Sirlei recebe solidariedade e se choca com agressões a prostitutas

Gabriela Lapagesse, Agência JB

RIO - Protagonista de um dos fatos que mais chocou o País nos últimos dias, a empregada doméstica Sirlei Dias de Carvalho Pinto, depois de ter sido agredida por cinco rapazes de classe média, na madrugada de sábado, em um ponto de ônibus na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio, diz que toda a raiva que sente está sendo parcialmente amenizada pelas demonstrações de solidariedade que tem recebido.

- Ontem à tarde, fui na portaria do prédio dos meus patrões e algumas prostitutas vieram falar comigo. Elas disseram que lamentavam por eu ter apanhado e me disseram que são sempre agredidas. Elas mostraram marcas de balas de borracha no pescoço e roxos pelos braços e costas, provocados por pancadas de tacos de beisebol – afirma a empregada.

Apesar do mal causado por Rubens Arruda, Rodrigo Bassalo, Felippe de Macedo Nery, Leonardo Andrade e Júlio Junqueira, Sirlei diz que não tem raiva dos pais dos jovens e que eles não podem ser considerados culpados pelos atos dos filhos deles.

- Até mesmo se eles (pais) tivessem sido negligentes, nem assim eles seriam culpados. Os filhos não são crianças, eles me bateram, riram, sabiam o que estavam fazendo. Sou mãe e entendo o sofrimento dos pais que também estão "sangrando" com toda essa história – lamenta.

Depois de acareação entre os cinco acusados, o titular da Delegacia de Polícia da Barra, delegado Carlos Augusto Nogueira, as investigações tomaram novo rumo, com a possível presença de um sexto acusado, que teria fugido com os gritos de uma mulher que, do outro lado da rua, viu a empregada doméstica ser agredida e gritou por socorro. O sexto jovem atenderia pelo nome de Arthur.

- Não me lembro de tudo o que aconteceu, estava tonta. Fiquei sabendo dessa sexta pessoa pela imprensa mesmo. – confirma.

E ainda enfatiza:

- Quando eles me abordaram, já vieram me chamando por nomes baixos e logo me deram um chute no rosto, que fez com que eu caísse no chão. Protegi o rosto. Só vi os quatro que estavam me batendo e o quinto, que estava encostado no carro, de braços cruzados, rindo e incentivando o resto do grupo.

Os cinco jovens foram levados para a Polinter, carceragem do Estado. Ainda estão sendo investigadas as informações de que eles teriam se envolvido em uma briga com um grupo de outros 15 jovens em um posto de gasolina e de que um dos rapazes já teria participado de uma agressão a garotas de programa. Deve ser ouvido, ainda hoje, de acordo com o delegado Carlos Augusto Nogueira, o taxista, que foi testemunha do caso e possibilitou que os acusados fossem encontrados, por ter anotado a placa do carro usado por eles.

Dor e medo, sentimentos que acompanham a doméstica, que até agora não consegue pensar no futuro.

- Tenho pavor de tudo. Foi horrível encontrá-los (os cinco jovens) na delegacia. Sempre que lembro do que aconteceu, arranjo um jeito de fazer outra coisa. A ficha ainda não caiu. Fico só pensando o que vai ser do mundo daqui há uns 15 anos, por exemplo, quando o meu filho atingir a maioridade. – conclui Sirlei, que passou mais uma noite turbulenta, entre dores e febre.

Ligação forte com o filho

Mãe de um menino de apenas três anos, a empregada contou que ele acordou no exato momento em que ela estava apanhando do grupo e perguntou ao pai, muito aflito, por onde Sirlei andava.

- Foi algo incrível mesmo. Meu filho acordou chorando, perguntando tudo. Quando cheguei em casa, não tive como esconder, contei tudo. Ele pegou um pregador de roupas e disse que bateria nos "moços maus" que me bateram e que apertaria os narizes deles com o pregador.

A resposta da mãe, marcada pela covardia, foi surpreendente:

- Disse a ele que não se pode agredir as pessoas assim. Expliquei pra ele que isso não resolve. E ainda digo mais. Se fosse o meu filho que tivesse feito isso tudo, seria a primeira a levá-lo para a delegacia e entregá-lo. Ele teria que pagar pelo erro que fez. Diferente do que disseram por aí, se é homem para bater, então é homem para pagar pelo que fez – desabafa.

[ 12:10 ]   27/06/2007