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Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil FRANÇA - Roxane Mesquida se lembra da primeira pergunta que ouviu da imprensa no Festival de Berlim de 2001, quando lançou por lá Para minha irmã, sua primeira contribuição para a polêmica diretora Catherine Breillat. A atriz francesa mal tinha completado 19 anos quando protagonizou o longa-metragem sobre a rivalidade entre duas irmãs, de forte conteúdo sexual. “Você não ficou receosa de trabalhar com uma cineasta que tem a reputação de fazer filmes eróticos?”, quis saber um repórter, referindo-se ao ainda controverso Romance (1999), co-protagonizado pelo ator pornô italiano Rocco Siffredi. – A resposta àquela dúvida ainda vale hoje: gosto da sensação do novo, de papéis que me levem a algum lugar – descreve a atriz de 26 anos, adaptando a resposta para o contexto de A última amante, seu terceiro filme com Catherine, uma das atrações de hoje do Panorama do Cinema Francês, em cartaz no Cine Odeon. Triângulo amoroso No filme, que chega ao circuito comercial na sexta-feira, Roxane interpreta um dos vértices de um triângulo amoroso, ambientado em meados do século 19. A última amante é uma adaptação de um romance de fundo autobiográfico escrito por Jules Barbey d'Aurevilly, que descreve as intrigas do casamento entre uma ingênua aristocrata (Roxane) com um jovem vaidoso e sedutor (Fu'ad Ait Aattou). Este não consegue se distanciar de sua ex-amante (Asia Argento), que não se conforma com o fim de um relacionamento de uma década. É o primeiro drama de época da diretora, que até então investia em histórias contemporâneas. E o menos ousado no sentido sexual da abordagem – o sexo existe, mas nunca explícito. Quando A última amante foi lançado nos cinemas da França, em maio do ano passado, logo depois de ter competido no Festival de Cannes, a crítica francesa chegou a cogitar se a diretora havia ficado mais “comportada”. – De modo algum – reage a cineasta, de 59 anos. – A sociedade francesa, que é muito fragmentada e estratificada, é fonte inesgotável para novos filmes. Minha missão, como realizadora, é continuar perturbando a moral francesa. O livro de D'Aurevilly, por exemplo, oferece a chance de observar o choque de valores entre a aristocracia decadente e liberal e a burguesia emergente e puritana. – A primeira coisa que me impressionou no livro, quando o li há uns 15 anos, foi o seu caráter romanesco, que, ao mesmo tempo, nos permitia olhar a transição moral de uma sociedade pelo lado de dentro – argumenta Catherine. A diretora vê o romance como uma versão menos perversa de Ligações perigosas, de Chordelos de Laclos, transformado em filme por Stephen Frears em 1988: – Os personagens de A última amante são mais puros. Não havia a figura da acompanhante para as jovens. Os aristocratas confiavam na educação que receberam e que repassaram a seus filhos. Eles acreditavam no amor, e não no casamento arranjado. Vê-se que a marquesa de Flers, avó do personagem de Roxane, já octogenária, não é uma reprimida. A produção exigiu um esforço extra do elenco feminino, pouco acostumado ao figurino de época. – Catherine nos obrigou a correr com as roupas de nossos personagens – conta Roxane. – Corremos até que nos sentimos confortáveis dentro de saias enormes e espartilhos sufocantes. A idéia era dar naturalidade a nosso andar e aos nossos gestos. Mais trabalhoso, no entanto, foi se acostumar com o francês da época em que a história é contada, que ficou intacto na adaptação desenvolvida por Catherine. – Acho que a linguagem, sim, foi o aspecto mais difícil do filme. Mais até do que o figurino ou as cenas de amor. Os diálogos era muito complexos. Às vezes, tinha a impressão de que estava falando um outra língua. Por outro lado, não bastava repetir as palavras, no intuito de absorvê-las. Fazendo isso, elas acabam perdendo o significado – lembra Roxane.
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