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Cecília Abreu, JB Online
Familiares, amigos e pessoas portadoras de doenças degenerativas realizaram na manhã deste sábado uma manifestação na Praia de Copacabana, na altura do hotel Copacabana Palace, na zona sul do Rio. Eles fazem parte do Movimento em Prol da Vida e cobram do Supremo Tribunal Federal a decisão sobre a liberação ou não das pesquisas com células-tronco embrionárias.
Os manifestantes exibiram faixas com dizeres: 'Chega de adiar a cura', 'Senhores Ministros, minha vida depende do seu voto' e 'Liberem as pesquisas'. Eles ainda distribuíram panfletos e cartas aos pedestres, além de flor de Gérbera, que representa a causa.

A questão está no centro de um arrastado debate que opõe, de um lado, a igreja católica e do outro, cientistas, portadores de doenças graves e deficientes físicos. Neste sábado, as manifestações também ocorrem em outras três capitais - Fortaleza (CE), São Paulo (SP), além do Distrito Federal. O julgamento, interrompido no dia 5 de março, diz respeito à ação que pede a exclusão do artigo 5º da Lei de Biossegurança. O artigo permite a utilização em pesquisas de células-tronco embrionárias fertilizadas in vitro e não utilizadas.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Alberto Menezes Direito pediu o adiamento da sessão, sob o argumento de que precisava estudar a fundo o caso. Regimentalmente, ele tinha até 30 dias para devolver o processo e, assim, o julgamento poderia prosseguir. No entanto, ainda não se sabe quando o STF retomará.
- Queremos uma decisão do STF, não dá mais para postergar. Estamos aqui em favor da vida, a favor da causa embrionária para se chegar à cura de doenças como Mal de Alzheimer, Mal de Parkinson, Atrofias e Distrofias. Muitos dizem que estamos levantando a bandeira do aborto. Não é verdade. Nós só queremos colocar a lei de biossegurança em prática – afirmou um dos organizadores, José Carlos Borges, que tem um filho de 13 anos com distrofia muscular.
Ricardo Oliveira, de 38 anos, um dos manifestantes, afirma que além da igreja atrapalhar as pesquisas, as indústrias farmacêuticas também não querem a descoberta da cura para tantas doenças. Depois de levar um tiro num assalto, Ricardo perdeu parte dos movimentos e tem se dedicado a estudar por conta própria tudo que se relacione a neurociência.
- A medicina nunca mais será a mesma. Vai ser bem melhor a partir do uso das células-tronco. Eu sou católico e não concordo com a igreja. Vou lutar até o fim para sair dessa cadeira de rodas. Vou para o exterior, serei cobaia por lá. As poderosas indústrias farmacêuticas não têm interesse em encontrar a cura real. Isso tudo fica às escuras, ninguém gosta de comentar sobre o assunto. Mas todos os que estão engajados nessa causa sabem que lucra-se muito mais com pacientes comprando remédios caríssimos do que se os governos investirem em pesquisas para se encontrar a cura – declarou.
Por que usar células-tronco embrionárias e não as adultas?
A presidente da Associação Carioca dos Portadores de Distrofia Muscular (ACADIM), Maria Clara Migowski Pinto, ressaltou que as células adultas ficam comprometidas para os tratamentos.
- Eu me pergunto por que tanta polêmica em cima de células que não gerariam vidas, já que estão armazenadas em laboratórios há anos e seriam descartadas, jogadas no lixo? As células adultas já vêm comprometidas, por isso é necessário trabalhar com células embrionárias - declarou.
Normando Oliveira, de 38 anos, portador de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), salientou que as células-tronco humanas autólogas (do próprio indivíduo) não têm potencial para beneficiar pacientes com doenças degenerativas como a ELA.
- É parte de uma mutação. O gatilho foi ativado, então o DNA do paciente já está mutante. As células adultas não ajudarão, não levarão a formar novos neurônios, que é o que a gente precisa – enfatizou Normando, que é formado em ciências exatas e aposentado por invalidez.

População precisa de mais informações
Valéria Leite Soares, coordenadora da Associação Carioca da Distrofia Muscular, disse que é importante que a sociedade se informe acerca dos benefícios que as pesquisas podem trazer. José Carlos Borges, por sua vez, completou que é preciso abrir o campo aos cientistas.
- É uma luz no fim do túnel para a cura de muitas doenças. Temos que alertar a população, passar informações sobre o assunto e sobre a aprovação das pesquisas pelo Supremo Tribunal Federal. Nossos cientistas precisam começar a trabalhar com as células que serão descartadas pelas clínicas de fertilização. Estamos tentando mostrar ao povo brasileiro que podemos sair junto com outros países no que diz respeito à pesquisa – finalizou Borges.
Discussão: o início da vida
Os manifestantes frisam que não são contra a vida. São a favor do uso de células para fins terapêuticos a partir de embriões não utilizados, congelados entre o 3º e o 4º dia após a fertilização e que seriam descartados. Elas contêm todo o potencial para desenvolver novas células sadias.
Lembram que o desenvolvimento do Sistema Nervoso Central (SNC) se dá a partir do 14º dia após a fertilização e que os parâmetros para referenciar a morte se baseiam na falência desse mesmo sistema, ou seja, na “morte cerebral”.
Partindo do mesmo raciocínio, alegam que a utilização de células de embriões de 3 ou 4 dias não representa a cessação da vida, posto que ainda não haveria “Vida”, já que não teria se iniciado a formação do SNC.

Desde 05 de março sem previsões de retorno
O ministro Gilmar Mendes, que assumirá a presidência do STF neste mês, prevê que o julgamento seja retomado em maio. Os manifestantes deste sábado se reunirão na próxima segunda-feira às 14h, na Alerj, no centro da cidade.
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