Grau de investimento: euforia foi passageira, dizem analistas

Portal Terra

SÃO PAULO - A conquista do grau de investimento (investment grade, em inglês) pelo Brasil na semana passada fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) batesse consecutivos recordes de alta e derrubou o dólar quase 3% só em um dia. Contudo, analistas prevêem que, se o governo não promover algumas mudanças estruturais na economia brasileira, esta euforia, que já arrefeceu, pode acabar.

Quanto ao mercado de câmbio, o diretor da NGO corretora de câmbio, Sidnei Moura Nehme, afirmou que o grau de investimento já estava precificado antes mesmo do anúncio.

- Aquilo foi euforia e se criou a perspectiva de que os investidores estrangeiros iriam vir pra cá e colocar muito dinheiro. Mas, quando aconteceu o investment grade, os efeitos já estavam precificados no mercado - declarou Nehme.

- A minha percepção é que o investment grade repercutiu muito mais no ambiente interno do que no externo. O fluxo todo não vem se confirmando. A enxurrada (de recursos) não aconteceu - completou.

Segundo ele, a moeda americana não deverá ser afetada e continuar sua trajetória normal, apresentada antes do investment grade. -(O dólar) vai ficar patinando nessa cotação, de R$ 1,69, R$ 1,70, chegando talvez até R$ 1,75. Ou seja, tudo como era antes - analisou ainda.

Para o economista e professor da PUC-SP Antonio Corrêa de Lacerda, os mercados acionário e cambial já se beneficiavam só com a perspectiva do grau de investimento. - Os investimentos estrangeiros diretos que não tinham restrição estatutária (impedidos de investir em países que não tivessem grau de investimento) já estavam por aqui - analisou Lacerda.

Lacerda apontou a elaboração de uma política industrial como fator importante para manter o ciclo virtuoso da economia brasileira. - Crescimento e investment grade não estão diretamente relacionados. Se não tiver um projeto próprio de desenvolvimento, não vamos para frente. A política industrial (que será anunciada na próxima segunda-feira), pelo que foi antecipado, vai na direção correta. Mas, ela sozinha também não pode resolver tudo - afirmou.

Mercado financeiro

O analista Fausto Gouveia, da Win Home Broker, afirmou que a forte alta da Bolsa de Valores de São Paulo nos três pregões pós-investment grade foi uma forma de o mercado ajustar seu preço ao novo "selo de qualidade" que recebeu. - Nós encaramos como um selo de garantia. Só pelo fato de você se qualificar a isso, seu preço sobe e há um ajuste interno para atingir esse patamar - explicou.

Marcelo Voss, economista-chefe da corretora Liquidez, diz que o fluxo mais intenso de investimentos deve demorar algum tempo para acontecer esperando justamente as ações do governo após a concessão da nota. - Em termos de bolsa, esse fluxo de recursos mais intenso vai acontecer em 2009. O fluxo ocorre mais de seis meses depois da concessão, porque é o tempo para os investidores verem o que o País faz com o investment grade. Alguns, como a Hungria, tomaram medidas ruins e quase perderam o selo - analisou Voss. Para ele, a burocracia estatal e a estrutura tributária são exemplos do que deve ser aperfeiçoado para o País manter a euforia dos últimos dias.

Mesmo com ajustes a serem feitos, os analistas crêem que ainda este ano mais uma agência deve conceder o grau de investimento ao País. - A Fitch deve colocar o Brasil como grau de investimento ainda este ano - previu Voss.

[ 13:24 ]   11/05/2008