, que, dos discos de releituras de sua obra, ainda prefere o primeiro. – Catavento e girassol é maravilhoso, é o melhor disco com minha obra cantada. Leila também é, até hoje, maravilhada com o disco. – O Guinga considera esse CD como se fosse um álbum dele, o que é uma honra. E foi difícil fazê-lo, as gravadoras não conheciam seu trabalho na época – lembra. A inserção de Guinga no mercado fonográfico foi lenta e gradual. O compositor, que é dentista, teve sua primeira música gravada em 1973 (pelo MPB-4, que registrou duas parcerias com Paulo César Pinheiro, Conversa com o coração e Maldição de Ravel) e despertou a atenção da crítica especializada com Baião de Lacan, outra parceria com Pinheiro, que Elis Regina gravou em 1979. Mas só ficou conhecido fora do meio musical após a década de 90, quando começou a dar shows e a gravar discos solo. Hoje, além dos tributos feitos no Brasil, a obra de Guinga tem sido bastante relida fora do país. Além do CD do italiano Gabriele, Sérgio Mendes gravou Catavento e girassol no CD Encanto e, em dezembro, até a Filarmônica de Los Angeles releu sua obra em concerto no Walt Disney Music Hall, em Los Angeles, que deve virar DVD. Guinga participou do show com os amigos Paulo Sérgio Santos (clarinete), Jessé Sadoc (trompete) e Lula Galvão (guitarra). – Fui o primeiro brasileiro a tocar com eles. Para mim foi uma honra – alegra-se.
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