Por um mundo santo e embrulhado em papel jornal

Juliana Maria

Livro recém-lançado conta depoimentos de ex-membros do Opus Dei

Diz a objetividade jornalística que uma boa matéria deve ouvir, pelo menos, três fontes de informação. A ética exige do repórter a competência para buscar sempre os "dois lados" da notícia. Mas quando o assunto em questão é a religião, tudo fica mais complicado. Não poderia ser diferente a discussão levantada pela recente publicação do livro escrito por Dario Fortes Ferreira, Jean Lauand e Marcio Fernandes da Silva e que já está entre os mais vendidos na categoria não-ficção. "Opus Dei - Os Bastidores", da Editora Versus é o primeiro livro de críticas à instituição a ser lançado no Brasil - muitos já foram publicados em outros países. O mais famoso deles é "Tras el Umbral; una vida en el Opus Dei" que foi o escrito pela ex-numerária espanhola Maria de Carmen Tapia.

O Opus Dei é uma prelazia da Igreja Católica que foi fundada em 1928 pelo santo espanhol Josemaria Escrivá e possui hoje cerca de 80.000 membros em todo o mundo. Prelazia é uma figura jurídica da Igreja Católica que está prevista no Código de Direito Canônico (a constituição da Igreja Católica). O Opus Dei é uma instituição com um prelado de fiéis (sacerdotes e leigos) que se reúnem por opção pessoal e não por uma questão territorial, como ocorre com os bispos diocesanos.

Em "Opus Dei - Os Bastidores", os autores explicam que os membros, chamados de numerários, são homens e mulheres que vivem a castidade no "meio do mundo", têm vida profissional, doam seus salários para os diretores das casas onde vivem e praticam mortificações. As mais conhecidas são o uso da disciplina - uma espécie de chicote - e do cilício - um cinto largo eriçado de pontas de arame, usado sobre a perna.

Jean Lauand e os amigos revelam essa realidade que muitas vezes é desconhecida para os leigos freqüentadores dos meios de formação oferecidos pela prelazia. Mas eles contam, ainda, como, na opinião deles, a instituição consegue, através da manipulação velada das mentes dos seus membros, causar-lhes sérios transtornos psíquicos e emocionais. Algo muito semelhante à história contada pelo clássico de George Owel, 1984.

Muitos dos relatos apresentados tanto no livro como no site www.opuslivre.org contam que a maioria numerários tornaram-se membros quando ainda eram muito jovens (entre 15 e 17 anos). Mas para o autores, essa "vocação" não surge espontaneamente. Segundo eles, primeiro os adolescentes são convidados a freqüentarr os chamados "centros de estudos universitários". Nesses centros, separados por sexo, moram os numerários e numerárias encarregados de fazer "apostolado" e trazer novas vocações para o Opus Dei. Apenas as numerárias auxiliares, que se dedicam ao trabalho doméstico, entram nas casas musculinas.

De acordo com o livro, num determinado momento, um numerário diz para o jovem que frequenta os "centros de estudo" que ele tem vocação, gerando na pessoa um conflito existencial que muitas vezes é solucionado através do ingresso na instituição. O que os autores querem mostrar é por que e como alguns desses membros demoraram 20 anos para conseguir sair.

Por um mundo santo

Se de um lado os ex-membros procuram mostrar com energia algumas das barbaridades do Opus Dei e reivindicam uma reforma nos métodos por ela utilizados (o que segundo os autores só seria possível através da intervenção da Igreja), de outro, a resposta da prelazia revela um pensamento que não poderia estar em desacordo com a doutrina da Igreja Católica.

A carta oficial do Opus Dei, escrita por João Gustavo C. Racca em resposta à publicação do livro, cita algumas palavras de São Josemaria, pronunciadas aos jornalistas Enrico Zuppo e Antonio Fugardi, do jornal L' Osservatore della Domenica, em 1968, por ocasião de denúncias semelhantes as divulgadas pelo livro recém publicado no Brasil.

"As coisas simples são às vezes difíceis de explicar. Essas calúnias estão totalmente desclassificadas há tempo: ninguém acredita mais nelas", dizia.

Mas para os autores, o que desejava o fundador era cativar os jornalistas para a causa do Opus Dei e, quem sabe, para que se tornassem também membros vocacionados e assim divulgassem o ideal da santidade no meio do mundo, embrulhando-o em papel jornal.

João Gustavo Racca aconselha ainda, na carta oficial do Opus Dei, que o leitor visite o website da prelazia: www.opusdei.org.br e conheça os livros do fundador da instituição, dentre eles o mais lido: Caminho, que pode ser comprado na editora Quadrante.

Ainda de acordo com a carta oficial, O Opus Dei tem por fim promover entre pessoas de todas as classes da sociedade uma profunda tomada de consciência da chamada universal à santidade e do valor santificador do trabalho cotidiano. São Josemaria Escrivá costumava repetir que "o trabalho não é apenas um dos mais altos valores humanos e meio com que os homens devem contribuir para o progresso da sociedade; é também caminho de santificação".

Em "Forja", um de seus livros mais famosos, Josemaria escreve: "O diabo trata de afastar-nos de Deus e, se te deixas dominar por ele, as criaturas honradas afastar-se-ão de ti, porque se 'afastam' dos amigos ou dos possuídos por satanás". Dá pra imaginar o que aconteceria à alguém caso de afaste da instituição, abandonando a sua "vocação"? É o que "Opus Dei - Os Bastidores" tenta responder.

DEPOIMENTO

"Putz!... Quantas vezes ouvimos: "Não troque sua vocação por um prato de lentilhas!"; "Abandonar a vocação, significa abrir mão da felicidade nessa vida e na outra"; "Reze pela alma daquele que deixou a Obra"... e tantas outras histórias de "bicho-papão" para não deixarmos o Opus Dei. Posso garantir que com o tempo isso vai parecer um monte de besteiras... Ninguém pode nos condenar senão nós mesmos"

Depoimento de um ex-numerário retirado do site www.opuslivre.org

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[20:21] [20/12/2005]