VIENA - Uma campanha artística provocante para a próxima presidência da União
Européia, que será ocupada pela Áustria, suscitou polêmica em Viena por causa
de imagens "pornográficas" envolvendo os presidentes Chirac, Bush e a rainha
da Inglaterra, e também biquínis sugestivos nas cores da Europa.
Sob pressão da opinião pública, os dois cartazes mais polêmicos da campanha
foram retirados e um dos seus criadores denunciou "uma censura pública", segundo
um comunicado dos organizadores da campanha.
O jornal popular Kronen-Zeitung, a oposição social-democrata (SPO) e a igreja
católica pediram na quinta-feira o fim imediato desta campanha beneficente de
subvenções governamentais. Já os responsáveis do projeto "Europart", que reúne
75 artistas dos 25 países da União Européia, reivindicavam o direito à liberdade
de criação.

Entre as imagens que mudam a cada dez segundos nos painéis publicitários, a
mais controversa é a do espanhol Carlos Aires (31 anos): ela mostra três pessoas
nuas num terraço, com máscaras do presidente francês Jacques Chirac, da rainha
Elizabeth II e do presidente americano George W. Bush.
Um outro cartaz provocou reações negativas: um corpo de mulher com as pernas
afastadas, que mostravam uma pequena calcinha nas cores da UE, azul com estrelas
amarelas. O artista berlinense de origem iugoslava Tanja Ostojic quis fazer
uma referência ao célebre quadro do pintor francês Gustave Courbet "A origem
do mundo" (1866), que mostra uma genitália feminina.
Um dos responsáveis da campanha, o coordenador dos teatros nacionais Georg
Springer, anunciou que um ou dois dos 150 temas expostos seriam retirados por
questões de "custo", desmentindo que seja por causa da "pornografia". "Fico
satisfeito de que haja toda esta agitação", mas não houve "vontade de provocar",
disse nesta quarta-feira à TV.
"Ninguém qualificaria Egon Schiele de pornógrafo", acrescentou Springer, referindo-se
ao artista austríaco que provocou escândalo no início do século XX por seus
desenhos e pinturas eróticas.
Segundo ele, a equipe do grupo "25 Peaces" tentou "criticar a globalização
e ironizar a UE".
O chanceler conservador Wolfgang Schuessel, que assumirá no dia 1º de janeiro
a presidência rotativa da UE, afirmou através de sua porta-voz Heidi Glück que
não tinha autoridade para proibir os cartazes. Contudo, ele pediu que os responsáveis
pela campanha se abstivessem de tratar de alguns temas.
Segundo ela, a subvenção geral de um milhão de euros para o grupo artístico
"25 Peaces" não se destina especificamente a "este projeto artístico independente".
"Isto não é verdade", contestou nesta quinta-feira um responsável social-democrata,
Joseph Cap, ao se referir a uma subvenção específica de 500 mil euros.
Gabi Burgstaller, governadora do SPO na província de Salzburg, denunciou as
imagens polêmicas de "sexo", afirmando que elas são "ruins para a UE". Ela pediu
que estas imagens não sejam expostas em janeiro em Salzbourg (centro), onde
acontecerá uma cúpula européia.
O caso gerou um intenso debate político-cultural na Áustria. Enquanto a extrema-direita
expressa sua indignação, um editorial do jornal Die Presse (direita) defende
que "a arte crítica no espaço público deve provocar. Do contrário, a sociedade
não tem chances de sobrevivência".
O grupo "25 Peaces" multiplicou as ações artísticas em Viena em 2005 por ocasião
dos 60 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e dos 50 anos da retirada das tropas
de ocupação aliadas. No entanto, algumas dessas ações foram vetadas por serem
muito provocativas.
AFP