Manuel Ostos
TÚNIS - A Organização para a Libertação da Palestina (OLP) espera que o chefe de seu departamento político, Faruk Kadumi, assuma um papel estratégico na era que se inaugura para os palestinos depois da morte de Yasser Arafat.
Esse é o desejo do pequeno grupo de subordinados desse departamento que, assim como seu responsável, não quiseram ir aos territórios ocupados e continuam vivendo na capital da Tunísia.
A razão para essa permanência foi a rejeição total aos acordos de paz de Oslo, assinados em 1993. E, em vista dos acontecimentos posteriores à instalação de Arafat na Faixa de Gaza, em julho de 1994, consideram que o tempo lhes deu razão.
Kadumi, de 73 anos, encarna a linha mais dura da direção palestina e, graças a sua condição de amigo incondicional de Arafat, manteve seu cargo, apesar da contrariedade de outros dirigentes palestinos que abandonaram a Tunísia para se instalar na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.
O chefe do departamento político da OLP e Yasser Arafat formaram um sólido bloco durante os 12 anos do exílio tunisiano do presidente palestino, e seus seguidores afirmam que eles sofreram ao ter de se separar, em 1994.
Kadumi manteve sua negativa em acompanhar Arafat à Faixa de Gaza, afirmava sempre que foi um erro assinar os acordos de Oslo com Israel e votou contra a modificação da Carta Nacional palestina para incluir nela o reconhecimento do Estado judeu.
Com a morte de Arafat, Kadumi passou a ocupar a chefia do movimento Al Fatah e substituiu o líder falecido. O peso de Kadumi na direção palestina é tal que, embora a Autoridade Nacional Palestina (ANP) tenha um ministro de Exteriores, Nabil Shaath, Kadumi é considerado o verdadeiro chefe da diplomacia palestina.
Fora da Tunísia, o principal apoio de Kadumi sempre esteve na Síria, desde os tempos do falecido Hafed Al Assad, e ao seu lado se mantiveram dois grupos radicais palestinos, a Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) e a Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP).
Os líderes dessas duas facções radicais - Ahmed Saadat, que em setembro de 2001 sucedeu Ali Abu Mustafá, assassinado pelos israelenses - sustentam a linha de Kadumi e o apóiam.
Kadumi propôs que o Executivo palestino se reunisse fora dos territórios ocupados, mas o pedido não teve a menor repercussão por parte do triunvirato formado pelo presidente interino Ruhi Fatuh, o primeiro-ministro Ahmed Qorei (Abu Alá), e o chefe da OLP, Mahmoud Abbas (Abu Mazen).
Após o anúncio da morte de Arafat, Kadumi se dirigiu aos três e declarou que "chegou a hora, para todos os membros do comitê executivo da OLP, de se agrupar e adotar as decisões que se impõem com confiança e serenidade".
Segundo seus partidários, a crença política de Kadumi é defender antes de tudo a unidade de todas as facções palestinas, incluindo as mais radicais, e evitar tudo o que possa dividi-las.
Tal filosofia vai de encontro à configuração real do movimento palestino e é difícil de se supor que os novos dirigentes instalados em Ramala a aceitem, já que são partidários de uma linha moderada.
Se deseja ser um dos principais protagonistas da era pós-Arafat, Kadumi não terá outra alternativa a não ser abandonar a Tunísia e viver nos territórios ocupados.
À frente do Al Fatah, Kadumi pode se tornar um firme aliado de Mahmoud Abbas ou entrar em dissidência com quem tem agora a autoridade da OLP. Esta é uma das próximas incógnitas que a colônia palestina da Tunísia espera ver esclarecida o mais depressa possível.
Agência EFE