Ex-Dzi Croquetes, Ciro Barcelos encarna entidade psicodélica

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - O ator, cantor e dançarino Ciro Barcelos sempre uniu experimentação pessoal e religiosidade. Filho do desbunde e da tríade sexo, drogas e rock'n'roll – nos anos 70 foi dos Dzi Croquetes, popularíssimo e irreverente grupo de dança – ele já teve grande sucesso com o musical São Francisco de Assis e agora está em cartaz com Santo Antônio do Brasil, em cartaz até amanhã, no Teatro Carlos Gomes, com possibilidade de estender a temporada. É uma peça religiosa, mas que acena para a irreverência de seu começo de carreira. O novo espetáculo de Ciro, que reúne músicas religiosas e populares (de autores como Jorginho do Império e Carlinhos Brown) sobre o santo, também é conhecido pelo subtítulo Um show sacrodélico.

– Ele é sacro, porque fala de um santo, tem músicas e textos em louvação a ele. Mas a inspiração é psicodélica – conta Ciro. – Nossos elementos são a tropicália, os anos 70, uma antropofagia brasileira. Fazemos uma viagem mostrando como o santo é louvado em todo o país.

Ciro fez a peça por encomenda dos freis do Convento de Santo Antônio, que comemora 400 anos. E só mostrou a eles o show, montado com o amigo compositor Flávio de Lira, na exibição do aniversário do Convento, dia 6, no Largo da Carioca.

– Eles gostaram bastante. Já me viram lidando com esse tipo de linguagem e me deram carta branca – conta Ciro. – Tive receio da reação do público, porque no espetáculo lido com o sincretismo religioso, pois Santo Antônio é Ogum na umbanda. Mas fui feliz nessa representação.

Ciro, que nasceu em Porto Alegre há 53 anos, aproximou-se mais da religião após os anos 80 e suas experiências viraram peças. O convívio com os hare krishnas e a filosofia védica, em 1988, rendeu uma peça de nome curioso, Canibais eróticos, encenada pelo Balé do Terceiro Mundo, que dirigia. São Francisco de Assis partiu de um dia que Ciro passou em Assis, na Itália, em 1995. Emocionado, o ator desmaiou ao visitar a tumba de São Francisco e foi ajudado por monges franciscanos. Acabou ficando seis meses num mosteiro.

– Vi que aquilo tinha que ser levado para o palco e fiz a peça em 1996 – diz ele, que não escapou de conflitos. – Pensei em ficar lá para sempre, mas me recomendaram que voltasse para minha convivência. Resolvi conciliar as duas coisas, para ver se era mesmo o que eu queria.

Ciro iniciou com atrações que, perto de Santo Antonio e São Francisco, soam pagãs. Aos 17 anos, quando ainda vivia com a família no Rio Grande do Sul, foi apresentado pela amiga Sônia Braga ao elenco da peça Hair, na qual ela trabalhava. Acabou saindo de casa e se integrando ao elenco. Logo em sua estréia na peça, uma pessoa do elenco lhe colocou uma pastilha de LSD, de surpresa, na boca.

– Foi uma abertura para minha mente – diz o ator, rememorando suas experiências com drogas – Fumei maconha e tomei muito ácido, mas depois dos anos 80 isso se exauriu. Sempre tive uma busca espiritual grande, desde a infância, e as drogas faziam parte da minha procura. Não me arrependo de nada e minha visão de religião não é algo discriminativo, preconceituoso.

O período dos Dzi Croquetes também foi intenso para Ciro. Criado pelo dançarino Wagner Ribeiro e dirigido e coreografado por Lennie Dale – americano que teve grande presença na música brasileira, da bossa nova ao tropicalismo – o espetáculo do grupo, homônimo, estreou em 1974 e causou polêmica por trazer um elenco de 13 dançarinos, que se apresentavam seminus ou travestidos. Por causa da censura, o grupo se radicou na França.

– No Brasil, chocávamos. Íamos com as roupas do espetáculo para fazer divulgação – diz Ciro, que sexualmente experimentou de tudo. – Vivi com homens e mulheres. Os relacionamentos na época eram abertos, não havia casamentos fechados.

Hoje ele prepara Lennie Dale – Um show de bossa, homenagem a seu mestre, que estréia em novembro no Rival.

– O Lennie criou a dança da bossa nova, ensinou o hábito de ensaiar para brasileiros. Quero mostrar o papel dele na MPB – planeja. – Vai depender de algumas coisas. Estamos fazendo por nós mesmos, sem patrocínio, como antigamente.

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[ 22:43 ]   20/06/2008