Souad Massi mistura Ocidente e Oriente em sua sonoridade acústica

João Bernardo Caldeira, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Pouco depois das 23h, a atração mais aguardada do Bridgestone Festival sobe ao palco do Citibank Hall para encerrar o terceiro e último dia do evento, anteontem, em São Paulo. Em seu primeiro show no Brasil, a argelina Souad Massi tem ao seu lado um time invejável de músicos expatriados de procedências diversas. Guiana Francesa, Senegal, Hungria... Do cruzamento de improváveis influências nasce uma sonoridade híbrida que não é africana nem ocidental, nem tradicional nem contemporânea, nem flamenco nem rock, mas uma mistura de tudo isso. Já são quatro discos lançados no exterior, três deles distribuídos pela Universal Music, que, procurada pela reportagem, informa não ter planos para lançá-los no Brasil. Mas basta digitar o nome da cantora no YouTube ou visitar o www.souadmassi.com.fr para conferir sua originalidade.

Apesar de atordoada com tantas informações novas, aos poucos a boquiaberta platéia vai se deixando hipnotizar pelo jeito simples e despojado da cantora. Não há como resistir às levadas contagiantes de suas músicas, à sua voz poderosa e macia e à forte presença de palco. Distante da fria Paris que escolheu para viver desde que deixou a Argélia, Souad também está à vontade, como há muito não se sentia.

– Depois de sete anos de cansativas turnês, há nove meses que não subo num palco. O único show que aceitei fazer foi esse no Brasil. Vim de coração aberto, porque aqui eu posso dizer “bom dia” tocando nas pessoas, sem que isso pareça estranho. Na Europa, sinto falta desse contato humano e dessa alegria de viver. Estou em casa – afirmou a cantora, em entrevista ao JB, horas antes da apresentação.

Aos 35 anos, Souad possui uma carreira consolidada, que hoje lhe permite tirar alguns meses de férias ao lado de sua filha de 2 anos e do marido e empresário, o marroquino Abdellatif Zamzem. Os primeiros sinais de reconhecimento vieram em 2002, quando foi indicada ao prêmio de artista revelação no conceituado BBC Radio 3 World Music Awards. Dois anos depois, ela se apresentaria no Womad, o badalado festival do cantor Peter Gabriel.

Antes de deixar seu país, Souad Massi estava longe de se tornar a mais renomada cantora da Argélia. Até o fim de sua adolescência, a cantora cresceu ouvindo o mesmo que qualquer jovem do Ocidente: Rolling Stones, Led Zeppelin e U2. Depois de uma rápida passagem por um grupo de flamenco, ela se firmou como vocalista da banda Atakor, fortemente influenciada pelo AC/DC. Sua mãe quase caiu para trás quando um dia descobriu que o conjunto do qual a filha fazia parte tocava rock pesado. Foram apenas as primeiras resistências que começou a enfrentar.

– Eu me sinto uma estrangeira em toda parte, mesmo em meu país. Quando você pensa diferente, as pessoas te olham como se você fosse um extra-terrestre. Uma menina de família tradicional como eu normalmente sonha em se casar com um rapaz com boa situação financeira. Mas uma garota que quer aprender a tocar guitarra e fazer karatê é taxada de doida, não é normal.

“Mulher não pode cantar rock”

No início dos anos 90, o preconceito se agravou ainda mais com a eclosão de uma guerra civil que matou mais de 100 mil pessoas no país islâmico, ex-colônia da França. O tom engajado de algumas letras da banda tornou a cantora alvo fácil de críticas e ameaças.

– Eu era insultada e recebia intimidações pelo telefone simplesmente porque uma mulher não podia cantar rock. Resolvi parar porque não tinha mais como viver de música na Argélia.

Souad decidiu então se dedicar à arquitetura, que havia estudado na faculdade. Depois de alguns meses trabalhando num escritório, chegou o convite para se apresentar num festival de cantoras de seu país que seria realizado em Paris, em 1999. Ela reuniu as músicas que compunha no violão e aproveitou para acentuar a levada folk de seu repertório, bem mas suave do que a agressividade característica do Atakor. Situada de vez na capital francesa, Souad começou a burilar a personalidade musical que possui hoje.

Depois de anos de dedicação ao rock, ela percebeu a importância de incluir as influências árabes e africanas em sua música, já presentes no álbum de estréia, Raoui (2001). Seguindo seu segundo trabalho, Deb (2003), a cantora chegou ao ápice em Mesk elil (2006). Sob a influência de sua primeira gravidez, Souad gravou um disco singelo, envolvente e irretocável, que finalmente resumia sua trajetória.

– Longe do meu país, senti necessidade de me aproximar das minhas origens. Só quando cheguei em Paris comecei a prestar atenção na música tradicional argelina. Eu fazia parte de uma geração que rejeitou a tradição e a própria cultura. A gente queria liberdade, queríamos viver como os ocidentais – conta a cantora, que lançou ainda um álbum acústico em 2007.

Com um passado de quem sofreu perseguições políticas, dá para entender por que a cantora opta por um certo estilo hippie sessentista. Na platéia do Citibank Hall, houve quem comentasse a falta de vaidade vista no vestuário simples. Souad é bonita, ultrapassa qualquer barreira cultural com o sorriso cativante e a espontaneidade, mas tem preguiça de se arrumar. Para não deixar a impressão de desleixada, apenas uma leve maquiagem.

– Bonita é a Cindy Crawford – responde a cantora, agradecendo o elogio. – Não estou aqui para posar de superstar, mas para cantar sobre as coisas que vivi e que me tocaram, para cantar o amor, a mulher e a Argélia.

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[ 21:08 ]   22/06/2008